Miguel Heitor, antigo residente de Macau, é o principal mentor de um sistema de vídeo, denominado Análise de Jogo ao Vivo, que vai ajudar os treinadores nas questões tácticas. O responsável pelo desenvolvimento da liga do Qatar, espera que o projecto seja igualmente utilizado no Mundial de 2022
Vítor Rebelo*
Trata-se de uma tecnologia de futuro e um projecto inovador implantados desde o passado fim-de-semana na liga profissional do Qatar, constituindo a primeira experiência no continente asiático, depois de ter sido introduzido no campeonato da Dinamarca e testado no Mundial do ano passado, na Rússia, por isso contando desde já com o aval da FIFA. O organismo máximo do futebol internacional voltará a aplicar estes meios tecnológicos, agora de forma mais activa e oficial, no Campeonato Feminino, que terá lugar em França em Junho.
O objectivo é elevar o nível do futebol praticado, consistindo na disponibilidade de imagens captadas por câmaras, com ângulos diferentes dos usados nas transmissões tradicionais, num sistema focado na parte táctica das equipas envolvidas em cada jogo, daí ser um enorme auxílio para os treinadores.
“Esta tecnologia é basicamente controlada por computador, onde existe um sistema de análise controlado por um analista especializado em futebol, sentado nas bancadas, que tem acesso a um sotfware ligado a uma câmara de filmar. No nosso modelo, no Qatar, esse sistema está ligado a uma câmara, que por sua vez faz a ligação com a empresa que faz a cobertura oficial dos jogos, que é a Al Kass Sports Channel, ‘host-broadcast’, onde temos uma imagem privilegiada do jogo, através da câmara principal [‘master’], posicionada na parte mais alta do estádio, em zona central. Esse sistema está ligado por um cabo da internet ao banco dos suplentes, onde há um ‘tablet’ que recebe toda a informação do jogo, em termos de vídeo, que o analista corta [edita], nos momentos específicos da partida. Os ‘clips’ são enviados a quem tem normalmente acesso a essa informação e a esse vídeo, que é o treinador adjunto, que faz a filtragem das imagens que chegam ao banco e as transmite ao técnico principal. Em qualquer altura este pode enviar um ‘feedback’ positivo para os jogadores”, explicou Miguel Heitor, dando conta de pormenores que ele próprio expôs a todos os clubes, durante a apresentação oficial do sistema, realizada há uns dias na cidade de Doha, na presença de representantes da FIFA e da Confederação Asiática, para além dos dirigentes do futebol do Qatar.
FIFA aprovou comunicações
A liga do Qatar é pioneira na Ásia desta grande vantagem na comunicação ao vivo com o treinador e os jogadores, “uma vez que, através de imagem e também de voz, toda a informação é passada para o banco de suplentes”.
A tecnologia “contou com um estudo detalhado por parte da liga do Qatar”, na qual Miguel Heitor é o director do Departamento do Desenvolvimento do Futebol, sendo também na prática o responsável pelas operações e activação deste projecto, já utilizado na jornada do passado fim-de-semana, com especial ênfase no jogo grande que opôs os dois primeiros classificados, Al-Sadd e Al-Duhail (empate a dois golos), treinados, respectivamente, pelos portugueses Jesualdo Ferreira e Rui Faria (antigo adjunto de José Mourinho).
Em Março de 2018, a FIFA fez uma revisão das regras do jogo e neste momento as equipas têm autorização para utilizar “tablets”, computadores portáteis, ou mesmo a comunicação através de telemóvel, de um rádio, para o banco de suplentes, durante o jogo. “Daí que nós, na liga do Qatar, tivéssemos desde logo tentado implementar esse tipo de tecnologias, levando a efeito também visitas a vários países da Europa [Juventus, AC Milão..], que já utilizam este sistema, mas, em termos de liga, com projecto centralizado e disponível para todos os clubes, só existe na Dinamarca. No continente asiático, o Qatar é o primeiro”, apontou.
