A música dos Beatles chega ao Centro Cultural de Macau através de uma companhia de Barcelona que junta o som à dança para estimular crianças entre os zero e os três anos de forma não infantil

 

Salomé Fernandes

 

Quatro músicos e uma bailarina sobem ao palco do auditório pequeno do Centro Cultural de Macau entre hoje e domingo para interpretarem músicas dos Beatles a bebés. O grupo “La Petita Malumaluga”, de Barcelona, adopta uma linguagem não infantil a produções artísticas contemporâneas para crianças entre os zero e os três anos de idade.

“Acreditamos muito em linguagem adulta como a melhor para comunicar com as crianças, tentamos evitar linguagem ou música infantil. As crianças são muito sensíveis a tudo, creio que compreendem muito bem, mais rapidamente do que pessoas mais velhas quando se está a mostrar uma verdade, a mentir ou a representar”, disse Albert Vilà, que integra a direcção artística com Eva Vilamitjana.

O músico acredita que apesar de existirem músicas interessantes para crianças, a generalidade é muito simples, e que não há necessidade de perceber música para a apreciar. “Acredito que se pode aproveitar música sem pensar na sua forma, harmonia, ou enquanto um músico. Na verdade o mundo inteiro aprecia música e apenas algumas pessoas se especializam nisso”, comentou.

O objectivo da companhia passa então por dar às crianças ferramentas emocionais para respeitar o que as rodeia, mais do que no impacto cognitivo que a actividade pode promover. “Às vezes com crianças há esta ideia de um cérebro vazio onde se podem colocar coisas, e nós não seguimos essa linha [de pensamento]. Só queremos dar o melhor espectáculo possível, a melhor música para que possam divertir-se”, referiu Albert Vilà.

Para explicar a ideia, usou a comida enquanto metáfora. Não acredita em menus de criança mas sim em oferecer a gastronomia completa para que os mais pequenos possam experimentar tudo. “Não acreditamos demasiado no conceito de bebés Einsteins, só tentamos falar com respeito e oferecer muito amor e verdade”, comentou, indicando que se ganharem paixão por música serão certamente melhores pessoas. De resto, reconhece que independentemente da influência específica da actividade esta é positiva porque os bebés se sentem relaxados.

A escolha de música dos Beatles deve-se por um lado, ao gosto pessoal da companhia pela banda. “Mudaram completamente a música, houve uma evolução muito grande a partir deles”, comentou Albert Vilà. Por outro lado, as suas músicas são constituídas por “harmonias muito interessantes e complexas” que se adaptam aos instrumentos musicais que constituem o grupo. Os gestos da bailarina são acompanhados pela sonoridade de um violino, um violoncelo, um saxofone e percussão.

 

Uma ideia de comunidade

A companhia diz que tenta ser honesta no que expressa e sente, usando música, movimentos e uma linguagem complexa. E fazê-lo incluindo toda a família, para que a cadeia de comunicação não sofra quebras. Um conceito facilitado pela disposição do espectáculo, em que os participantes se sentam no palco, numa tenda branca, junto com os artistas.

“Com a tenda gostamos da ideia de comunidade, porque no espectáculo as pessoas sentam-se a toda a volta, 360 graus, de forma a envolver todos os participantes. É um desafio muito interessante. E os bebés podem andar livremente se assim quiserem. É um conceito de tribo em que estamos todos e aproveitamos a música em proximidade”, explicou o director.

O tom de branco da tenda serve para unificar o espaço. A “La Petita Malumaluga” rejeita que o cor de rosa seja para raparigas e o azul para rapazes, querendo mostrar uma visão mais contemporânea, sem seguir as regras de um espectáculo para crianças. “Parece que as cores da Disney são cores para crianças, e porquê? Porque é que um bebé não pode apreciar um Picasso, um Degas, um Matisse? Se estas cores são poderosas para nós certamente que também são poderosas para elas”, questionou.

Mais do que da parte das crianças, que reagem instantaneamente, as diferentes reacções fruto da cultura de país é perceptível através dos pais, que sendo adultos normalmente demoram mais tempo a soltar-se. Quando consegue, a companhia adapta o repertório ao país, visto que para além dos Beatles inclui mais algumas músicas. A Macau, trazem como “surpresa de última hora” a canção cantonense “irmão João”.