A ANIMA entregou ontem à Companhia de Corridas de Galgos de Macau (Yat Yuen) os 650 formulários de adopção rejeitados pelo IACM. Albano Martins defende que os documentos são suficientes para o Canídromo ajudar no processo de adopção dos cães. O presidente da ANIMA diz não querer mais “lutas” com a Yat Yuen e defende que a colaboração da Companhia ajudaria a melhorar a sua imagem a nível local e internacional
Inês Almeida
Ontem pelas 11:00, uma representante da Companhia de Corridas de Galgos de Macau (Yat Yuen) recebeu das mãos do presidente da Sociedade Protectora dos Animais de Macau (ANIMA) um caixote de cartão com os 650 formulários de adopção que tinham sido entregues ao Instituto para os Assuntos Cívicos e Municipais (IACM) e que foram devolvidos pelo organismo na terça-feira.
“Todos os documentos aqui são suficientes para eles [Canídromo] ajudarem, mas acredito que não pode haver uma adopção segura destes animais, uma vez que o Governo não nos permite, ou mesmo ao Canídromo, ficar aqui [no espaço] por mais um ano, garantindo que nenhum dos cães vai para a China Continental que já tem muitos problemas”, frisou o presidente da ANIMA, que teve sempre ao seu lado Zoe Tang, membro da direcção da associação.
Questionado sobre as expectativas em relação ao que sucederá aos formulários entregues, Albano Martins disse não ter a certeza. De qualquer forma “temos um ‘backup’ de todos estes formulários”. “Sei que não é fácil fazer um programa de adopção especialmente para pessoas que não estão habituadas e o Canídromo não está, por isso, podemos ajudar, mas precisamos de tempo. Temos de fazer análises a todos os animais que vão para a Europa, demora três meses [a quarentena], para Hong Kong são quatro meses. Também temos de preparar todos os dados para 650 animais e deve ser tudo feito com calma. Um ano é suficiente”, assegura.
Além disso, Albano Martins garante saber através de “fontes importantes do Governo” que o espaço do Canídromo não será reorganizado em menos de um ano, pelo que o Executivo pode aceder ao pedido da ANIMA.
Nesse sentido, espera que a Yat Yuen colabore. “Não queremos lutas. Eles não vão perder a face e, internacionalmente, vão aceitar o que estão a fazer e esquecer o que aconteceu no passado”. “Este negócio existe em todo o mundo, a questão é que no caso de Macau nenhum cão saía vivo. Durante tantos anos, até 2014, nenhum cão saía vivo. Estamos a falar de entre 15.000 e 19.000 animais mortos, cerca de 360 por ano”.
“Se não conseguirmos salvar estes animais, pelo menos, fizemos uma coisa muito importante que foi parar as mortes. Talvez estes sejam os mártires dos galgos de Macau, mas esperamos salvar os últimos”, indicou Albano Martins, esperando que a Companhia de Corridas de Galgos aceite todos os formulários de adopção.
Avaliação dos adoptantes “é o mais importante”
Questionado sobre o facto de alguns galgos do Canídromo já terem sido adoptados, Albano Martins alertou que alguns animais “vão ser devolvidos”. “Ontem [terça-feira] um deles foi devolvido e já está no Canídromo outra vez porque o adoptante disse que o cão estava a destruir a mobília. Isso é normal quando um animal é jovem. Nós temos pessoas com experiência para ajudar estes animais a ser adoptados por famílias competentes e não dá-los a pessoas que não se importam com os cães, que só querem ser famosas. Vêm adoptar, tiram fotos, a imprensa partilha as imagens mas depois devolvem-nos”.
Por este motivo, uma avaliação do “background” dos potenciais adoptantes “é o mais importante”. “Se enviarmos [galgos] para a Europa ou para os Estados Unidos, como poderemos saber quem os vai adoptar? Temos de confiar na capacidade de pessoas que fornecem este tipo de serviços gratuitamente e é isso que estão a fazer por nós”, destacou Albano Martins.
O presidente da ANIMA disse que não estava à espera da recusa do IACM em aceitar os formulários uma vez que o organismo “foi sempre um intermediário nesta questão”. “Talvez [o IACM] soubesse que eles iam aceitar os nossos formulários de adopção, talvez tenham feito pressão, mas a verdade é que não estava à espera que eles [Canídromo] aceitassem os formulários de adopção. Alguma coisa está a mudar na sua cultura. Estou feliz”.
Relativamente ao “apoio técnico” que o IACM prometeu dar aquando da recusa dos formulários de adopção, Albano Martins fez questão de frisar que o organismo já deu muito apoio à ANIMA. “Os nossos galgos vieram através do IACM e o IACM dava sempre prioridade à ANIMA. Se o IACM se deparar com um animal abandonado, acredito que nos contacta primeiro. Dos adoptantes que encontrámos, nenhum cão foi devolvido”.
Além disso, Albano Martins frisou que a ANIMA está disposta a colaborar com associações como a Associação de Protecção de Animais Abandonados de Macau (APAAM) ou a Masdaw para evitar que os galgos sejam enviados para o Continente. “Mesmo na China temos a ‘Capital Animal Welfare Association of Beijing (CAWA). A CAWA esteve em Macau, ajudou-nos, mas dizem-nos sempre para não enviar os cães para a China porque já têm muitos problemas. Porque é que estão sempre a pedir à China para resolver os problemas?”, interrogou.
“Espero que acordem e digam que é o fim, que perderam a batalha e que é melhor que alguém os ajude, caso contrário, não nos dão nenhum cão. E se pensam que vão enviar para a China, não tenho a certeza de as autoridades chinesas ficarem felizes por receberem tantos cães. Se a China não autorizar o envio dos galgos para lá, o que vai acontecer? Se abrirem os olhos, vão querer ter uma boa imagem para a comunidade local e internacional”, defendeu Albano Martins.
Actualmente, a maioria dos potenciais adoptantes dos galgos reside em França, Itália, Reino Unido e Estados Unidos. Há ainda um em Portugal, no Porto.
O Canídromo vai organizar, no domingo, uma nova iniciativa para promover a adopção dos galgos. “Se for o circo ou má peça de teatro da última vez, fico muito chateado, mas espero que algumas pessoas consigam adoptar e que se encontrem famílias de acolhimento que mantenham os galgos durante um tempo”, concluiu o presidente da ANIMA.
IACM e Hong Kong negoceiam facilidades no envio dos galgos
O Departamento de Agricultura, Pesca e Conservação de Hong Kong está a debater com as autoridades da RAEM a criação de “um mecanismo especial” com o objectivo de facilitar a adopção dos galgos, confirmou o Instituto para os Assuntos Cívicos e Municipais (IACM) à TRIBUNA DE MACAU. De acordo com a imprensa da RAEHK, há pelo menos quatro abrigos de animais na região vizinha que demonstraram vontade de acolher galgos do Canídromo. O organismo da RAEHK disse que tem recebido pedidos de informação dos cidadãos, porém, ainda não houve solicitações que tenham em vista o envio dos galgos de Macau para Hong Kong. Ainda assim, o mesmo departamento defende a criação deste mecanismo especial assegurando que não vai afectar a saúde pública. Actualmente, as instalações de quarentena na RAEHK estão lotadas.



