Há seis meses, o tufão “Hato” ceifou 10 vidas, inundou várias ruas da cidade, sobretudo na zona do Porto Interior e na Barra, deixando atrás de si um rasto de destruição. O regresso à normalidade foi mais rápido para uns do que para outros, mas para todos representou muitas horas de trabalho, esforço e dedicação. Hoje, alguns comerciantes das zonas afectadas mostram-se mais preparados para enfrentar tempestades como a de 23 de Agosto, apesar de saberem que não conseguirão evitar as suas consequências por completo

 

Inês Almeida e Rima Cui

 

Quase todas as lojas da Rua Cinco de Outubro estão abertas. No caminho estreito empedrado até ao Largo do Pagode do Bazar já não há lixo nem lama. Penduradas nas extremidades dos edifícios vêem-se decorações festivas que assinalam o regresso de feiras de artesanato ou outros eventos que ali frequentemente têm lugar. Há pessoas a caminhar de um lado para o outro, cada uma nos seus afazeres. Os proprietários das lojas estão atrás do balcão ou à porta dos estabelecimentos tentando chamar mais clientela ou apenas a conversar com os “vizinhos”.

Ninguém diria que há precisamente seis meses esta rua tão tradicional de Macau foi uma das mais afectadas pela passagem do tufão “Hato” que alcatifou o empedrado de lama, trouxe consigo pilhas de lixo e um cheiro fétido. Conjugando a força do vento, da chuva e o aumento do nível das águas, a tempestade inundou as ruas e causou prejuízos incalculáveis para muita gente que perdeu os seus automóveis, motas ou outros bens. A natureza foi também impiedosa com as lojas e com quem delas depende para sobreviver.

“Com a passagem do tufão sofremos um prejuízo de cerca de um milhão de patacas e tivemos de deitar para o lixo quase todos os produtos da loja”, conta Lau, responsável por um estabelecimento que vende produtos secos e conservas. “Precisámos de uma semana inteira só para retirar os resíduos”, recorda à TRIBUNA DE MACAU.

Além de tratar de todos os artigos que acabaram por ficar inutilizáveis foi preciso “usar várias máquinas para secar o espaço” e encomendar novos produtos. Duas semanas depois da passagem do tufão “Hato”, a loja reabriu. “Temos uma comporta para a água mas não é capaz de fazer face às cheias quando a altura da água ultrapassa um metro”, explica Lau, ressalvando que há zonas da loja com a altura de três degraus, além de uma prateleira mais alta. “Quando chegam as cheias, a solução é mudar todos os produtos para a prateleira”.

Para a recuperação tiveram algum apoio do Governo. “A Direcção dos Serviços de Economia (DSE) concedeu-nos um empréstimo sem juros no valor de 600.000 patacas. Além disso, recebemos um subsídio de 50.000 patacas”, indica. Deste modo, “os negócios já voltaram à normalidade”. Porém, a recuperação foi lenta.

Nos primeiros meses após a passagem do tufão, a loja que já existe há 58 anos, viu o seu volume de actividade ser “muito afectado”. “Depois do tufão, as pessoas tinham receio da qualidade dos produtos e perderam alguma vontade de fazer compras. Agora já não notamos tanta diferença”, assegura.

Caminhando da loja de Lau em direcção à Avenida de Almeida Ribeiro, encontramos Tsang Chor Wai, director geral da “Van Lun”, onde se vende chá. Na lateral da entrada para a loja vêem-se três pequenos traços vermelhos para os quais Tsang aponta enquanto explica: “esta é a altura média das inundações para que estamos preparados”, frisa referindo-se à mais baixa, com cerca de um metro. Ligeiramente acima, há outra linha. Apontando para uma terceira, que quase toca o tecto, lembra que “aqui foi onde chegou a água durante o tufão Hato”.

A loja tem mais de 20 funcionários, por isso, a limpeza foi um processo relativamente rápido. “Limpar as três lojas de chá nesta rua demorou pouco mais de 15 dias. Também temos uma empresa de fornecimento num edifício industrial que teve de voltar a funcionar logo três dias depois do tufão”. Assim sendo, explica Tsang, “na altura, a única solução foi deitar para o lixo todos os pacotes e caixas de chá que tenham sido afectados pelas inundações”. “Estimo que tenhamos deitado fora 10 toneladas de chá”, lamenta.

