O novo plano da Yat Yuen para o futuro dos galgos inclui não só o prolongamento do uso da área do canil por 120 dias como a mudança para os estábulos antigos do Jockey Club. Segundo o plano da empresa, esses pedidos têm como objectivo exportar os galgos para Hainão, confirmou o IACM à TRIBUNA DE MACAU. A “bola” fica agora no campo das Obras Públicas e do IACM, libertando a DICJ de responsabilidades na matéria

 

Liane Ferreira e Viviana Chan

 

A Companhia de Corridas de Galgos (Yat Yuen) surpreendeu a sociedade ao endereçar à Direcção de Inspecção e Coordenação de Jogos (DICJ) o plano relativo ao destino dos galgos que vivem no Canídromo, uma vez que esse documento tinha vindo a ser exigido pelo Instituto para os Assuntos Cívicos e Municipais (IACM). A empresa foi ainda mais além ao pedir não só para continuar a usar o canil do Canídromo como os estábulos antigos do Jockey Club. No entanto, este tempo extra tem como objectivo preparar a exportação dos galgos para Hainão no âmbito de um projecto de turismo, segundo soube a TRIBUNA DE MACAU e confirmou o IACM.

As corridas de cavalos e de cães naquela ilha chinesa têm sido uma hipótese debatida, tendo em conta a preparação de uma proposta por agências governamentais chinesas sobre a liberalização de alguns tipos de actividades de jogo, divulgada inicialmente em Fevereiro deste ano. Questionada sobre a exportação dos galgos para Hainão, a porta-voz da DICJ não comentou directamente o assunto e remeteu o tema para a competência do IACM.

À TRIBUNA DE MACAU, o Instituto confirmou que a intenção de exportação da Yat Yuen está em análise e pode demorar algum tempo, porque há “muitos problemas técnicos para serem avaliados”. “O plano foi muito geral, ainda faltam pormenores para posterior análise. Para além disso, ainda temos de ver se o governo de Hainão legaliza a respectiva actividade ou não”.

Em Junho, numa nota de imprensa para justificar o facto de ainda não ter iniciado os trabalhos de adopção dos galgos, o Canídromo mencionou a ideia de investir num projecto de turismo. “Estamos a cooperar com um projecto de turismo fora de Macau e esperamos que possa criar um lar permanente para os galgos”, disse a Yat Yuen, assegurando na altura que iria visitar o local para “assegurar o ambiente do futuro lar”.

 

Troca de responsabilidades

Em comunicado, a DICJ indicou ontem que a Yat Yuen solicitou autorização para que seja prorrogado o prazo do uso da área do canil, por mais 120 dias, a contar do termo do prazo da permanência até 20 de Julho. Além disso, prometeu concluir os processos de realojamento dos galgos e de saída do Canídromo dentro do mesmo prazo.

“Mais se solicitou no referido pedido para que seja autorizada a ocupação, de forma provisória, das cavalariças desocupadas da Companhia de Corridas de Cavalos de Macau (Jockey Club) para colocar os galgos até serem adoptados”, diz o organismo.

A DICJ explica que, tendo quem conta que depois de 20 de Julho, o aproveitamento do terreno do Canídromo “deixará de incidir sobre as actividades no âmbito da exploração das corridas de galgos, e atendendo que a fiscalização da gestão e aproveitamento do terreno não é da competência da DICJ, o referido pedido será reencaminhado para os serviços competentes”. A responsabilidade passa assim para a alçada da Secretaria para os Transportes e Obras Públicas, designadamente da Direcção dos Serviços de Solos, Obras Públicas e Transportes (DSSOPT).

Para além disso, a DICJ salienta ser necessário ter em atenção que o pedido de ocupação temporária do espaço do Jockey Club para colocar os galgos, deve ser apresentado pela empresa “junto dos serviços competentes pela fiscalização do aproveitamento do terreno, tendo em conta a alteração da finalidade” do lote em questão.

A TRIBUNA DE MACAU tentou obter uma reacção junto do Secretário Raimundo do Rosário e da DSSOPT, mas sem sucesso até ao fecho da edição.

“É ainda necessária a autorização dos serviços competentes no âmbito da protecção e gestão animal para que essa Direcção de Serviços possa fazer a apreciação do pedido em causa”, acrescenta a nota da DICJ. Ou seja, o IACM terá de emitir uma autorização indicando que as antigas cavalariças estão em condições para receber os galgos.

Com esta “jogada” confirmam-se as suspeitas denunciadas pelo presidente da Sociedade Protectora dos Animais de Macau (ANIMA) de que funcionários do Canídromo estariam a preparar o Jockey Club para a transferência.

O plano proposto pelo Canídromo isenta assim a DICJ de futuras responsabilidades já que deixa de estar em causa a exploração das corridas.

No entanto, importa frisar que o bem-estar dos galgos é a única condição estipulada no contrato de concessão no que aos animais directamente diz respeito, não havendo pontos específicos sobre a venda ou procriação. Foi exactamente devido a esta falha que o Canídromo começou a criar galgos, quando a importação da Austrália foi bloqueada e nove cães da Irlanda ficaram retidos na Grã-Bretanha, sem nunca chegar ao território. Desde então, não vieram mais cães de corrida para Macau. Contas da ANIMA apontam para a existência de pelo menos 40 crias de galgos. Estas não fizeram parte do projecto de adopção da empresa, que apenas disponibilizou galgos reformados.

Aliás, até ao momento, não foi confirmado o número concreto de cães adoptados e por adoptar. No início da onda de adopção contavam-se 650 animais.