Em Macau, o Mundial de Futebol é uma época tão grandiosa como o Ano Novo Chinês para as lojas de equipamentos desportivos. Este ano, as vendas das camisolas de Portugal têm registado procura acrescida, sobretudo devido à conquista do título de campeão europeu em 2016. Enquanto algumas lojas já esgotaram “stocks” de equipamentos da equipa das quinas, outras ainda conseguem colocar as camisolas vermelhas e verdes em lugares de destaque para atrair clientes. Na área dos alimentos, também se sente bem o impacto do Mundial, ao contrário do sector do turismo

 

Rima Cui

 

Em vésperas do arranque do Mundial de Futebol 2018, que decorrerá na Rússia entre amanhã e 15 de Julho, a atmosfera futebolística é notória em Macau, apesar de não atingir o entusiasmo que se vive na China Continental, onde se assiste a uma “invasão” de produtos alusivos ao evento nas lojas, restaurantes e até nos “reality-show”.

Camisolas da Alemanha, Argentina e Japão têm registado boa procura nas lojas da marca Adidas

Por norma, as grandes competições de futebol, como o Mundial e o Europeu, fazem florescer sempre os negócios das lojas de material desportivo em Macau. O Mundial da Rússia também não foge à regra, motivando o crescimento das vendas de camisolas das selecções nacionais com mais de um mês de antecedência, conforme explicaram à TRIBUNA DE MACAU responsáveis de estabelecimentos comerciais situados na Rua do Campo e na zona do COTAI.

“As camisolas da selecção portuguesa são, sem dúvida nenhuma, as mais vendidas, obviamente porque a equipa teve recentemente bom desempenho em jogos importantes. Vendemos por dia entre 10 a 20 camisolas das selecções nacionais, sendo metade da portuguesa. Acredito que isto também tem a ver com o facto de Macau ter sido administrado por Portugal e muitas pessoas encararem o país como segunda terra natal”, salientou a empregada de uma loja na Rua do Campo que vende exclusivamente equipamentos da Nike.

Pastelarias prepararam bolos de aniversário especiais

Ao partilhar uma experiência recente com um cliente que comprou de uma vez cinco camisolas da formação “liderada” por Cristiano Ronaldo, a funcionária revelou que a loja opta por colocar as camisolas de Portugal nos lugares mais visíveis para “agradar aos gostos dos adeptos”.

Noutra loja de produtos da Nike, uma aluna estagiária apontou também as camisolas do campeão europeu em título como as mais populares, com a clientela a ser “metade da China, metade de Portugal”. A jovem indicou ainda que o equipamento alternativo de Portugal de cor branca tem a mesma receptividade da camisola principal.

Marca de produtos lacticínios oferece bilhetes para jogos na Rússia

Apesar de entender que os locais gostam mais de basquetebol do que futebol, um jovem que trabalha numa loja da mesma marca no resort Galaxy Macau também confirmou a “liderança” portuguesa nas vendas. A procura das camisolas vermelhas com colarinho verde escuro tem sido tão forte que alguns tamanhos já estão esgotados.

Para além de Portugal, a Nike vende ainda camisolas do Brasil, França e Inglaterra.

Mundial está “presente” em vários produtos alimentares

Já nas lojas da Adidas, são comercializados sobretudo equipamentos das selecções alemã, espanhola, argentina, colombiana, mexicana e sueca. Como seria de esperar nesta marca, as camisolas da Alemanha, vencedora do Mundial de 2014, destacam-se nas vendas, superando as da Argentina e Espanha.

Por outro lado, empregados de lojas da Adidas no Galaxy Macau e na Rua do Campo salientaram que as camisolas azuis escuras do Japão têm gerado um bom volume de vendas. Embora ocupe apenas o 61º lugar no “ranking” da FIFA, a selecção japonesa é bastante popular entre os clientes de Macau, simplesmente devido ao “design bonito” da camisola, apontaram os dois funcionários.

 

Dos bolos aos cromos

Por outro lado, embora o aproveitamento do sector comercial não seja tão amplo como noutros mercados, a oferta inspirada no Mundial não deixa de ser diversificada em Macau. Na área da gastronomia, por exemplo, as pastelarias “Mário” e “Saint Honore” estão a promover bolos de aniversário especiais, totalmente cobertos de cor verde semelhante ao relvado e encimados por bolas de futebol feitas de chocolate.

