O presidente da Sociedade Protectora dos Animais de Macau (ANIMA) pediu a antecipação para este mês da segunda tranche dos apoios da Fundação Macau para evitar o fecho em Maio e assim ter três meses para encontrar alternativas e novas formas de financiamento. Albano Martins revelou ainda que terá de aplicar uma “política de austeridade brutal” em prol da continuidade provisória, isto é, pelo menos até Julho. Em entrevista à TRIBUNA DE MACAU, criticou também o silêncio do Governo vincando que “não pode lavar as mãos porque teve muito tempo para interceder” junto do Canídromo e encontrar uma saída “minimamente aceitável” para os cerca de 650 galgos
Catarina Almeida
A Sociedade Protectora dos Animais de Macau (ANIMA) solicitou à Fundação Macau (FM), a título excepcional, a antecipação para este mês de 1,9 milhões de patacas – equivalente ao valor da segunda tranche do subsídio para 2018, no total de 3,8 milhões. O objectivo? Ganhar tempo para encontrar novas fontes de financiamento e aguentar o barco até Julho, ainda que não seja possível escapar a uma “política de austeridade brutal” durante e após esse período. “Conseguimos sobreviver com cortes substanciais, ou seja, pondo em causa a saúde dos animais porque não há hipótese nenhuma”, lamentou Albano Martins à TRIBUNA DE MACAU.
Se a antecipação do subsídio não se concretizar, a Anima poderá ter de fechar, revelou. “Se a Fundação Macau antecipar a segunda tranche dá-me três meses para conseguir arranjar os fundos e garantir que, a partir de Julho, tenho fundos porque senão, em Maio, tenho de encerrar”.
Em todo o caso, “só a Assembleia-Geral é que pode decidir o encerramento da ANIMA”. “Tenho de cumprir as regras embora seja difícil porque os estatutos estão de tal modo bloqueados que nos impedem de tomar uma decisão porque é preciso ter a maioria de 70% dos sócios. E isso é impossível, as assembleias-gerais têm 10 [pessoas] no máximo. Alguém terá de assumir os riscos. Aqueles animais precisam de comer!”, vincou.
Quer o Governo quer a Fundação Macau foram elucidados sobre a actual situação da associação fundada a 11 de Dezembro de 2003. Mas, segundo Albano Martins, ainda não houve resposta – apesar da ANIMA necessitar do dinheiro urgentemente para garantir a sua continuidade.
A título de referência, a associação fechou o ano passado com despesas efectivas superiores a 10 milhões de patacas, e da FM será concedido, em 2018, o equivalente a sensivelmente um terço desse valor (3,8 milhões, mais 300 mil patacas face ao ano passado). Ainda assim, só em despesas com pessoal e comida para animais, a ANIMA gasta, no mínimo, meio milhão de patacas por mês. Por ano, são mais de três milhões em gastos de saúde e alimentação e para o pessoal cinco milhões de patacas.
A todos os gastos esperáveis, somam-se os imprevisíveis. A situação ganha contornos difíceis e chega à fragilidade financeira em que está agora. Só numa clínica, no mês de Dezembro de 2017, as despesas situaram-se na ordem das 379 mil patacas. “Não podemos perguntar ao gato ou cão se tem seguro de saúde e se nos paga. Não temos outra solução a não ser fazer isso. Estas coisas acontecem sem impossibilidade de previsão. O número de resgates da ANIMA é brutal”, disse.
Além disso, sendo a ANIMA “uma associação de utilidade pública, estando num terreno que é do Governo, com um edifício totalmente financiado pelo Governo, mais de 30 trabalhadores, como é possível?”, lamenta Albano Martins, reiterando que os dirigentes são também “totalmente voluntários”.
“Temos contabilidade organizada e auditada e como é que o Governo quer que uma associação que faz o trabalho que lhe devia competir o faça de forma tão gratuita? Não conseguimos aguentar”, insistiu.
Em Junho, a associação terá de entregar as contas devidamente feitas às Finanças “tal como uma empresa do Grupo A, como uma grande empresa. Os nossos dinheiros são verificados a pente fino”. Até lá, a associação espera ter uma resposta positiva da FM para que consiga sobreviver até Julho e, a partir daí, tentar perceber quantos mais meses poderá resistir. “Pode ser que este susto para o Governo lhes faça aumentar a comparticipação de outra forma no ano seguinte”, salientou.
Em todo o caso, reconhece, o ideal seria que o subsídio anual da FM subisse para cinco milhões pois permitiria também servir de garantia para arranjar os fundos. Actualmente, a ANIMA tem como segundo maior patrocinador a Wynn Resorts mas com o escândalo envolvendo Steve Wynn, surgiu a incerteza. “A ANIMA enviou uma carta para a Wynn Resorts dizendo que gostaria de ter a certeza se pode contar com o apoio porque estamos em risco de fechar. Estamos a aguardar [pela resposta]”, afirmou Albano Martins.
