Sete associações de defesa dos animais e a Novo Macau exigiram ao Canídromo que apresente o mais rápido possível o plano sobre o futuro dos galgos e instaram o Governo a ser mais pró-activo na fiscalização dos galgos. As associações manifestaram-se contra a exportação dos cães para o Interior da China e pediram à empresa que castre todos os animais antes da adopção
Viviana Chan
O deputado Sulu Sou acredita que a questão do realojamento dos centenas de galgos da Companhia de Corrida dos Galgos (Yat Yuen) pode tornar-se na “maior crise” de animais do território, desde a entrada em vigor no dia 1 de Setembro de 2016 da Lei de Protecção dos Animais. Na sua opinião, o Canídromo não deve escapar às responsabilidades, devendo assegurar o futuro dos galgos após o fecho do espaço, no dia 20 de Julho deste mês.
Sulu Sou defende que os donos dos cães devem assumir todas as responsabilidades dos animais, mesmo nos casos em que estes necessitem de ser exportados para outro local. “Segundo a legislação, os donos dos animais devem assumir as responsabilidades se os animais precisam de ir para fora de Macau. Aliás, o Instituto para os Assuntos Cívicos e Municipais (IACM) tem fundamentos legais para obrigar o Canídromo ou os proprietários para cumprir este princípio”, disse.
Sulu Sou admite que, de acordo com o artigo 17º da Lei de protecção dos animais – procedimento em caso de impossibilidade de criação de animais – o Governo poderá ter pouco para fazer, mas o artigo 36º prevê que o presidente do Conselho de Administração do IACM possa determinar, consoante o caso, a implementação de medidas provisórias quando se verifiquem indícios bastantes de que um agente violou a presente lei e no caso de se produzir, sem tais medidas, lesão grave ou de difícil reparação dos interesses públicos. Ao mesmo tempo, a lei prevê que todas as despesas decorrentes da aplicação de medidas provisórias sejam suportadas pelo infractor.
Sulu Sou apontou o dedo ao Instituto para os Assuntos Cívicos e Municipais (IACM) salientando que “a responsabilidade principal é do Canídromo, mas isso não significa que o Governo pode escapar à sua responsabilidade e pelo menos, deve fiscalizar e acompanhar os galgos”.
IACM instado a ser mais pró-activo
O deputado fez-se acompanhar por um total de oito associações locais, a maioria ligada ao direito dos animais, incluindo a Associação de Protecção aos Animais Abandonados de Macau (APAAM), a Casa de Animais Abrigo dos Long Long, a “Everyone Stray Dogs Macau Volunteer Group”, a “Dandelion Animals Protect Association of Macau” e a Macau Animal Welfare Association (MAWA). A acção foi tomada após uma reunião com o IACM, que alegadamente terá deixado as associações ainda mais preocupadas com o futuro dos galgos.
Na conferência de imprensa convocada pela Associação Novo Macau, a presidente da AAPAM, Yoko Choi, defendeu que o IACM deve mais pró-activo e eficaz para assegurar que todos os animais tirados do Canídromo sejam castrados.
Explicando que, na reunião com o IACM, não foi revelado qualquer plano concreto, Yoko Choi indicou que o organismo público só garante que tomará uma acção depois de 20 de Julho. Para além disso, as associações emitiram um apelo ao IACM para não permitir a exportação dos galgos para o Interior da China, onde não existe lei dos animais.
Para Yoko Choi, a cultura de comer carne de cão, como por exemplo no Festival de Yulin, continua a ser comum porque a sociedade cívica não tem poder para evitar esse fenómeno.
Yoko Choi assegurou ainda que a APAAM enviou quatro cartas ao Gabinete do Chefe do Executivo, ao Gabinete da Ligação, ao IACM e à Yat Yuen, mas até ontem, não houve respostas. As cartas visavam chamar a atenção para o tratamento da centenas de galgos no Canídromo, solicitando uma resolução o mais rápido possível.
