Os casos de fogo posto e de burla, sobretudo por via telefónica, registaram os crescimentos mais significativos entre 2016 e o ano passado, indicam dados apresentados por Wong Sio Chak no balanço da criminalidade em 2017. O Secretário para a Segurança admite que os casos de burla telefónica são particularmente difíceis de investigar e sublinha que as situações de que tem conhecimento são apenas as que são denunciadas às autoridades

 

Inês Almeida

 

Fazendo um balanço da criminalidade do ano passado, o Secretário para a Segurança sublinhou que “o que mereceu a atenção” das autoridades foi, particularmente, o acréscimo para mais do dobro dos casos de fogo posto. “Registaram-se 54 casos, o que representa uma subida de 30 casos comparativamente aos 24 do ano de 2016”, equivalendo a uma subida para mais do dobro ou 125%. No entanto, ressalvou Wong Sio Chak, 70% destes casos já foram resolvidos.

De acordo com as investigações, 28 dos 54 casos de fogo posto foram provocados por pontas de cigarro deixadas em lugares inapropriados, pelo que a Polícia “tem aproveitado canais diferentes para divulgar o trabalho de sensibilização, educação cívica e prevenção da criminalidade, explicando aos cidadãos que é preciso também assumir responsabilidade penal por negligência”.

De recordar que, há cerca de duas semanas, também a Polícia Judiciária alertou para este problema.

Outro dos crimes que registou um aumento considerado significativo foram as burlas, contabilizando-se 910 em 2017, mais 22,5% que no ano precedente. “Entre essas ocorrências, a burla telefónica, que perturba mais a vida dos cidadãos”, aumentou de 29 casos em 2016 para 270 em 2017. “Os meios mais utilizados foram o ‘quem sou eu’, e ‘fazer-se passar por funcionário de órgãos estatais ou funcionário dos Serviços de Migração do Corpo de Polícia da Segurança Pública”, contando-se 24 e 143 casos respectivamente.

As autoridades também notaram que houve uma mudança constante do “modus operandi” dos burlões e, apesar do reforço nas actividades de sensibilização, surgiu uma nova forma de casos de burla. Entre as 270 situações deste género que ocorreram ao longo do ano passado, 104 resultaram em prejuízos que totalizaram 39,69 milhões de patacas.

Wong Sio Chak admite que a investigação deste tipo de crime é difícil. “Não há processos instaurados se não houver perdas. Só quem tem perdas comunica à Polícia. A investigação deste tipo de crimes é difícil. Na China podem destacar dezenas de pessoas para investigar”, frisou o Secretário para a Segurança, revelando que já foi solicitado o apoio das autoridades da Província de Guangdong para “encontrar a origem destes telefonemas”.

 

Crimes ligados ao jogo sem impacto na segurança

Os casos de sequestro ou agiotagem decresceram 7,5% e 4,5%, respectivamente, e ocorreram maioritariamente dentro de casinos, levando o Secretário a frisar que o aumento das receitas no sector do jogo “ainda não trouxe quaisquer consequências para a segurança de Macau”.

Sublinhando que a polícia não recebeu informações sobre qualquer irregularidade no comportamento de associações secretas devido ao ajustamento das receitas do jogo, Wong Sio Chak salientou que não há indícios de que o desenvolvimento do sector possa “trazer factores de instabilidade para a segurança da sociedade”.

Embora a criminalidade grave e violenta se tenha mantido num nível baixo, vários delitos nesta categoria registaram aumentos. Em 2017, registaram-se 39 casos de “associação criminosa”, o que representa uma subida de sete quando comparado com os 32 ocorridos no ano anteriores.

Os dados agora apresentados mostram que alguns crimes contra a pessoa registaram aumentos. Ao longo do ano passado registaram-se três homicídios, mais dois que em 2016. Os crimes contra a integridade física cresceram 1,8% e os casos de violação subiram 20,7% para 35.

A mesma tendência verificou-se nos casos de abuso sexual de crianças, que cresceram 12,5%, para 18, contra 16 em 2016. As situações de injúria subiram 27,8% para 147. Pelo contrário, os casos de ofensa grave à integridade física, de sequestro e de ameaça diminuíram.

Ainda assim, Wong Sio Chak referiu os quatro casos de sequestro de devedores que resultaram na morte das vítimas, por suicídio ou queda durante a fuga, informando que já foram resolvidos. “Os autores e lesados são residentes do interior da China. A polícia vai prestar mais atenção a estes casos, bem como reforçar a comunicação e a cooperação” com as autoridades do Continente.

Os crimes contra o património cresceram 5,6% motivados pelo aumento de 214% no furto de uso de viatura, de 11,3% nos furtos em residências 10,2% nos roubos e 22,5% nas burlas.

 

Menos consumo e tráfico de droga

Os dados das autoridades mostram que entre 2016 e 2017 se deu um decréscimo nos crimes de tráfico e consumo de droga, de 15,4% e 24,2% respectivamente, no entanto, tendo em conta o “perigo das drogas para a segurança da sociedade” as autoridades continuam a dar atenção a este tipo de criminalidade.

Verificou-se um decréscimo no número de jovens envolvidos no crime de delinquência juvenil, tendo registado 45 casos com a participação de 53 jovens, um número idêntico ao registado em 2016. A maioria das ocorrências está relacionada com ofensas simples à integridade física, com 32 casos.

Em todo o ano de 2017, as autoridades policiais instauraram 14.293 inquéritos criminais, o que traduz uma diminuição de 94 casos, ou seja, menos 0,7%. Para o Secretário, em geral, a situação da segurança manteve-se “favorável e estável”.

Além disso, foram detectados 1.061 imigrantes ilegais, menos 31,7% que em 2016, dos quais 821 são provenientes da China Continental e os restantes 240 indivíduos de outros países, entre os quais 224 são de nacionalidade vietnamita. Por outro lado, registaram-se 3.238 pessoas em situação de excesso de permanência de titulares de visto individual e 22.166 em situação de excesso de permanência de titulares de outros documentos do interior da China, bem como 1.678 estrangeiros em situação de excesso de permanência.

 

Multas a taxistas aumentaram 30%

Nas operações de fiscalização e de combate a infracções dos taxistas, a polícia efectuou 5.491 autuações em 2017, o que representa um aumento de 1.339 multas em comparação com as 4.152 contabilizadas no ano anterior, equivalentes a uma subida de 32,3%. De acordo com dados divulgados pelo Secretário para a Segurança durante o balanço da criminalidade em 2017, 3.180 casos envolveram cobranças excessivas, motivando 57,9% das multas. Seguiu-se a recusa de tomada de passageiros que ocupou 28,7% dos casos, com 1.574 multas. Houve ainda 1.232 autuações por prestação de serviço de transporte ilegal.

 

Proibição de entrada a jornalistas “não tem a ver com a profissão”

O Secretário para a Segurança respondeu na sexta-feira às críticas tecidas pela Federação Internacional de Jornalistas face à interdição de entrada de jornalistas no território “quando há acontecimentos sensíveis”, dando particular ênfase à passagem do tufão “Hato”. “Já referi que a Polícia agiu de acordo com a lei. Não é por serem jornalistas que proibimos a entrada”, sublinhou Wong Sio Chak. “Durante o Hato muitos jornalistas de Hong Kong e de fora entraram [em Macau] e reportaram a situação. Até houve órgãos da China que transmitiram a situação de Macau”, destacou o Secretário.