De um modo geral, o objectivo de Albano Martins é que a ANIMA consiga atingir um patamar em que seja possível ajudar outras associações uma vez que é a “única de utilidade pública, a única que tem terrenos”. “A nova lei dos animais entrou em vigor em 2016 mas ainda não está a fazer efeitos notáveis porque o número de abandonos é grande e temos casos em que temos de fechar os olhos porque não temos espaço e não podemos fazer um armazém de animais. Era a pior coisa que poderíamos fazer. Temos cerca de 10 mil visitantes. Não podemos correr o risco de ter acidentes com as crianças. Queríamos ajudar outras associações mas como se nem a nós nos conseguimos ajudar?”, lamentou.
Canídromo: o silêncio persiste
Falar da ANIMA é também falar dos galgos e de vários apelos, inclusive a nível internacional, sobre o Canídromo e o futuro daqueles 650 animais numa altura em que faltam sensivelmente três meses e meio para o espaço fechar portas. Ainda assim, apesar da decisão favorável do Governo no sentido de encerrar o estabelecimento explorado pela Companhia de Corridas de Galgos de Macau (Yat Yuen), Albano Martins teme o futuro tendo em conta que a posição do Governo em reacção à posição da ANIMA sobre o problema foi, exclusivamente, de silêncio. “Estamos a três meses e meio de fechar aquilo e nada se diz. Acredito que provavelmente o Governo vai de novo prorrogar o espaço. Em três meses e meio, pela minha experiência, não consegue resolver [a situação dos 650 animais] a não ser que os mate ou que exporte para o Vietname via China, mas posso garantir que o Grupo de Ligação não está disposto a permitir isso tão facilmente. Neste momento, a única coisa que estou a ver é que vão ficar mais tempo”, equacionou.
No fundo, defende, o “Governo não pode lavar as mãos porque teve muito tempo para interceder junto do Canídromo para tentar encontrar uma saída minimamente aceitável para aqueles animais, sobretudo agora que há uma Lei de Protecção dos Animais. Eles não podem matar os animais”, destacou.
Faz em Julho dois anos – o Governo ainda não tinha anunciado que ia fechar o Canídromo – e a ANIMA já pedia ao Governo que intercedesse junto da Yat Yuen no sentido de que aqueles animais fossem entregues à associação ou a outra associação com capacidade para tal. “Há dois anos que andamos nisso e o Governo nunca disse ‘ai nem ui’. Independentemente da situação, a ANIMA fez com os seus parceiros internacionais uma campanha para tentar saber até que ponto estaria a deslocação desses animais que não fossem adoptados em Macau e Hong Kong”, recordou.
Mas, “temos de ser realistas”. “No máximo, Macau e Hong Kong levarão 100 animais e já é muito. Temos, neste momento, mais de 40 adoptantes em Hong Kong e se calhar teremos o suficiente para, somados com os de Macau, dar os 100 mas não acredito que possamos ter muito mais porque Hong Kong tem o problema da quarentena (quatro meses). É uma solução que não nos agrada”, expõe. Sobre este ponto específico, a associação pediu ao IACM que intercedesse junto do “Agriculture, Fisheries and Conservation Department” (AFCD) da região vizinha para que reduzisse esse período mas não há novidades.
Face a tudo isto, o responsável pela ANIMA acredita que o Governo irá “a nível internacional ficar mal na fotografia porque daquelas organizações [internacionais] já temos 45 inscrições mundiais que, declaradamente, disseram estar interessadas em ajudar. Mas não podemos fazer uma campanha de fundos, apesar das campanhas que fizemos envolvendo Europa, Austrália, América do Sul, Norte”.
“Estamos a falar em 650 animais e é preciso fundos mas não o fizemos porque se recebo os fundos a Fundação Macau (FM) fica com eles, porque não posso ter excedente. Não posso correr esses riscos: será fácil receber mas entregar de volta é difícil. Portanto, seria muito complicado fazer isso e recusei sempre, nunca quis fazer isso sem ter a garantia de que ia ter os animais porque depois vai sobrar para todos nós”, conclui.
Incerteza quanto à continuidade na presidência
A “não ser que não haja ninguém, ou que haja de facto luz verde” para trabalhar com “dignidade”, Albano Martins assume que, em princípio, não estará disponível para uma nova lista. “Os membros da ANIMA deveriam pensar muito claramente numa equipa nova porque estamos bem organizados, passamos tudo de um dia para o outro. O problema é que a ANIMA vai ter um custo adicional, o de um gestor”, disse.



