Apesar da distância e diferentes dimensões, Angola e Macau têm em comum um passado histórico e uma língua que os une. Bases de uma relação que Luanda deseja reforçar, focada na vertente económica, indicou a consulesa-geral de Angola na comemoração dos 42 anos de independência do seu país
Salomé Fernandes
A 11 de Novembro de 1975, Agostinho Neto, primeiro Chefe de Estado e líder do Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA) declarava a independência da nação. Para trás ficava a soberania portuguesa, que ajudou a fomentar laços com Macau, conforme salientou a Consulesa-Geral angolana na RAEM, à margem da celebração do 42º aniversário da independência da República de Angola, realizada sexta-feira no Clube Militar.
“Macau e Angola foram administrados pelo mesmo país. Ambos falam Português, têm ligações com famílias que aqui estiveram e tudo isso são coisas que unem Macau e Angola. Laços antigos, culturais, linguísticos são muito fortes”, disse Sofia Pegado da Silva ao Jornal TRIBUNA DE MACAU.
No Consulado estão registados cerca de “meia centena” de angolanos, alguns a trabalhar, outros a estudar na RAEM,. No entanto, a vinda de estudantes enfrenta barreiras financeiras. “Muitos estudantes querem vir para Macau, mas nem todos conseguem pagar as suas propinas”, comentou a diplomata.
Essa questão já tinha sido apontada em Junho por Francisco Higino Carneiro, governador da província de Luanda, que expressou o desejo de ver alunos de Angola a terem oportunidade de estudar na RAEM, nomeadamente através de bolsas de estudo.
Apesar de mencionar a divulgação cultural dos países lusófonos pela RAEM, a consulesa focou o seu discurso nas relações comerciais, num quadro de uma política externa centrada na diplomacia económica e na captação de investimento directo estrangeiro. Além da “presença de uma extensa delegação angolana na 22ª edição da Feira Internacional de Macau (MIF)”, Sofia Pegado da Silva realçou o “desejo manifestado pelo Banco Internacional de Crédito, instituição bancária de direito angolano, na abertura de uma sucursal em Macau”.
Em relação à MIF, mostrou-se optimista de que os contactos estabelecidos resultem em projectos concretos. “Angola teve o maior pavilhão na MIF. Estiveram presentes muitos empresários e responsáveis bancários para darem a conhecer a Macau aquilo que têm. Se continuarem a difundir o que nós temos e os macaenses também tiverem esse interesse, vamos ter um futuro melhor na relação”, disse.
Em representação do Chefe do Executivo, o Secretário para os Transportes e Obras Públicas, Raimundo do Rosário, frisou que “Angola é um dos principais parceiros comerciais da China na lusofonia, e Macau, incorporando os seus desígnios do papel histórico entre o Ocidente e o Oriente, atribui grande importância às relações entre os dois países e pretende continuar a contribuir para o seu aprofundamento”.
Relações económicas com a China
Este foi o primeiro aniversário da independência com João Lourenço na Presidência de Angola, depois de 38 anos de chefia de José Eduardo dos Santos. Sofia Pegado da Silva ainda chamou “Presidente” a José Eduardo dos Santos, e “doutor” a João Lourenço no seu discurso, no entanto, o registo mudou ao prestar declarações. “Em Agosto foi nomeado um novo Presidente da República. No seu discurso à Nação nomeou a República Popular da China como o segundo principal parceiro de Angola. E isto é uma frase do senhor Presidente João Lourenço”.
As quedas dos preços dos barris de petróleo desequilibraram a economia angolana, um problema que Sofia Pegado da Silva acredita poder ser resolvido com a diversificação. “Enquanto o preço do barril estiver baixo vamos para outras áreas, para equilibrar”, indicou, acrescentando que Angola está a investir na “diversificação da economia e os investidores podem ir para a agricultura, a agro-pecuária, ou o turismo”. Para já, aponta a construção, nomeadamente de escolas, estradas e pontes, como o sector em que os investidores estão mais focados.
Por outro lado, a consulesa-geral indicou que muitos chineses e residentes de Macau têm pedido vistos, tanto no Consulado de Macau, como em Cantão e Hong Kong, na sua maioria para trabalhar. As empresas chinesas localizadas em Angola “têm trabalhadores chineses, mas temos algum nível de desemprego e seria bom que utilizassem trabalhadores angolanos”, disse.
Segundo dados do Instituto Nacional de Estatísticas de Angola, em 2016 a taxa de desemprego entre a população dos 15 aos 64 anos era cerca de 20%, com o valor mais elevado (38%) entre os jovens com 15-24 anos. Uma situação que Sofia Pegado da Silva acredita que sofrerá alterações positivas com a mudança política no país. “É só ver o discurso do nosso Presidente, que quer fazer muitas mudanças. Empregar mais gente e fazer de tudo para dar melhor vida à população da República de Angola”.
Com associações humanitárias a denunciarem frequentemente violações de direitos humanos no país africano, resta ainda saber o impacto que terá a recente eleição de Angola para o Conselho de Direitos Humanos da ONU, entre 2018 e 2020. “Se houver casos que Angola ache que tem de mudar, acho que é conveniente. Vão ver exemplos práticos de outros países, acho que vão por esse caminho”, comentou Sofia Pegado da Silva.
Para a consulesa, a eleição para o conselho, que compreende 15 países, é naturalmente positiva. “É bom, estamos melhor representados, vamos ouvir questões humanitárias dos outros países e dar os pareceres que nos forem solicitados”, disse.



