Seac Pai Van vai ter um serviço “one-stop” da Associação de Reabilitação de Toxicodependentes de Macau, que permitirá auxiliar e reencaminhar indivíduos com problemas de saúde mental e de abuso de substâncias, segundo avançou Augusto Nogueira a este jornal. Num balanço aos 10 anos do Centro de Serviços de Ká-Hó, o presidente da ARTM referiu que o trabalho realizado tem sido “bastante positivo”

 

PEDRO MILHEIRÃO

A Associação de Reabilitação de Toxicodependentes de Macau (ARTM) planeia abrir em breve um serviço “one-stop” em Seac Pai Van, revelou Augusto Nogueira ao Jornal TRIBUNA DE MACAU, no ano em que o Centro de Serviços de Ká-Hó da ARTM celebra o 10º aniversário. De acordo com o presidente da associação, o objectivo é que o novo local se torne num ponto de referência para prestar informações e reencaminhar pessoas com problemas relacionados com a saúde mental e o abuso de álcool e outras substâncias.

“Neste momento, essa área está um pouco nebulosa”, justificou Augusto Nogueira. “Portanto, gostaríamos que as pessoas tivessem esse ponto de referência, onde poderiam ir ter connosco e, através de nós, terem uma indicação para os diversos departamentos, ou outros sítios, em função das necessidades”, partilhou.

Olhando para a última década, o líder associativo disse considerar que o balanço do trabalho realizado é “bastante positivo”. Apesar de ser “sinal de que existem pessoas que continuam a necessitar de apoio”, Augusto Nogueira ressalvou que a ARTM conseguiu “recuperar muitas pessoas”. Além do desenvolvimento do Centro de Serviços, das visitas mensais à prisão e da realização de inúmeras actividades, Nogueira recordou a inauguração da galeria “Hold On to Hope” e do café, que possibilitaram a reinserção social, a valorização pessoal e a formação de pessoas necessitadas.

“O mais importante e o que nos dá mais prazer e realização pessoal, comunitária e institucional é ver as pessoas bem quando as encontramos na rua, ou quando nos vêm visitar, e vemos que elas estão bem encaminhadas, que construíram a sua família ou que seguiram o seu caminho”, destacou o responsável. “Essa é a nossa maior satisfação”, asseverou.

Ao longo dos últimos 10 anos, o Centro de Serviços auxiliou 365 indivíduos, sendo que cerca de 90 pessoas concluíram o programa de recuperação, segundo Augusto Nogueira. Algumas dessas pessoas ainda são acompanhadas pelos serviços e departamentos da ARTM, enquanto outras sofreram recaídas ou faleceram, lamentou Nogueira.

Actualmente, a associação conta com aproximadamente 50 membros, sendo que cerca de metade trabalha no Centro de Serviços de Ká-Hó.

A ARTM conseguiu distinções como a Medalha de Mérito das Comunidades Portuguesas pelo Governo de Portugal e a Medalha de Serviços Comunitários pelo Governo da RAEM. Inclusive, a associação recebeu visitas de alto perfil, como de Ghada Waly, directora do Gabinete das Nações Unidas sobre Drogas e Crime, ou da Comissão de Controlo de Narcóticos da China, de departamentos de Zhuhai e Shenzhen e de outras organizações não-governamentais (ONG). “Todas essas visitas são importantes e demonstram a credibilidade do nosso trabalho”, referiu Nogueira.

Projectando a próxima década, o presidente da ARTM disse esperar apenas “continuar a trabalhar e ajudar pessoas a enfrentar os desafios”. “Neste momento, temos o álcool como um dos maiores desafios associados a problemas mentais. É o nosso maior desafio. Estamos preparados para as mudanças que podem ocorrer, porque tudo isto da adição é um ciclo”, apontou o dirigente associativo. “O que hoje já não está na moda, daqui uns anos pode estar. Portanto, temos de estar sempre preparados para essas mudanças e continuar a evoluir”, frisou.

Este ano, a associação vai receber elementos da Comissão do Gabinete de Controlo de Narcóticos da Tailândia, durante três semanas, e uma delegação da Coreia do Sul que se mostrou interessada em aprender sobre o trabalho da ARTM na área da redução de danos.

“Temos esta ambição em fazer com que a ARTM seja um exemplo na Ásia, porque nós desenvolvemos uma acção holística, em que apoiamos desde a prevenção à redução de danos, ao tratamento, à recuperação”, disse. “Englobamos todas as [fases] e temos um centro de tratamento de excelente qualidade”, anotou, tendo sublinhado o apoio do Instituto de Acção Social, sem o qual o trabalho da ARTM “seria impossível”.

“Outro objectivo é conseguirmos obter o ‘ECOSOC’ nas Nações Unidas”, partilhou Augusto Nogueira, referindo-se ao estatuto consultivo atribuído a ONG parceiras da Organização das Nações Unidas.

 

Exposição na H2H assinala aniversário

Para celebrar o 10º aniversário do Centro de Serviços, a Galeria “Hold On to Hope” vai acolher uma exposição, a qual será inaugurada no sábado, pelas 16h00. A mostra “Criatividade na Recuperação” reúne trabalhos de pessoas tratadas pela ARTM. As peças de cerâmica, pintura e madeira, entre outras formas de arte, incluem trabalhos recentes ou obras criadas para exibições anteriores, mas que nunca chegaram a ser apresentadas, segundo Augusto Nogueira.

“Alguns dos trabalhos são do nosso grupo de cuidados especiais, de pessoas com bastantes limitações de saúde mental, devido ao consumo de álcool e de outras drogas, e que já não conseguem enquadrar-se no funcionamento normal de uma comunidade terapêutica”, explicou o presidente. “A arte tem sido uma forma de poder puxar pela área cognitiva”, concluiu.

A inauguração da mostra será complementada com um vídeo dos momentos mais importantes dos 10 anos do centro, uma sessão de partilha de testemunhos de pessoas recuperadas e familiares e uma entrega de lembranças. A exposição estará patente até ao dia 28 de Julho, podendo ser visitada aos fins-de-semana, feriados e às segundas, terças e sextas-feiras.