Deu-se ontem o arranque de mais um ano lectivo na Escola Portuguesa de Macau, onde a energia dos alunos era palpável e as saudades se traduziram em conversas. Com uma comunidade de alunos de língua materna não portuguesa a aumentar significativamente no primeiro ciclo, o principal desafio prende-se com o espaço

 

Salomé Fernandes

 

O ano lectivo 2018/2019 arrancou ontem na Escola Portuguesa de Macau (EPM) com mais alunos. Lá dentro, o burburinho crescente que não permite perceber o que se diz mas que faz notar a partilha de novidades pós-férias denunciava o início do ano lectivo 2018/2019, a par da mancha visual causada por uniformes em tons de amarelos e azuis, semi-ocultos pelas mochilas. Uns acompanhados pelos pais e outros já independentes, os estudantes reuniam-se naquele espaço prontos para uma nova jornada escolar.

De 570 alunos no ano lectivo passado, a instituição acolhe agora 600, fruto sobretudo de um aumento de estudantes no primeiro ciclo. “Admito que venha a atingir 605 a 610”, indicou o presidente da direcção, Manuel Machado. “Os números de ontem [terça-feira] mostravam que no primeiro ano temos 76 alunos, distribuídos por quatro turmas, o que representa uma turma a mais”, disse à TRIBUNA DE MACAU. Este é o número mais alto de alunos de pelo menos os últimos dez anos, já que o ano lectivo 2004/2005 começou com 599 inscrições.

Manuel Machado quer evitar pensar na hipótese de vir a ser necessário recusar estudantes por falta de capacidade, porque “já sou professor há muitos anos e não é simpático, não é agradável ter de rejeitar alunos”. No entanto, o projecto apresentado às Obras Públicas, para ampliação de instalações, de construção de um novo edifício permanece sem resposta.

“Está a seguir os seus trâmites normais, (…) temos de esperar que o tempo corra para que as coisas sejam decididas, para ver se é necessário modificar o projecto ou se é exequível nos moldes em que foi apresentado”, disse. Frisando que a expansão é necessária porque “a taxa de ocupação das instalações está no limite”, o presidente da direcção da Escola Portuguesa acredita que ao longo deste ano lectivo possa saber quando será possível dar início às obras.

Em 2018/2019, o recomeço das aulas faz-se sem sobressaltos, com a generalidade das obras começadas no Verão já terminadas. Como mudança, deu-se a subscrição de um software de uma empresa portuguesa, utilizado em muitas instituições de ensino em Portugal, que permite aos alunos utilizarem um cartão electrónico. “Esse cartão funciona de certa forma como um porta-moedas electrónico, recarregável para os alunos fazerem as suas compras, e também para poderem aceder através de sensores que já foram instalados na escola, a aceder e sair”, referiu Manuel Machado.

No entanto, com este sistema, o portão que abria para a Avenida D. João IV vai deixar de permitir circulação, sendo a alternativa uma porta situada para a Rua da Escola Comercial, que contém os devidos sensores.

 

Estudantes novos de língua portuguesa em minoria

Alice Corte-Real (esquerda) e Nina Rizzolio (direita) 44

“Posso dizer que dos 76 alunos que ingressaram no primeiro ano, 51% não são de língua materna portuguesa. No ano passado eram 33%, portanto é uma diferença bastante significativa. O que significa que a escola continua a ser procurada por alunos que não portugueses, ou de língua materna portuguesa”, notou o presidente da direcção.
Já o interesse dos alunos portugueses em aprender chinês mantém-se semelhante a anos lectivos anteriores. A nível do primeiro ciclo, nomeadamente do primeiro ano, 100% dos alunos optaram pela via de aprendizagem que inclui essa língua.

“Depois, a nível do segundo e terceiro ciclo há algum decréscimo”, referiu. É necessário, porém, esperar pelos resultados do projecto implementado há um ano que prevê dois níveis de mandarim – o avançado e o regular. A menor adesão acentua-se ainda no secundário devido à dedicação que os alunos têm de dar às disciplinas em que têm exame nacional. Ainda assim, Manuel Machado garante que o ensino das línguas permanece um dos objectivos principais do projecto educativo da EPM.

Eunice Fong

Foi também nessa linha que no ano passado se ofereceu o cantonês enquanto actividade extra-curricular, frequentada por cerca de 16 alunos. As actividades extra-curriculares abrem este ano mais tarde. “Temos mais alunos, uma organização um pouco mais complexa. Há que assentar primeiro com tudo aquilo que faz parte do currículo e com as actividades lectivas, salas de estudo, e só depois disso estar em pleno funcionamento e sem quaisquer ruídos é que podemos então avançar com as actividades”, disse, mencionando existirem novas ofertas, dando como exemplo um projecto de banda desenhada.

 

Confiança para o arranque
Amber Lam vai ingressar no 1º ano. A escola é nova, mas os desafios não. Vinha do Jardim de Infância Costa Nunes pelo que já tinha contactado com o português. Demasiado tímida para falar, refugia-se junto da mãe, que explica que “queria que ela aprendesse mais línguas, para além de inglês e cantonês”.

Gabriel Barreto ainda está a estudar opções de futuro

Também Santiago Lança, de 9 anos, se mostra tímido. Já estudava na EPM mas regressa para um novo ciclo lectivo. O jovem acredita que o quinto ano vai ser “bom”, apesar de estar um pouco nervoso. “Acho que vou gostar mais das Ciências. A mais difícil acho que vai ser a Matemática”, revela, encorajado pela mãe. Também para o 5º ano vai Graça Quadros, com 10 anos que não mostrou pena de deixar as férias. “Já tinha saudades da escola e dos meus amigos. Vai ser um pouco decorar as salas de aulas no princípio mais vai ser giro”.

Na EPM desde o primeiro ano, Alice Corte-Real conhece bem a instituição mas sentiu mudanças no seu começo do sexto ano, com a separação de turmas. “É uma boa mudança, porque depois no 9º ano separam mais as turmas de acordo com o que cada aluno escolher e é uma boa preparação”. Acha que este arranque vai ser um pouco mais difícil por ter de se habituar à mudança de turma mas afirma-se preparada.

A conviver no átrio da instituição nos momentos que antecedem a cerimónia de abertura no ginásio, encontramos também Nina Rizzolio, de 11 anos, que acredita que o sétimo ano vai ser mais difícil por ter mais disciplinas, mas ainda assim bom. “Acho que estou preparada”. Entusiasmada com físico-química e geografia, estuda também mandarim. “É difícil, mas os meus pais preferiram o mandarim ao francês porque como estou na China e a língua é mais falada acho que me pode ajudar mais no futuro”, sublinhou.

Graça Quadros com o irmão

Ao nível do ensino secundário as preocupações focam-se já no ingresso no ensino superior. “Como sempre temos aquela parte em que vemos os amigos, é tudo divertido. Mas quando começam as aulas a pegar um ritmo mais pesado, aí fica mais complicado. Ainda por cima no 11º que é o ano dos exames nacionais”, comentou Gabriel Barreto. O estudante de 16 anos ainda está a estudar opções de futuro. Por agora, sabe apenas que o reserva um ano de estudo mais intenso.

Eunice Fong, que já entrou na recta final, também não tem uma decisão final mas está mais voltada para seguir medicina. Mas o pior já passou. Para a jovem de 17 anos, “nada se compara com o exame de biologia e química”. Além disso, no 12º ano a carga horária é menor. “O ano passado como era o 11º o horário era muito pesado. As disciplinas eram muito exigentes e tínhamos exame. Este ano é mais leve, mais fácil”.