A evolução dos tempos fez com que os tubos e andaimes de aço tenham vindo a substituir gradualmente o bambu como principal material nas obras na China Continental. No entanto, este sector, que em simultâneo é uma arte tradicional, prevalece em Macau. Visíveis por todo o lado, os andaimes de bambu oferecem salários elevados a quem domina a técnica e se arrisca. Se o perigo de trabalhar em altura e o cansaço de desafiar o sol e a chuva constituem motivos de queixas por parte de centenas de operários não residentes, para os trabalhadores locais é um orgulho trabalhar num sector onde se recebe bem e não existem oscilações. Apesar de algum “vazio” devido à falta de operários jovens, a Associação dos Barraqueiros de Macau acredita que esta fase menos positiva é apenas temporária. Ainda assim, apela ao financiamento do Governo e à organização de cursos de formação, e sobretudo critica a mentalidade retrógrada dos jovens que encaram o conforto como o critério mais importante para a escolha de empregos

 

Rima Cui

 

Com o rápido desenvolvimento económico da China e das regiões administrativas especiais, a construção floresceu e os andaimes tornaram-se parte das paisagens citadinas. Mas, com a passagem do tempo, os andaimes de bambu, cuja origem remonta ao período anterior à primeira dinastia da China – a dinastia Xia (do século XXI A.C. ao XVI A.C.) -, têm vindo a ser substituídos pelos tubos de aço. Hoje em dia, na China Continental é muito raro encontrar andaimes formados por essas canas, mas a técnica antiga ainda reina em Macau, tendo sido até incluída no Inventário do Património Cultural Intangível, reconhecida como “a Arte dos Andaimes de Bambu”.

Actualmente, centenas de operários dominam essa técnica no território, mas apenas 50 a 60 são locais, de acordo com Ho Kam Sing, presidente da Associação dos Barraqueiros de Macau, criada há 66 anos. O envelhecimento representa uma “dor” de um sector tido como um dos “mais nobres” nos estaleiros de obras, garantindo um rendimento médio diário de cerca de 1.500 patacas aos operários locais e pelo menos 600 patacas a não residentes.

Wu Wan Ha, Chiu Tak Siu e Ho Kam Sing (da esq. para a dta.) integram a Associação dos Barraqueiros, fundada há 66 anos

Em declarações à TRIBUNA DE MACAU, Ho Kam Sing, “barraqueiro” com 40 anos de experiência, reconhece que o sector está a enfrentar uma situação de “vazio”, por haver muito poucos jovens interessados neste trabalho.

“Aos olhos das pessoas fora desta área, a montagem de andaimes de bambu parece perigosa e cansativa. Hoje, os pais protegem cada vez mais os filhos e entendem que a entrada na universidade é o único caminho profissional que existe. Além disso, no início da liberalização do jogo, mal os jovens acabavam a escola secundária, corriam para os casinos”, explica.

Embora esse vazio de profissionais continue a crescer, o presidente da associação acredita piamente que a profissão “não vai desaparecer”.

 

62 anos de experiência e destreza

Chiu Tak Siu, director da mesma entidade, tem até mais experiência do que Ho. Quase a chegar aos 70 anos, recorda que entrou nesta área de actividade quando era apenas uma criança de 12 anos.

“Gostava muito que houvesse sangue novo no sector, que conseguíssemos incentivar os jovens a aprender a técnica. No ano passado ainda conseguimos convencer quatro universitários”, contou, notando porém que a história não teve um final feliz.

O cansaço e a intensidade da formação necessária acabaram por se transformar em “desculpas” e três deles desistiram da aprendizagem. “O outro ainda se manteve até ao tufão ‘Hato’, mas depois nunca mais apareceu”, explicou o mestre de andaimes de bambu.

Apesar de tudo, Chiu Tak Siu fala com orgulho sobre a técnica que domina e lhe proporcionou “benefícios para toda a vida”. Tendo em conta a longa experiência e destreza, o operário confessa que, às vezes, até se esquece de usar o cinto de segurança.

