No primeiro sábado de cada mês é uma azáfama, com dezenas de pessoas a entregarem cabazes a mais de 200 famílias. Numa manhã de sol ardente, conhecemos pessoas com rendimentos pequenos e a braços com a solidão ou que vivem num lar numeroso onde se gere apenas um salário

 

Quando nos aproximámos para fazer a entrevista, as  primeiras palavras de Luís foram: “Muito obrigado”. “O que é que posso dizer mais?”, questionou como que se estivesse certo que assim poderíamos saber o que sente. À medida que os minutos vão passando percebemos, porém, que a sua história de vida é tão longa que o mais moderno gravador não conseguiria ter capacidade para a registar. O seu rosto sombreado por um boné com o nome de uma operadora de jogo esconde as diversas voltas que deu no mundo e evidencia uma paragem entre paredes de solidão. “Vivo sozinho, não tenho reforma e por isso sou beneficiário do Instituto de Acção Social”, contou.

Pelo terceiro mês consecutivo, Luís carrega os sacos oferecidos pela Loja Social da Santa Casa da Misericórdia, sentindo alívio. “Do IAS recebo 3.400 patacas por mês o que é quase impossível… Tenho de pagar um quarto, mais luz, água”, disse o homem nascido em Macau. “Os cabazes contribuem bastante”, acrescentou sempre em português.

“Aprendi Português na escola. Também andei muito por África, em 1971. Trabalhei ainda em Macau, mas depois por várias razões deixei de trabalhar e sou beneficiário. O meu pai era natural daqui e a minha mãe era da América do Sul. É uma longa história. Se contasse a minha vida toda se calhar não chegava essa ‘cassete’”, partilhou.

Ao contrário da maioria dos beneficiários, que são seleccionados pelas associações dos Kaifong e dos Operários, Luís é um das duas dezenas de pessoas que acedem a esta ajuda directamente através da Santa Casa. “Vi no noticiário a primeira distribuição de cabazes e falei com o Sr. Freitas e depois disseram-me que tinha condições para ser beneficiário”.

Para a senhora Mak, o passado Dia da Criança foi o primeiro em que se deslocou à Loja Social para receber cabazes com alimentos de primeira necessidade. Os preços disparam e num tecto que inclui apenas o ordenado do marido as dificuldades acompanharam o ritmo da inflação. “Somos uma família de cinco pessoas: eu, o meu marido e os nossos três filhos. A mais velha com 17 e o mais novo com 4 anos. Eu não tenho trabalho. É só o salário do meu marido, que trabalha num casino e ganha acima das 10.000 patacas”, explicou.

20130603-107cOs alimentos que recebeu dão-lhe a esperança de um mês menos sofrido. “Temos de pagar a casa mensalmente e dependemos do salário do meu marido. Não resta muito para as outras despesas”, referiu a senhora Mak que optou por ficar em casa para cuidar dos filhos, um dos quais sofre de uma deficiência ligeira.

No próximo ano a filha irá concorrer a uma universidade para estudar Medicina, área que não poderá frequentar em Macau o que obriga os pais a fazer ainda um  esforço maior para lutar pelo seu futuro. “Como provavelmente terá de ir estudar em Hong Kong precisaremos de pedir uma bolsa empréstimo ao Governo”.

Luís e a senhora Mak fazem parte das cerca de 220 famílias que reúnem requisitos para beneficiar da Loja Social da Santa Casa, que mensalmente atribui cabazes com bens de primeira necessidade. A funcionar desde Fevereiro o projecto conta até Setembro com o apoio das operadores de jogo – no sábado foi a vez da Galaxy contribuir com 200 mil patacas.

“Já abordámos algumas pessoas e estou confiante que vamos continuar com o apoio das operadoras de jogo. Já está apalavrado. E, para além das operadoras, falámos com outras entidades. Temos recebido palavras encorajadoras”, sublinhou o Provedor da Santa Casa.

Assim, depois de Dezembro deverão estar reunidas as condições para que se prolongue a distribuição de cabazes  pelo menos por mais 12 meses. “Para o ano estamos seguros que o patrocínio não vai ser um problema para continuar este projecto. Em 2015 logo se verá”, afirmou António José de Freitas.

Embora Macau seja um território próspero, o Provedor da Santa Casa acredita que faria sentido desenvolver este plano a longo prazo para ajudar os que sofrem com a pressão do desenvolvimento. “Creio que há necessidade de que este seja um projecto contínuo, porque independentemente de vivermos numa sociedade desenvolvida o progresso tem o seu preço, apesar do muito que o Governo tem feito”.

O programa destina-se precisamente a ajudar pessoas que não conseguem ser elegíveis para outros benefícios de cariz governamental. Por exemplo, os utentes do Banco Alimentar, actualmente gerido pela Caritas, não poderão recorrer à Loja Social. “Os nossos beneficiários não são pessoas com muitas dificuldades, mas sofrem uma pressão diária para enfrentar a carestia de vida”.

Nós últimos meses foram poucos os agregados que beneficiaram várias vezes dos cabazes. Isto porque as associações responsáveis pela selecção têm encontrado mais famílias com necessidades. “Das 200 famílias que ajudamos as que se repetem mensalmente são cerca de 20 a 30”, calculou António José de Freitas.

 

F.A.