Questionados sobre o número exacto de galgos, todos os representantes das associações afirmaram desconhecer essa informação. Yoko Choi disse que apenas o IACM terá acesso a esses dados, porque o Canídromo prometeu informar o organismo sobre a mobilidade dos galgos daquele espaço.
Galgos a caminho do Jockey Club?
Albano Martins, presidente da ANIMA, fez saber ontem que informações recebidas pela associação indicam que os trabalhadores do Canídromo estão a preparar o Jockey Club para a recepção dos galgos. O Canal Macau disse ter indicações de uma outra fonte a confirmar os preparativos, no entanto, a Direcção de Inspecção e Coordenação de Jogos (DICJ) negou ter recebido o pedido.
“Não se sabe quantos animais estão em causa, porque disseram que foram adoptados da primeira vez e não foi verdade, outros foram devolvidos. É tudo tão confuso que o próprio IACM nem deve saber quantos são”, referiu Albano Martins a este jornal, salientando que a DICJ é quem tem poder e força, por ser o organismo que controla o Jockey Club e o Canídromo.
“As condições do Jockey Club são piores que as do Canídromo para os animais, não podemos esquecer que no passado um cavalo morreu porque os estábulos não tinham ventilação adequada, nem ventoinhas, nem ar condicionado. O tecto é de cimento, é muito quente”, afirmou.
Outros rumores que chegaram a Albano Martins indicam que os cães poderão estar a ser enviados para Hainão ou Pequim.
A TRIBUNA DE MACAU tem questionado semanalmente a DICJ sobre o pedido de transferência dos galgos, mas o organismo tem respondido que não recebeu qualquer solicitação. O último pedido de esclarecimento deste jornal foi enviado na quinta-feira.
Num e-mail anterior, o organismo referiu que “a colocação dos cães de corrida e a disposição de terras [no caso dos animais serem colocados noutro terreno] não é competência da DICJ”, que se limita a prestar atenção e acompanhar o caso, fazendo a necessária coordenação.
O número total de galgos será de 650, sendo que o IACM confirmou ter licenciado 50 animais em Junho. O Canídromo diz ter recebido 127 pedidos de adopção: 72 de Macau, 39 de Hong Kong, 15 do Interior da China e um de Taiwan.
Dezenas de trabalhadores do Canídromo arriscam desemprego
Apesar de Angela Leong ter referido, sem pormenorizar, que a Yat Yuen iria assegurar o emprego dos trabalhadores do Canídromo, a situação poderá não ser tão pacífica. Uma fonte conhecedora do processo adiantou à TRIBUNA DE MACAU que a Sociedade de Jogos de Macau (SJM) vai transferir os seguranças para outros espaços do grupo, porém, os restantes trabalhadores ficarão no desemprego, sendo que a empresa deverá pagar a indemnização prevista na lei laboral. De acordo com o jornal “Ou Mun”, Wong Chi Hong, director dos Serviços para os Assuntos Laborais (DSAL), confirmou que dezenas de trabalhadores da Yat Yuen pediram ajuda para encontrar um novo emprego. Por isso, já foi realizado um encontro entre a DSAL e a Yat Yuen com objectivo de falar dos deveres e responsabilidades de ambas as partes.
Angela Leong queixa-se de ser usada
À margem de uma reunião da comissão da Assembleia Legislativa, Angela Leong rejeitou responder às perguntas dos jornalistas sobre o Canídromo, queixando-se de estar a ser usada pelas pessoas, sem especificar, porém, a quem se referia. De acordo com um vídeo publicado pelo “All About Macau”, a deputada e administradora da Yat Yuen mostrou-se impaciente, assegurando que a resposta seria colocada no site da Yat Yuen. “Já disse tudo. Neste momento, não posso dar uma resposta certa, não quero ser usada ou que alguém pergunte sobre coisas incorrectas”, disse. Questionada sobre os motivos para não cooperar com a ANIMA no tratamento da questão dos galgos e se a sociedade confia mais na associação do que nela para tratar dos animais, Angela Leong declarou: “Não consigo responder a isso, estamos atentos à comunicação entre o IACM e o Canídromo e temos uma linha de telefone para as pessoas pedirem informações”.