O peso dos produtos que fornecem a outras empresas foi, de resto, um dos factores que dificultou os trabalhos de recuperação depois da tempestade. “Uma caixa de chá com 30 quilos, depois de ficar molhada torna-se mais pesada podendo ter até mais de 50 quilos e isso dificultou o nosso trabalho. As caixas que não conseguimos mover no espaço de três dias começaram a aquecer e a emanar mau cheiro”, refere.

A loja funciona há 53 anos, por isso, já foi abalada por três tempestades deste género, causadoras de inundações em que a altura da água ultrapassou um metro. “Depois desta experiência, vamos prestar mais atenção durante a época dos tufões e preparar-nos com antecedência, desde Maio, começando logo nesse mês a transferir os produtos para o primeiro andar”, garante Tsang Chor Wai.

Ainda que tenham plataformas elevatórias que permitem colocar os produtos a um metro e meio de altura elas mostraram não ser suficientes durante a passagem do “Hato”. “As inundações causadas pelo tufão ‘Hato’ atingiram uma altura de dois metros, excedendo a capacidade dos nossos equipamentos”.

Embora o Governo tenha dado a cada estabelecimento um subsídio avaliado em 50.000 patacas, aprovando ainda um empréstimo sem juros de 600.000, o comerciante estima que o prejuízo nas três lojas que possui tenha ascendido a três milhões de patacas.

 

Restaurar o que é sagrado

Limpar um templo depois de uma tempestade com a escala do tufão de 23 de Agosto não é um processo igual a restaurar uma loja, sublinha Lei, enquanto caminha até à pequena sala de arrumos onde mantém o material que usa para tratar as superfícies do Templo Foc Tak Chi, na zona da Praia do Manduco, na Barra, construído em 1868.

“A limpeza dos templos é totalmente diferente da que é feita nas lojas, pois tem de ser muito minuciosa. O templo é representativo das culturas chinesas e temos de as preservar, por isso, todo o trabalho de limpeza depois da passagem do tufão teve de avançar muito devagar e ser muito detalhado”, frisa Lei, mostrando um alguidar e uma escova de dentes antiga que usa para lavar as superfícies mais trabalhadas.

Foram precisas duas semanas para limpar o Templo e retirar todo o lixo trazido pelo “Hato”. Lei, os irmãos, o marido e os filhos lavaram o espaço mais de 10 vezes. “Tivemos imenso trabalho. Não podemos deitar fora as mesas e cadeiras que têm mais de cem anos de existência. Demorámos metade de um mês a fazer uma limpeza mais superficial, mas temos de tratar dos pormenores a pouco e pouco e isso ainda estamos a fazer”.

Como os crentes e moradores da zona queriam visitar o templo, era crucial avançar com a limpeza geral do espaço o mais rapidamente possível para poder voltar a abrir as portas.

“Claro que o tufão causou o desgaste da cor de algumas estruturas no templo, como as mesas. Já contactámos com o Instituto Cultural (IC) que disse que vai ajudar à recuperação do Templo ainda este ano. A parede exterior também sofreu danos devido à queda de alguns objectos, mas temos de esperar pela análise do IC para perceber que tipo de material foi usado para erguer a parede e só depois podemos começar as obras de recuperação”, explica Lei.

Apesar das devastadoras consequências do “Hato”, a responsável pelo templo não dispõe de novos meios para minorar o impacto das tempestades. “As associações de moradores têm de coordenar e comunicar com o IC para decidir se é possível encerrar o Templo temporariamente ou não”.

 

Pesadelos e largos prejuízos

Também na zona da Barra, a TRIBUNA DE MACAU falou com Leong, responsável pela livraria “Energia Positiva”, onde a água chegou quase à altura do tecto. “Demorámos cerca de dois meses para limpar a livraria e o tufão destruiu todos os objectos, incluindo livros, estantes, computadores e outras coisas”.

O processo de recuperação foi complexo. “A limpeza foi extremamente difícil. O espaço foi invadido por lama que cheira muito mal. Além disso, os livros são muito pesados e se contratássemos pessoas para retirar o lixo ia custar muito dinheiro”. Felizmente, “houve amigos do patrão que se voluntariaram para fazer limpeza, mas depois dessa tarefa todos ficaram doentes”. Dado o impacto da tempestade, “durante muito tempo tive pesadelos com o tufão e as inundações”, confessa Leong.

