O design da futura Biblioteca Central deve ser apelativo mas sem “ocultar a importância cultural do edifício classificado”. Com base num conceito que se espera ser “original e futurista”, a infraestrutura vai manter a fachada do edifício do Antigo Tribunal bem como a escadaria interior da ala leste do edifício da antiga sede da PJ. Já os elementos que venham a ser adicionados devem reflectir “ideias criativas, tradicionais e inovadoras a nível arquitectónico, artístico e urbanístico, de modo a melhor harmonizar a articulação e integração entre o antigo e o novo”, indica o processo do concurso de elaboração de projecto da Nova Biblioteca Central a que a TRIBUNA DE MACAU teve acesso
Catarina Almeida
A futura Biblioteca Central deve ser estruturada de forma a converter-se num “marco cultural” que combine o moderno e o antigo. Para além da necessidade de manter a aparência do edifício do Antigo Tribunal é também “preciso garantir a harmonia da fachada do novo edifício com o existente”, lê-se no plano de necessidades do concurso público para a elaboração do projecto da Nova Biblioteca Central a que a TRIBUNA DE MACAU teve acesso.
A imagem da nova biblioteca deve reflectir um “espaço de diálogo para a população da cidade”, funcionar como um “portal de conhecimento e transmissão da cultura local”. Deve ser também um dos “centros de lazer da cidade e uma base para actividades culturais”, bem como representar uma “expressão do espírito de arquitectura ecológica”.
Com o concurso público aberto até 9 de Julho, os interessados em elaborar o projecto de concepção devem respeitar uma série de requisitos gerais que, entre outros aspectos, prevê a preservação integral do edifício construído em 1951 que acolheu vários serviços públicos.
O edifício “sofreu várias intervenções internas posteriores à construção e os vários serviços foram sendo gradualmente transferidos para outros locais, à excepção do Tribunal de 1ª Instância” – que acabou por ser transferido, em 2003, para outro local.
O Instituto Cultural, entidade responsável pelo concurso público, reitera que o edifício em causa é de “interesse arquitectónico” pelo que devem ser preservadas a “estrutura, fachada, escadaria principal, cobertura e o pavimento”.
Em contrapartida, na fachada dianteira do edifício da antiga sede da Polícia Judiciária (PJ) podem ser projectados “ajustamentos apropriados” com base em “concepções projectuais específicas, que viabilizem a ligação adequada entre os espaços novos e antigos do edifício”.
Assim, os “espaços e elementos arquitectónicos que sejam adicionados ao edifício do Antigo Tribunal deverão reflectir ideias criativas, tradicionais e inovadoras a nível arquitectónico, artístico e urbanístico, de modo a melhor harmonizar a articulação e integração entre o antigo e o novo”, refere o plano de necessidades do processo do concurso público.
De forma geral, o projecto deverá prever “a conservação e recuperação integrais da fachada principal existente e da escadaria interior de madeira original da ala leste do edifício da antiga sede da PJ” – prédio que no decurso dos anos sofreu “várias intervenções de conservação e ampliação”.
Com estes condicionamentos estipulados no projecto de arquitectura, o Governo pretende que, após a conclusão, o Edifício do Antigo Tribunal permaneça “intacto”, “exponenciando o contributo positivo do edifício da nova Biblioteca e (…) fazendo do mesmo um caso exemplar de integração urbanística harmoniosa e relação equilibrada entre espaços históricos e modernos”.
Em relação ao interior, o “adjudicatário poderá proceder à alteração e reutilização” de zonas que “não revelam características especiais ou cuja estrutura não esteja em bom estado” através da “integração, reordenamento ou reconfiguração dos mesmos, aproveitando o que seja viável da parte existente para assim criar condições mais holísticas”.
Construção faseada
Para permitir uma “utilização mais célere de parte da biblioteca”, as obras serão “executadas e concluídas faseadamente de modo a que o edifício do Antigo Tribunal possa ser aberto ao público após a conclusão da primeira fase”, lê-se no documento referente aos serviços a prestar pelo adjudicatário e requisitos técnicos da prestação de serviços.
Por estes motivos, é preciso ter em conta “as necessidades decorrentes da execução faseada das obras e da abertura faseada das instalações, elaborando um plano de execução adequado e viável e apresentando todas as medidas apropriadas”.
