Promover a imagem de Cabo Verde a nível internacional, atrair investimento de qualidade e trabalhar na promoção da exportação são alguns dos objectivos a que se propõe a TradeInvest – agência pública presidida por Ana Lima Barber. Em entrevista à TRIBUNA DE MACAU, a responsável abordou as metas e intenções para incrementar o desenvolvimento turístico e diversificação económica, salientando ainda as vantagens de um país que, segundo entende, é a “aposta da China para a África”
Catarina Almeida
A TradeInvest foi criada em Julho de 2016 com o propósito de diversificar o turismo de Cabo Verde no sentido de criar “uma nova imagem” mostrando que o país insular “está aberto ao mundo para o negócio”, explicou a presidente da agência pública que substituiu a Comissão Instaladora da Cabo Verde Investimentos.
“É uma agência que já existia mas não tinha a mesma função, objectivos e competências. Tem agora como missão promover o investimento, facilitar no sentido de acompanhar os investidores e exportadores, e acompanhar todos os investimentos que entram em Cabo Verde”, frisou Ana Lima Barber, que esteve na RAEM para participar no seminário que assinalou os 15 anos do Fórum Macau.
Dentro da linha estatal definida para o turismo e diversificação da economia do país, a TradeInvest está focada em criar um ambiente de negócios “muito mais favorável”. Para isso, pretende-se “atrair investimento de qualidade, trabalhar na promoção da exportação” e capacitar a agência “para ser mais eficiente, eficaz e excelente”, vincou. A agência apostou, primeiramente, numa restruturação interna não só com a formação do pessoal que já existia como na contratação de cinco novos quadros que, segundo Ana Lima Barber, “têm outra experiência, valências e visão”, o que é “uma mais-valia”. No fundo, deseja-se “criar uma adrenalina diferente porque temos de ter visão, solução e resultado”, trabalhando “sempre com um plano”, destacou.
A reestruturação permitiu à agência “não só [ter] serviços novos como definir um novo plano estratégico”, e num ano, começaram a surgir resultados. “Foi um ano com um balanço excelente. Batemos recordes: estamos a falar de 28 projectos aprovados, mais de 355% do que encontrei. Sem querer descurar, naturalmente, os trabalhos que foram feitos anteriormente, a nossa TradeInvest [está] focada com outra energia, visão e medidas do Governo. Temos de trabalhar no sentido de executá-las e trabalhar com as outras entidades públicas”, disse.
Em termos do prazo de resolução de projectos para Cabo Verde também houve avanços já que “reduziu drasticamente de mais de 190 dias para uma média de 50 dias”. “E a minha meta não é essa. Costumo dizer que ainda nem no campo entrei, estou apenas a aquecer. É uma visão diferente: tendo esta imagem de arrumar primeiro a casa, ir buscar investimento – aliás, o resultado já é esse, fizemos alguns trabalhos, e depois fazer o seguimento do trabalho a ser feito lá fora”, explicou.
Com a missão de promover o turismo cabo-verdiano em várias vertentes, e não só o de “sol e mar”, a TradeInvest vê também no Fórum Macau uma mais-valia. Mas, mais do que isso, Ana Lima Barber quer fazer de Cabo Verde “uma plataforma para a África e Mundo”. E os ingredientes para isso já existem. “Este trabalho de atrair investimento de qualidade do país e no sentido da exportação tem obviamente que se basear em planos. O nosso plano estratégico é, precisamente, atrair e fazer de Cabo Verde uma plataforma para a África e o Mundo. E Cabo Verde está geograficamente bem situado: a uma hora do Senegal, três horas e meia de Portugal, duas horas das Canárias, a seis horas e meia dos EUA e do Brasil a quatro horas”, salientou.
Esta vantagem geográfica não só permite “atrair grande negócios” como dar seguimento e fortalecer outros já existentes, mas onde ainda não há uma aposta significativa – pelo menos para aquilo a que a TradeInvest se propõe alcançar. “Temos conectividade aérea, estamos a trabalhar nesse sentido, e também no ‘transshipment’ – passam milhares de barcos em Cabo Verde e é uma oportunidade de negócio enorme. Temos estabilidade política e social, uma população jovem, a crescer e altamente qualificada. Temos também uma atracção fiscal excelente”, apontou.
Cabo Verde tem também acesso a outros mercados, como o da OCDE que inclui uma fatia gigante de 340 milhões de pessoas, 15 estados e livre circulação de mercadorias, pessoas e bens. “Qualquer empresa que se instale em Cabo Verde e que constitua lá naturalmente terá acesso a esse mercado”.
A esse mercado soma-se a “parceria especial” com a União Europeia, EUA e dos países de língua portuguesa. Sendo Cabo Verde um dos membros do Fórum Macau, para Ana Lima Barber, a relação com a China também é, claro, importante. “Para esta relação aumentar e incrementar temos de ter as condições e nós temos todas as condições para receber investimento chinês e do sudeste asiático. A China é uma parceira especial de Cabo Verde. Temos alguns países e organismos com quem temos parceria especial. Queremos que esta relação seja, naturalmente, aproveitada dentro de ‘Uma Faixa, Uma Rota’”, vincou.
Essa plataforma permite “estar nesta linha económica onde existem investimentos e fundos que possam também aproveitar a posição geográfica em África e entrar. Falo dos dois lados, ou seja, incrementar esta relação de uma forma muito mais próxima mas sobretudo trabalhar nesta plataforma da China para a África. Cabo Verde é uma plataforma ideal, é a segunda a seguir a Macau”, sublinhou.
Cabo Verde pode “ser extremamente útil para a China no sentido de entrar em África”, refere Ana Lima Barber, convicta de que o país é “a aposta da China para a África e esta relação vai-nos permitir estar muito próximos”.
Adaptar à realidade
Através do Fórum Macau, a TradeInvest e Cabo Verde querem “dar a conhecer todas as valências” e as oportunidades de negócio, sendo que a agência quer contribuir para um desenvolvimento económico “sustentável e equilibrado”. “Temos 10 ilhas, o que isto nos permite? Organizar para que, com a nossa plataforma, tenhamos estas condições e desenvolvimento e atrair investimento de qualidade, promover os produtos e serviços made in Cabo Verde ao nível da exportação, criando um ambiente de negócio que permita a felicidade dos cabo-verdianos e de quem venha investir”, evidenciou.
O Fundo de Cooperação e Desenvolvimento China Países de Língua Portuguesa ainda não aprovou qualquer investimento para Cabo Verde. Apesar de classificar como positivo o trabalho que tem sido feito, Ana Lima Barber entende que o Fundo deve “dar um salto diferente, de concretização, adaptar-se à realidade para que possa responder às demandas que estão agora a surgir, porque o que precisamos agora, no sentido de dar este salto, é ver outras características, estar mais próximo”.
Esse mecanismo foi alvo de críticas durante o seminário de aniversário do Fórum Macau no sentido em que deveria ser mais acessível. Para Ana Lima Barber é preciso “trabalhar na capacitação dos nossos recursos humanos, que é a chave, porque o sector privado é o centro da economia. É o que move e cria mais postos de trabalho, que desenvolve, dinamiza e mete mais capitais em circulação de mercado. Quem está por detrás de tudo isso? Capital humano”.
“No plano de actividades deste ano há esta preocupação do Fundo ao nível de workshops, de como os seminários ajudam a conhecer os mercados e a preparar as pessoas, e essa formação tem de ser contínua e diversificada para que haja mais integração e mais conhecimento dos instrumentos e condições que cada país tem. É nesse sentido que o Fundo, claro, é útil”, salientou.



