A Cabo Verde TradeInvest e a Macao BringBuys Web Technology encontraram-se na China para discutir a criação de um polo tecnológico em Cabo Verde. Ana Lima Barber, que preside a TradeInvest, garantiu à TRIBUNA DE MACAU que o projecto envolve mais de 20 milhões de dólares, e que na área das telecomunicações o seu país passou de comprador a fornecedor de serviços
Salomé Fernandes
A Cabo Verde TradeInvest, presidida por Ana Lima Barber, realizou uma visita de três dias à China, no seguimento de um acordo de cooperação assinado em Junho de 2018 com a empresa Macao BringBuys Web Technology. O balanço feito da missão foi positivo e Ana Lima Barber garante que a sua equipa já está a trabalhar no sentido da implementação do projecto.
A viagem correu “muitíssimo bem” afirmou Ana Lima Barber à TRIBUNA DE MACAU. “Esta relação empresária e económica já começa a ganhar outra velocidade, a entrar num outro patamar, e tem de ser vista já num modelo diferente”, referiu. Em causa está o avanço de Cabo Verde nas telecomunicações em África, que permite ao país funcionar enquanto plataforma para outros mercados. “Já não estamos na posição de comprador, estamos na posição de fornecedor. É este o câmbio que se deu, é esta a mudança”.
O documento assinado em Junho no âmbito do 12º Encontro de Empresários para a Cooperação Económica e Comercial entre China e Países de Língua Portuguesa inclui a intenção da BringBuys configurar um centro de computação em nuvem, um centro de dados “offshore”, instituições de treino e incubadoras em Cabo Verde com planos de entrada noutros países da África Ocidental.
A TradeInvest foi acompanhada pelo Núcleo Operacional da Sociedade de Informação, NOSI, representado pelo administrador executivo Aruna Handem, que descartou problemas relativamente à protecção de dados. “Temos uma comissão de protecção de dados em Cabo Verde, obviamente que esta questão lhes será levada para analisarem e darem o seu parecer”, comentou, acrescentando que “esta questão não é da nossa competência, temos é de levar a tecnologia e o investimento, depois há as instituições responsáveis para fazer o devido enquadramento”.
A prioridade dentro da tecnologia, acredita ser a formação e a capacitação. “Neste momento qualquer tecnologia a ser desenvolvida temos de capacitar os nossos técnicos para sustentar essa tecnologia”, comentou.
Ao nível do acordo, o administrador executivo da NOSI afirmou que “ainda há muita discussão pela frente”, algo que vai passar pelo modelo da tecnologia a ser levada, a formação, a capacitação ou mesmo a sustentabilidade. Mas garantiu ser uma oportunidade “excelente” para Cabo Verde. “Sempre tivemos boas relações com a China, trabalhámos há muito tempo com empresas chinesas em termos do desenvolvimento das tecnologias de informação e esta é uma oportunidade que não podemos deixar de aproveitar”.
E para aproveitar esta oportunidade e as relações com a China, são necessárias parcerias. “O sector privado é o cerne do desenvolvimento de qualquer país. (…) A implementação dos projectos de acordo com os sectores prioritários do país de acordo com o que o país realmente precisa tem de passar pelo sector privado”, disse Ana Lima Barber.
Plataforma de internacionalização
Apesar de optar por não providenciar detalhes sobre o acordo, a responsável indica que “as coisas estão no bom caminho”, de tal forma que a Macao BringBuys Web Technology está a servir de modelo para a componente privada, já que o acordo envolve muitas áreas distintas, prevendo-se que outras empresas ganhem interesse em investir em Cabo Verde. A internacionalização é, de resto, um dos pontos que frisou: “há uma potencialidade enorme em termos do mercado africano”.
“Esta plataforma vai permitir ter aqui serviços enormes, imensos, e também trabalhar com as outras empresas chinesas que já produzem – estou a falar de milhões em termos de lucros – que estão só no mercado chinês porque não conseguem ir para os outros mercados por falta de informação”, apontou. Assim, nesta ida à China, encontrou-se também com empresas da área alimentar, das novas tecnologias e de outras indústrias.
Em causa estão muito mais do que 20 milhões de dólares, avançou Ana Lima Barber, acrescentando que no final de Setembro haverá uma viagem a Cabo Verde para nova fase no processo de implementação. “O nosso foco é um só: desenvolvimento económico sustentável, integrado e equilibrado das 10 ilhas”, disse, acrescentando que “a nossa determinação é excelência”.
Para isso, a mão de obra é também um aspecto relevante. Cabo Verde terá dentro de dois anos um campus ligado às ICT com capacidade para cerca de 5.000 alunos, pretendendo-se que, apesar de poderem trazer mão de obra do exterior, estas empresas utilizem os quadros jovens locais. É “muito mais barato contratá-los, são engenheiros, arquitectos, mas dar a nossa realidade que tem mais baixo do valor em si, por isso é que se acaba por pagar menos, mas tem a mesma qualidade”, garantiu.
Mas este desenvolvimento não substitui o papel da RAEM. “Macau continua a ser importante, é a nossa complementaridade. Cabo Verde é complementar a Macau. É preciso perceber que cada país e cada Região Administrativa Especial têm a sua potencialidade, temos é de perceber como podemos ser complementares”, indicou, frisando que o papel de Cabo Verde passa por ser uma plataforma económica, regional e africana.



