A partir da década de 60, José Maneiras começou a desenhar uma série de edifícios, sobretudo residenciais, nos quais revelou preocupação sobre a “vivência, utilidade da casa e da qualidade do espaço”. Embora muito do seu contributo arquitectónico já tenha sido demolido ou sofrido alterações, o que resta é significativo e demonstrativo do que era ser arquitecto e como isso se reflectia no tecido urbano de Macau há 50 anos

 

Catarina Almeida

 

É como um “gesto de amizade” que José Maneiras interpreta a exposição “Modernismo à Macaense” coordenada pelos arquitectos Rui Leão, Sérgio Spencer e Tiago Rebocho, numa iniciativa da Docomomo – Documentação e Conservação do Movimento Moderno.

Muitos dos seus projectos foram as primeiras construções em altura da cidade, através das quais propôs uma nova estética modernista no domínio da habitação. Apesar de muito do seu legado arquitectónico estar hoje modificado, desfigurado ou até mesmo demolido, a sua personalidade profissional ainda é visível nalguns edifícios que estão agora em exposição sob o formato de fotografias captadas pela lente de António Mil-Homens.

A mostra ficará patente até 3 de Abril no Pavilhão do Jardim Lou Lim Ioc, permitindo, a quem a visitar, perceber os primórdios da arquitectura de Macau e conhecer, ainda que por vias subliminares, o que era ser arquitecto há 50 anos.

“A obra de José Maneiras é muito particular porque se foca mais na função. O arquitecto forma-se em Portugal, nos anos 60, e quando regressa a Macau, a [cidade] não vivia neste período dourado. As restrições económicas fazem ao arquitecto procurar outras alternativas criativas e manter a qualidade da habitação”, destacou Tiago Rebocho à TRIBUNA DE MACAU.

Sendo um dos primeiros profissionais que deu início à prática da arquitectura a partir de ateliers locais, José Maneiras começou a partir dos anos 60 a desenhar e concretizar edifícios residenciais de inclinação brutalista, dentro das exigências das regiões tropicais, que serão provavelmente a sua fase criativa mais importante, como destaca a organização da mostra.

Um dos exemplos da sua arquitectura visionária é precisamente o edifício que chegou a servir de residência para invisuais. O projecto foi encomendado pelo Governo, depois de 1960 (já que até então a arquitectura era traçada por engenheiros, agentes técnicos, desenhadores ou, nalguns casos, encomendada a gabinetes de arquitectura de Hong Kong ou Xangai), numa altura em que “eram muito poucos aqueles que tinham esta preocupação com a salubridade e vivência da habitação”.

O edifício ainda hoje persiste, mas com outra utilidade. “José Maneiras desenvolveu uma série de técnicas que não existiam e que auxiliavam os invisuais a chegarem até às suas habitações, piso táctil, pequenos truques no corrimão.. tudo isso que hoje em dia existe em catálogos, é muito fácil aceder, e na altura não existia”, frisou Tiago Rebocho.

Além disso, é também exemplo da “preocupação do arquitecto sobre a vivência das pessoas que lá iam morar”. “A obra dele não se destaca muito à primeira vista mas tem uma qualidade intrínseca muito grande. A preocupação com a vivência, utilidade da casa e da qualidade do espaço é o que faz realçar a obra dele. Esta exposição tem exactamente esse propósito de chamar à atenção da população que há muito mais arquitectura”, salientou o arquitecto.

Com esta iniciativa, a Docomomo pretende também prestar um serviço público, na medida em que é uma forma de homenagear o contributo de José Maneiras e chamar à atenção da sociedade que “a arquitectura local tem valor”. Todavia, “tem sido muito mal tratada”, lamenta Tiago Rebocho. “A pressão imobiliária é muito grande, o espaço em Macau é muito reduzido e compreende-se que haja grandes interesses. Agora, cabe ao Governo proteger o património que tem valor e interesse arquitectónico”.

“O que nós estamos a fazer com esta e outras intervenções (por exemplo, a exposição sobre a obra de Manuel Vicente) é exactamente sensibilizar a população para a existência desta arquitectura que muitas vezes passa despercebida”, concluiu.