Mundial está “presente” em vários produtos alimentares

Durante este período de fervor futebolístico, quem entrar num McDonald’s também poderá encontrar um novo menu que apoia directamente a selecção alemã. O método escolhido passa simplesmente por colocar no hambúrguer chucrute, ingrediente muito comum na culinária alemã.

Nalguns supermercados, logo junto à entrada, saltam à vista placards em que a marca de produtos lacticínios “Mengniu” associa a imagem de Lionel Messi à oportunidade de obter bilhetes para jogos na Rússia. A marca do Continente chinês já começou a tirar proveito do Mundial há alguns meses nas garrafas de iogurtes, estampando os nomes de algumas selecções qualificadas para a fase final do campeonato em quatro línguas, nomeadamente as da Espanha, Portugal, Brasil e Argentina.

A “Vita”, conhecida marca de bebidas de Hong Kong, também não quis perder terreno, passando a “vestir” os seus chás de limão com caras de adeptos das selecções. Desta vez, a marca da região vizinha apostou na Colômbia, Bélgica, Japão e Rússia, para além das equipas tradicionalmente como fortes, como a Alemanha, Espanha, Argentina e Brasil. Ao contrário de 2016, desta vez, a “Vita” “abandonou” Portugal e França nas suas acções publicitárias.

Lojas de fotografia oferecem descontos durante o Mundial

Por sua vez, algumas lojas de equipamentos fotográficos apostaram em campanhas publicitárias simples, oferecendo descontos até 50% de produtos durante o período do Mundial. Também a rede de ourivesaria “Chow Tai Fook”, apesar de não mencionar directamente o evento no novo cartaz de publicidade, inscreveu informações promocionais numa imagem que mostra figuras de cartoon a jogar futebol num relvado.

Já na Livraria Portuguesa, para além dos cromos de futebol, é possível encontrar ímanes para frigoríficos com caricaturas de jogadores da selecção portuguesa. Entre as 11 opções surgem, entre outros, Cristiano Ronaldo, Rui Patrício, Pepe, William Carvalho, Bernardo Silva e Fábio Coentrão, apesar de este não integrar o lote dos convocados por Fernando Santos para a fase final na Rússia.

 

Pouco impacto no turismo

“Em Macau, há fãs de futebol loucos pelo Mundial e, onde quer que se realize, vão lá sempre ver os jogos. Mas nesta ocasião, os preços dos hotéis das cidades russas encareceram extremamente, o que pode abalar a vontade de muitos interessados em fazer uma longa viagem, no período em que decorre o evento desportivo. Por isso, acho que o Mundial não tem muito impacto no sector de turismo de Macau”, afirmou o presidente da Associação de Indústria Turística de Macau.

“Chow Tai Fook” faz alusão indirecta ao campeonato

Mesmo assim, Wu Keng Kuong disse à TRIBUNA de Macau que os voos “charter” operados pela “Royal Flight” entre Moscovo e Macau poderão ter mais procura do que oferta durante o Mundial. Normalmente, os voos, que incluem duas ligações por semana, registam taxas de ocupação entre 70% a 80%, de acordo com o mesmo responsável.

Para o período compreendido entre 1 de Junho e 20 de Julho, a agência de viagens “Hong Thai” não organizou qualquer grupo turístico para o país anfitrião do Mundial 2018, porque os hotéis e voos já tinham sido quase todos reservados.

Livraria Portuguesa vende ímanes para frigoríficos

Funcionários das agências de viagens “Grupo Multinacional de Macau” e “Sunflower Travel” indicaram no início de Maio que, embora disponibilizem grupos turísticos normais para a Rússia no período do Mundial, poucas pessoas consultaram as respectivas informações. Na sua opinião, o grande evento futebolístico está, de certo modo, “isolado” da área turística.

Normalmente, uma agência de viagens consegue organizar por mês três ou quatro grupos para a Rússia, com 20 a 30 pessoas em cada excursão. Porém, como a maioria dos voos parte de Hong Kong, o interesse dos residentes de Macau por aquele país “ainda está por crescer”. Uma viagem de oito dias em grupo pode custar cerca de 15 mil patacas, explicou um funcionário da “Sunflower Travel”.