O Ballet de Zurique inaugurou o Festival de Artes de Hong Kong com “Anna Karenina” e o português Filipe Portugal, que dança na companhia há 15 anos, esteve na RAEHK. À TRIBUNA DE MACAU, confessou que o entusiasmo era geral e o papel envolvendo representação e dança traduz um sinal da maturidade como artista. Com uma carreira longa, o bailarino principal começa agora a coreografar, um passo natural que o levará aos EUA e Alemanha, para além de um retorno temporário a Lisboa
O grande auditório do Centro Cultural de Hong Kong esgotou para a abertura do Festival de Artes de Hong Kong com a peça de bailado “Anna Karenina” da companhia de Ballet de Zurique. Na noite de abertura, Filipe Portugal, bailarino principal voltou a vestir a pele de Alexei Karerin, o marido atraiçoado.
“Na verdade, não conhecemos bem o público asiático, mas toda a companhia está muito entusiasmada e estão a gostar muito da cidade”, disse ao Jornal TRIBUNA DE MACAU horas antes da estreia, confessando que tinha uma ideia distinta sobre Hong Kong. “É mais organizado e semelhante aquilo que estamos habituados na Europa”, frisou.
“Anna Karenina” foi coreografada por Christian Spuck, mas não é a primeira vez que sobe ao palco, por isso, não exige tanto tempo de preparação. “Este bailado foi criado há alguns anos para mim e para a bailarina principal Anna Khamzina. Somos os únicos do elenco original que se mantêm. O director deve ter demorado alguns meses, porque mesmo tendo a ideia da história, a música e o que se quer mostrar, quando se começa a trabalhar muitas coisas podem mudar”, esclareceu.
Assim, se os bailarinos não tivessem projectos paralelos, esta apresentação podia ser preparada mais rapidamente. “Pode demorar mais dependendo do número de pessoas novas que têm de aprender o papel. Também depende do trabalho que temos, porque não temos só este bailado. Se fosse só este, em duas semanas estaria pronto”, afirmou Filipe Portugal.
“Temos de relembrar, porque há duetos que têm de ser treinados em conjunto”, disse. O bailado de Spuck inclui duetos entre Anna e o marido, outros com o amante Vronsky e mesmo um trio destas personagens principais.
A obra do director do Ballet de Zurique é bastante aclamada por criar uma simbiose plena entre ballet clássico e contemporâneo e dar destaque a histórias paralelas do romance dramático, que normalmente ficam mais na sombra. As bilheteiras dos três dias de espectáculo esgotaram para ver a obra.
Há 15 anos com a companhia suíça, Filipe Portugal começou a carreira no Conservatório e depois foi convidado para a Companhia Nacional de Bailado, onde passou seis anos até à mudança internacional. Pelo meio, ainda esteve um ano em Portugal, mas admitiu ter sentido saudades de Zurique, uma cidade organizada e profissionalmente melhor com visão mais alargada em termos de dança.
Alexei em “Anna Karenina”
“Para um bailarino, não digo que para todos, chegar a bailarino principal é o objectivo. A pessoa trabalha e quer chegar a esse estatuto, para além disso é bom posicionar-se internacionalmente”, declarou o artista, notando que houve imensos bailados que o tocaram muito. “Tive sempre a sorte de dançar coisas muito interessantes e de o fazer em alturas que estava preparado. Hoje em dia, já não danço tudo, mas ainda tenho papéis como este, em que não é apenas dançar, mas também requerem muita representação, algo que gosto muito e no início da carreira somos inexperientes”, salientou.
Quando era mais jovem, os papéis eram mais focados na técnica e no aspecto físico, enquanto agora pode representar diferentes personagens. Apesar disso, os treinos são contínuos.
“Ser bailarino não é só fisicamente exigente, também é mentalmente. As pessoas têm de ser muito fortes e focadas. Vem muita da mente aprender os passos. Se não se conecta a mente com o corpo é muito difícil, mesmo sendo muito dotado fisicamente”, declarou.
Tempo de “transição”
Filipe Portugal começa agora outro papel, como coreógrafo. “Sempre quis fazer coreografia, mas demorei algum tempo até sentir que estava preparado para dar o próximo passo. Estou a debruçar-me mais nesse lado, porque é o caminho que quero tomar”, conta, acrescentando que a carreira de bailarino não é longa. Aliás, quando se trabalha com o corpo não se pode esperar que aguente o trabalho tão intensivo durante tantos anos.
“Estou a fazer uma transição. Quando perceber que não consigo fazer as duas coisas ao mesmo tempo, terei de deixar a dança e ficar inteiramente a coreografar. É dentro da mesma área e vou ter tanto ou mais prazer como tive até agora como bailarino”, admite. Assim, no final de Março vai aos Estados Unidos coreografar para a companhia de Ballet de Charlotte e depois a Estugarda participar num programa de jovens coreógrafos para o qual foi seleccionado.
Para além disso, no Verão estará três semanas em Lisboa a preparar um bailado para estudantes de um programa dos Estúdios Victor Córdon da Companhia Nacional de Bailado. De fora, não fica um futuro regresso a Hong Kong.
L.F.