Após a limpeza do espaço foi preciso voltar a importar livros de Taiwan. “Ainda estamos à espera de alguns livros novos em inglês”.

O avultado prejuízo que o tufão causou à livraria teve também a ver com a proximidade do início do ano lectivo, uma vez     que o “Hato” assolou o território no final de Agosto. “Muitas escolas tinham reservado livros e tivemos de as compensar”.

A livraria reabriu portas em Novembro mas, nessa altura, ainda não tinha livros suficientes pelo que o volume de negócios não foi logo o esperado. “Agora as estantes estão cheias e as operações já voltaram à normalidade”. No entanto, como o estabelecimento apenas tem dois anos de existência, ainda não foi possível recuperar o investimento, também devido ao impacto do “Hato”. Porém, ressalva, “o senhorio foi bondoso e baixou a renda em 50% em Agosto”.

Relativamente à prevenção para minorar o impacto de futuros tufões, Leong refere que a única coisa que pode fazer é transferir os livros para sítios mais altos.

Já Lam, que tem uma banca de jornais na Rua Cinco de Outubro, acredita que Macau “tem uma forte capacidade de recuperação”. “Temos a ajuda de muitos voluntários, esteve cá o Exército e agentes de saúde, pelo que a cidade recuperou em menos de meio ano. Acho que agora já quase tudo voltou à normalidade”.

“Além da recuperação do aspecto exterior, em termos de restauração de interiores os subsídios concedidos pelo Governo às pequenas e médias empresas ajudaram muito. Para muitas lojas, 50.000 patacas é um valor aceitável para compensar os prejuízos. Eu pedi 30.000 e o pedido foi aprovado”, conta, admitindo que é mais fácil e rápido as pequenas bancas recuperarem dos danos causados pela tempestade, comparativamente às lojas.

“A banca de jornais foi criada pela minha mãe há 40 anos e o tufão de 2008 causou prejuízos ainda maiores do que o ‘Hato’ porque aconteceu entre as 23:00 e a meia-noite. Depois de 2008 comecei a achar que as previsões meteorológicas não são fiáveis e passei a estudar sobre isso para ter capacidade de analisar o tempo”, revela Lam.

Perto da banca de Lam há uma oficina dedicada à reparação de motociclos que reabriu um mês depois do tufão. “Demorei um mês porque precisei de equipar a minha oficina totalmente de novo. Só foi possível mover todo o lixo acumulado com recurso a 10 carros até porque nos estabelecimentos mais pequenos não temos a capacidade de mudar de instalações”, indicou Chong, responsável pela oficina.

Chong, que trabalha na Rua Cinco de Outubro há mais de 10 anos, aponta que só em 1992 houve um tufão de um nível semelhante ao do ‘Hato’. Mas foi depois da tempestade do ano passado que comprou uma plataforma elevatória que custou mais de 100.000 patacas. “Houve pequenas e médias empresas que conseguiram subsídios de 50.000 patacas, mas eu não”, lamenta.

 

Estimativas dos prejuízos ascendem a 12,5 mil milhões

Os prejuízos económicos directos causados em Macau pelo tufão “Hato” atingiram 9,05 mil milhões de patacas, segundo estimativas revistas pela Direcção dos Serviços de Estatística e Censos (DSEC). Segundo o organismo, os prejuízos económicos indirectos cifraram-se em 3,50 mil milhões de patacas, pelo que o montante total das perdas terá chegado a 12,55 mil milhões, ou seja, mais 1,07 mil milhões do que as estimativas preliminares do ano passado. Os cálculos tiveram em conta os prejuízos económicos indirectos para os diversos ramos de actividade económica, nomeadamente, o impacto causado pela catástrofe no âmbito de volume de negócios dos estabelecimentos, entre outros aspectos. De acordo com dados publicados na página oficial da Direcção dos Serviços de Economia (DSE), entre Agosto e Setembro do ano passado, foram concedidos, através do Fundo de Desenvolvimento Industrial e Comercialização, mais de 8,5 milhões de patacas em apoios às empresas e veículos comerciais afectados pela passagem do tufão. Segundo a DSE, nesses dois meses foram ajudadas 278 companhias. Os apoios variam entre menos de 10.000 e 50.000 patacas, valor atribuído à maioria das entidades que solicitaram auxílio para recuperar dos danos causados pela tempestade.