“Hoje em dia, a oferta de trabalho é cada vez mais diversificada e a maioria dos jovens considera que o conforto no trabalho é o critério mais importante num emprego. Mas é uma ideia errada. Basta olhar para muitos sectores em voga, como o jogo, que um dia, se calhar, ficará saturado e não conseguirá disponibilizar mais lugares”, destacou Chiu Tak Siu.

Na perspectiva deste profissional experiente, “como todos os anos há novos graduados das universidades e as pessoas têm de constituir família e sustentar os filhos, precisam de um emprego estável e com bom ordenado”, algo que esta arte consegue oferecer.

Considerando ser difícil encontrar em Macau um trabalho que satisfaça ambos os critérios, Chiu assevera que a montagem de andaimes de bambu é uma dessas excepções. “Já quase não existem profissões como esta, que as pessoas podem exercer durante dezenas de anos”, frisou.

“O sector está apenas a viver um período menos positivo, mas é temporário. Não continuará a sofrer sempre de falta de mão-de-obra”, garantiu, ao relembrar que, depois de ter vivido uma fase semelhante na década de 70, “voltou à vida” nos anos de 1980 e 1990 com o lançamento de um grande número de obras.

 

“Quem entra, não quer sair”

Numa profissão que, por norma, é associada apenas aos homens, também existe pelo menos uma mulher. Wu Wan Ha, operária local com um tom de pele moreno próprio de quem passa os dias no exterior, labora há 16 anos nas torres de bambu, dominando a técnica.

“Vale a pena ficar toda a vida neste sector. Quem entra, não quer sair. Pouco a pouco, deixamos de sentir medo das alturas e percebemos que o cansaço existe em todos os trabalhos, mas este emprego dá-nos uma remuneração mais elevada do que os outros”, salienta.

Wu Wan Ha conta que aprendeu a montar andaimes inspirada pelo marido, Chiu Tak Siu. Quando desce dos bambus, esta operária de perfil corajoso e forte age como qualquer outra mãe e mulher chinesa, divertindo-se a partilhar fotografias e frases filosóficas sobre a vida no “WeChat”.

Durante a conversa com a TRIBUNA, mostrou fotografias publicadas na rede social chinesa, sendo que a maioria inclui situações de trabalho entre as canas. Ao mostrar andaimes especiais ou que requerem técnicas mais difíceis, Wu não escondeu sorrisos de evidente orgulho.

Para esta trabalhadora, também membro da Associação dos Barraqueiros, o sector “vai existir para sempre”. “O aço nunca pode substituir o bambu, porque as suas canas são mais leves e as obras feitas mais rapidamente e com maior flexibilidade. Além disso, é muito mais barato. É impossível recorrer a tubos de aço quando se quer montar andaimes a partir do meio ou topo de um edifício alto”, sustentou.

No entanto, tendo em conta a actualidade, Wu Wan Ha espera que o Governo possa financiar os jovens que queiram aprender a montar andaimes de bambu, para que essa arte continue a passar para as gerações vindouras. Segundo a operária, mesmo os alunos mais talentosos, precisam de pelo menos um ano de aprendizagem e prática para poderem trabalhar.

Em meados de Janeiro de 2018, o Governo apoiou a associação na realização de um colóquio sobre a técnica. A reacção foi boa, mas ainda não se sabe quando será realizado o próximo evento.

Para os responsáveis do sector, a solução para colmatar o problema da falta de pessoal passa pela abertura de cursos de formação, por um lado, para que os jovens aprendam a técnica e, por outro, passem a valorizar este trabalho e percebam as suas vantagens.

 

Correr “riscos” para poupar

Por sua vez, Fang, operário não residente, oriundo de Xinhui, assevera que “se não fosse pelo facto do salário ser bom, não fazia um trabalho tão perigoso e cansativo”.

