A tradução literária é um dos temas que a Associação dos Autores de Macau leva na bagagem da viagem a Portugal para discussão com diversas entidades, entre as quais o Instituto Camões. A visita de cortesia de uma semana integra uma dúzia de membros, sendo Miguel de Senna Fernandes o único que domina a língua portuguesa. “Do ponto de vista dos autores chineses era importante encontrar vias de divulgação dos seus trabalhos, através da tradução literária, e isso será um dos pontos importantes desta deslocação a Portugal”, disse ao Jornal TRIBUNA DE MACAU o vice-presidente da associação fundada há quase década e meia

 

VÍTOR REBELO

 

A dificuldade que os autores portugueses e chineses têm em traduzir as suas obras, dada a especificidade das respectivas línguas, será um dos pontos da agenda da Associação dos Autores de Macau, numa deslocação a Lisboa, que começa no domingo. A visita de cortesia de uma semana, que se realiza pela primeira vez nestes moldes de delegação, servirá para manter contactos diversificados com instituições ligadas ao campo literário, com especial destaque para o Instituto Camões.

A comitiva de 12 elementos é liderada pela presidente, Scarlett Ma, que assim repete a presença em Portugal, depois de no ano passado ter sido convidada para participar nas comemorações dos 500 anos do nascimento de Luís Vaz de Camões. Nessa ocasião, a líder da associação assinou com aquele instituto um protocolo de cooperação e troca de informações sobre actividades literárias.

Scarlett Ma não é propriamente escritora, mas sim compositora. As suas músicas são compostas para cada poema, tendo editado um livro com versos de Camões traduzidos em chinês, razão pela qual recebeu o convite para as celebrações na capital portuguesa em 2024.

A visita deste ano é mais abrangente, não só em número de membros, como em contactos que serão mantidos com várias entidades, nomeadamente o Centro Científico e Cultural de Macau, a Fundação Jorge Álvares, a Casa de Macau, a Embaixada da República Popular da China em Lisboa, entre outras, isto para além do próprio Instituto Camões. O objectivo da viagem é estabelecer e aprofundar as relações com instituições de cariz cultural em Portugal, para além de “aproveitar para melhor conhecer a vida portuguesa e sentir a sua cultura sob variadíssimas formas”, segundo se pode ler numa nota divulgada pela associação.

A delegação inclui uma esmagadora maioria de escritores chineses, sendo Miguel de Senna Fernandes o único que domina a língua portuguesa. Ao Jornal TRIBUNA DE MACAU, o vice-presidente, cargo que ocupa desde o ano passado, diz que vai ser, “com muito gosto”, o cicerone da visita, numa deslocação que pretende “manifestar um interesse mais aprofundado, não apenas de mera cortesia, em contactos a nível desta actividade literária entre escritores de Macau e Portugal”.

Do ponto de vista dos autores chineses “era interessante encontrar vias de divulgação dos seus trabalhos, que terá de acontecer através de um processo de tradução”, salienta Miguel de Senna Fernandes, reconhecendo, no entanto, as dificuldades que continuam a surgir nesse domínio por causa da carência de tradutores literários no território.

“Esse é que é o grande problema”, sublinha. “Sempre me bati pelo melhoramento em termos de tradução literária, não uma tradução normal, e nós não temos isso”, lamentou.

O macaense, filho do falecido escritor Henrique de Senna Fernandes, cuja literatura retrata Macau do século XX, entende que, “para os autores portugueses, ou de língua portuguesa, como é o meu caso, que queiram ser conhecidos no mundo chinês, a tradução literária é fundamental, o mesmo acontecendo para o lado dos chineses”. Considera, no entanto, que é mais difícil a tradução do chinês para português do que ao contrário.

“Aqueles que escrevem em português estão interessadíssimos em ver as suas obras lançadas no mercado chinês, enquanto os autores chineses quererão naturalmente ver os seus trabalhos no mercado não chinês, neste caso português, sendo contextos diferentes, e pelo menos há que dar um ponto de partida”, menciona.

“Eu próprio tentei várias vezes pôr os meus contos a serem traduzidos, sem grandes resultados. Mas, eu compreendo, não é fácil, porque a própria maneira de se expressar literariamente em português é diferente”, assevera. Estas questões de tradução vão estar em cima da mesa “nas conversas que manteremos com as entidades em Lisboa”, assinala, adiantando ser um sonho seu ajudar a resolver esta dificuldade.

Sobre a pouca afluência de escritores portugueses à associação, Miguel de Senna Fernandes refere que “foi por essa razão que eu fui convidado para integrá-la, entendendo a presidente que era importante dar o primeiro passo para chamar mais pessoas de língua portuguesa”.