Para este sucesso, que poderá ter continuidade já no decorrer dos jogos da Liga dos Campeões Asiáticos, quando as equipas do Qatar jogarem em casa, muito tem contribuído a dedicação de Miguel Heitor ao futebol do país, depois de ter chegado a Doha em 2006 para trabalhar nos Jogos Asiáticos, passando, no ano seguinte, para o departamento de desenvolvimento do futebol, onde é hoje director.
Mundial vai ser um sucesso
Aproveitámos a conversa com o português nascido em Almada há 44 anos, para saber como vai o desenvolvimento do desporto-rei no Qatar e a organização do próximo mundial. “Há um estádio que já foi inaugurado, testado, o Kalifa Stadium. Este ano em Maio tudo indica que o segundo estádio, Al-Wakrah, estará também a postos. O Mundial vai ser um sucesso. Para além disso, tem sido feito algum investimento na área de tecnologia e software. Todos os recintos já têm uns censores, umas câmaras para fazer a monitorização física dos jogadores. Desde 2010 que temos esse sistema montado, por isso temos uma base de dados enorme sobre aspectos técnicos, tácticos, físicos. Tem havido uma aposta nas infra-estruturas, com excelentes condições para a prática da modalidade, elogios aos relvados, daí os resultados aparecerem, como foi o título de campeão da Ásia. Várias equipas têm realizado estágios no Qatar, como o Bayern de Munique, o Manchester United ou o Barcelona”, destacou.
A fase final do Campeonato do Mundo será realizada pela primeira vez em Novembro/Dezembro, “porque as temperaturas são de facto muito elevadas no Verão, apesar do Qatar estar preparado para isso, com todos os estádios dispondo de ar condicionado”.
Estado dos relvados em Macau demonstra falta de interesse
Miguel Heitor jogou em várias equipas de Macau e na própria selecção (das camadas jovens à formação principal) e continua a acompanhar o que se passa no território. “Sei que o Benfica tem dominado nestes últimos anos e participou na Taça AFC. Infelizmente as autoridades competentes e responsáveis pela gestão e organização do futebol, continuam a não planificar e executar um projecto sustentado para melhorar a modalidade. Ver imagens dos jogos da I e II Divisão serem disputados em relvados que mais parecem pelados dos anos 70, só demonstra falta de interesse total, ou falta de competência, o que é uma pena. O Governo deveria, em primeiro lugar, investir em bons relvados e ter uma boa manutenção diária, ou então investir em campos sintéticos aprovados pela FIFA, até porque há apoios financeiros através do projecto FIFA Forward Program”.
No meio de tantos aspectos negativos, “há que dar uma palavra de apreço para alguns treinadores e dirigentes, como é o caso de Pelé, pelo trabalho e dedicação, na última década, em prol do desenvolvimento do futebol jovem, em condições muito difíceis, tendo em conta a falta de campos para treinar, situação que se mantém há 30 anos”.
Convidado para ir para o Qatar depois de ter estado na organização de eventos como os jogos da Ásia Oriental ou os Jogos da Lusofonia, Miguel Heitor diz sentir-se muito bem num “país que tem conhecido nos últimos anos um enorme desenvolvimento”, e aproveitado as oportunidades que vão surgindo.
Fez um mestrado da MBA em Inglaterra, na Universidade de Manchester, cuja tese foi sobre a importância dos sistemas de análise de futebol para os treinadores e para melhorar o rendimento dos jogadores.
Este é mais um caso de sucesso de um português no estrangeiro, bem acompanhado pela esposa, Elisabete Reis, uma antiga assistente de bordo da Air Macau (chefe de cabine e instrutora), que igualmente se tem destacado em Doha, onde é consultora de imagem, etiqueta e protocolo, tendo fundado para o efeito uma empresa com o nome “Glam Your Image”, já com forte projecção, principalmente junto da “alta sociedade” do Qatar.
* Jornalista