Por sua vez, deve também ser submetido um relatório de avaliação ambiental, do tráfego automóvel e da circulação de pessoas – temas que suscitaram muitas críticas e chamadas de atenção que, inclusive, chegaram a pôr em causa a continuidade dos planos do Governo para estabelecer a Biblioteca Central no edifício do Antigo Tribunal por estar numa zona com elevado tráfego.
Precisamente tendo em conta a zona da cidade onde o edifício se insere, além de ser necessário “salvaguardar e respeitar os elementos de valor arquitectónico e artístico do edifício”, a empresa que ficar responsável pelo design deve também seguir uma série de directrizes que permitam “respeitar o tecido urbano”. Assim, o projecto deverá “prever a compatibilidade entre as secções novas e antigas” e “assegurar o equilíbrio entre o novo e o antigo”, especialmente no que toca à futura aparência exterior.
“Deverão ser preservadas as marcas deixadas pelo tempo no edifício, bem como alterações anteriores, incluindo ampliações, demolições ou outras transformações significativas, a fim de não afectar a interpretação da história do edifício”.
Uma fachada expressiva
A futura Biblioteca Central deve ser dotada de espaços com uma “concepção viva e capaz de reflectir o espírito de servir melhor a população”. Mas, o “mais importante é que o projecto seja capaz de proporcionar aos leitores um espaço de leitura confortável que os faça sentir como se estivessem numa sala estar, apesar de não se encontrarem em casa”, refere o plano de necessidades.
Além de uma “certa flexibilidade” que permita alterações aos espaços consoante necessidades futuras, o projecto de arquitectura da biblioteca deve prever uma fachada “dotada de grande expressividade e flexibilidade para atender às necessidades dos diferentes tipos de actividades a realizar e reflectir a vitalidade cultural da biblioteca”. O “rosto” do edifício deve também “ser apelativo” mas sem “ocultar a importância cultural do edifício classificado nem prejudicar a sua interpretação ou apreciação”. “O ambiente, volume, forma exterior, escala, características, cor, textura e material do novo edifício podem ser semelhantes à estrutura existente mas a imitação deve ser evitada”, aconselha.
Mais, espera-se do adjudicatário um design que permita “criar uma imagem adequada” sendo que toda a imagem e conceito do projecto global deve ser “original e futurista”.
No que respeita às atribuições e futura missão da nova infraestrutura, o Governo quer que a biblioteca seja vista como o “novo núcleo principal da rede de bibliotecas públicas” onde estará albergado o principal depósito de documentos de Macau. Além de promover a formação profissional e a investigação pretende-se ainda “potenciar o profissionalismo dos funcionários e a qualidade do serviço das bibliotecas”. Com um “acervo de serviços físicos e digitais para atender à necessidade de pessoas de todas as idades e diferentes níveis de escolaridade”, a biblioteca central deverá promover a “cultura de inovação, estimulando também a imaginação e a criatividade das crianças e dos adolescentes”, promovendo hábitos de leitura a partir da infância.
Uma das intenções incluiu a concepção de um espaço para “eventos culturais e artísticos, criando assim condições para o diálogo intercultural, aumentando a importância do património cultural, da apreciação artística e dos desenvolvimentos científicos”.
Espaços abertos durante 24 horas
Para criar um espaço de leitura e aprendizagem sempre disponível, será adoptado um modelo de utilização parcial dos espaços da biblioteca por 24 horas aplicado a áreas de estudo e de leitura, em conjugação com os equipamentos de auto-atendimento como os de empréstimo e devolução de livros.
Além destes, a nova infraestrutura deverá alojar outros espaços especiais como zona arquivo de colecções especiais (a construir no local mais seguro da biblioteca), sala de microfilmes e digitalização, sala de desinfestação de documentos, entre outros.
Para uso público haverá diferentes zonas para crianças, idosos, invisuais e de estudo. Em termos de lazer multifuncional, poderão ser utilizadas salas de exposições, de projecção para grupos, sala da história da biblioteca pública da RAEM, cafetaria ou casa de chá, livraria e loja de artigos culturais e criativos, terraço com jardim e ainda o Museu da PJ – projectado para a ala oeste do edifício da antiga sede da PJ, com uma sala de exposições de 170 a 180 metros quadrados.
O projecto de concepção deve “tentar manter a aparência e os materiais originais da sala de detenções”.