Depois de ter ouvido dizer que este trabalho era equivalente a cerca de 700 patacas por dia, este homem de meia idade decidiu “correr o risco” e, depois de dois anos de aprendizagem com um mestre idoso, começou a “aventura” em Macau.

“A situação do sector não é assim tão má como muitos se têm queixado, porque conseguimos arranjar muito trabalho para fazer”, afirmou. Contudo, nota que cada vez mais operários abandonam essa profissão e os jovens representam uma percentagem extremamente pequena no total de profissionais em actividade. “Em média, os operários têm entre 50 e 60 anos de idade”, referiu.

Apesar de tudo, Fang, “pilar” económico da sua família, destaca que, entre o suor do trabalho, consegue apreciar esta arte antiga e tradicional. “É um trabalho perigoso, mas também envolve muitas técnicas interessantes”.

De qualquer modo, admite ter sentimentos mistos sobre o trabalho, pois apesar de ganhar 700 patacas por dia, quase não descansa durante o ano todo, desafiando muitas vezes o calor e a chuva. Além disso, muitas vezes tem de subir até uma altura de 50 andares. “Obviamente não vou fazer este trabalho toda a vida. O meu plano é trabalhar cá mais dois anos para poupar um pouco mais e depois voltarei para a minha aldeia”, revelou.

Fang explicou que os bambus são importados das Províncias de Guangxi ou Guangdong e podem ser conservados no máximo por três anos. Depois do término de uma obra, os operários precisam de avaliar a qualidade das canas para eliminar as que estejam deterioradas ou em risco de destruição. Normalmente, podem ser reutilizadas durante um a dois anos.

Operário Au

Ao contrário de Fang, cuja preparação foi curta, Au, de 53 anos, começou a lidar com os bambus quando tinha apenas 16 anos. Dia a dia, ano a ano, as subidas às torres desse material da natureza e a resistência ao sol não só lhe deixaram rugas profundas na cara, como também diversas doenças no corpo.

“Até hoje, continuo a ser um trabalhador não residente. O trabalho é muito cansativo, mas tenho de fazer isto, não tenho outra hipótese porque preciso de sustentar a família e os filhos. Por mais cansado que me sinta, tenho de continuar. Hoje em dia, muitos operários nem conseguem arranjar trabalho”, lamentou.

Au revelou que recebe normalmente 600 patacas por dia, mas os pagamentos também dependem muitas vezes da vontade dos patrões, o que gera uma certa situação de insegurança. Além disso, queixa-se que alguns empregadores os tratam “como se fossem animais de carga”.

“Nem o bom pagamento atrai os jovens. Temos a técnica, mas não temos alunos. Os jovens de hoje são cada vez mais preguiçosos e não conseguem suportar um cansaço assim tão grande”, realçou.

Numa profissão em que o uso do cinto de segurança é obrigatório, Au sublinha que nunca teve acidentes. “Mas, isso é porque sou bom no que faço e uso cinto”.

De acordo com o operário, no território, o negócio prolifera sobretudo no período do Ano Novo Lunar. Em contrapartida, como em simultâneo também é uma “terra de tufões”, o sector ganha muito pouco durante um semestre.

 

Destreza técnica “amarrada” à história

A montagem de andaimes de bambu não necessita de pregos ou fundações no chão. Chiu Tak Siu, director da Associação dos Barraqueiros de Macau, explica que as canas são amarradas com fortes cordas ou braçadeiras de plástico, sendo esta a etapa mais importante. Operários mais experientes necessitam de apenas alguns segundos para executar essa tarefa mas têm de garantir alta qualidade, para que nem o vento, nem a força humana possam abalar os andaimes. Desde o final da dinastia Qing até ao estabelecimento da República Popular, a China foi afectada por guerras e catástrofes naturais que obrigaram o sector a enfrentar vários períodos negros, marcados por forte desemprego. No entanto, depois de 1949, a população voltou a celebrar certas festividades, através da montagem de portas comemorativas, como a que se vê no Largo do Senado no Dia da China, dando nova vida ao sector.