A Escola Portuguesa de Macau (EPM) comemora 20 anos, um percurso que nem sempre foi fácil, nota Maria Edith da Silva, que dirigiu o estabelecimento de ensino ao longo de 15 anos. A antiga directora destaca como marcos determinantes da evolução da escola a inconstância do número de alunos, o início do ensino do mandarim e a adaptação dos currículos à realidade local. O presidente da Fundação da EPM acredita que o futuro passa por levar o ensino do Português além fronteiras, para a China, começando pelas regiões mais próximas como Hengqin e Zhuhai

 

Inês Almeida

 

A 13 de Abril de 1998, foi instituída a Fundação Escola Portuguesa de Macau (FEPM), que integrava o Estado Português, a Fundação Oriente, que acabou por sair da FEPM em 2015, e a Associação Promotora da Instrução dos Macaenses, que cedeu o edifício da Escola Comercial Pedro Nolasco. Cinco dias depois, era lançada a primeira pedra da Escola Portuguesa de Macau (EPM). Na cerimónia estiveram presentes o Primeiro Ministro português António Guterres, o Ministro da Educação, Marçal Grilo, o Governador Vasco Rocha Vieira e o presidente da Fundação Escola Portuguesa, Roberto Carneiro. Maria Edith da Silva foi escolhida para primeira presidente da direcção da escola.

A evolução ao longo dos 20 anos que entretanto passaram nem sempre foi um processo fácil. “A escola começou num reboliço por causa da escolha do espaço. Eu própria naquela altura estava na Assembleia Legislativa e fui muito crítica em relação à escolha deste local. Queríamos um espaço maior porque podíamos albergar mais alunos. Naquela altura tínhamos 1.100 alunos. Mas a escolha foi do Ministério [da Educação de Portugal]”, recorda Maria Edith da Silva, em entrevista à TRIBUNA DE MACAU.

“Lembro-me que estava na Direcção dos Serviços de Educação e Juventude (DSEJ) quando começámos a pensar em termos futuros, como vai ser a EPM e onde vai ser. Escolhemos vários espaços para Portugal escolher, espaços bons, escolas grandes, algumas já construídas, outras por construir. Qual não foi o nosso espanto quando a delegação que veio para escolher os espaços escolheu este”, recorda a primeira presidente da direcção da EPM.

Maria Edith da Silva relembrou ainda “um célebre encontro” entre os deputados da Assembleia Legislativa com o então Ministro da Educação português Marçal Grilo. “Tive muita pena dele, que vinha com uma missão de Portugal. As pessoas da terra não achavam nada bem esta escolha porque havia tanto por onde escolher e a grande maioria estava a favor da continuidade no antigo complexo escolar, hoje Instituto Politécnico de Macau”, sublinhou.

Tudo isto aconteceu no final de 1997. No ano seguinte foi constituída a FEPM. “Estava na direcção da Associação de Promoção da Instrução dos Macaenses, como vice-presidente, e a constituição da FEPM foi assinada com toda a pompa e circunstância mas discutimos muito o fundo inicial. Achámos que era pouco, mas foi o que conseguimos”, destacou Maria Edith da Silva.

A partir daqui, começou-se a preparar o início do funcionamento da escola, a muito pouco tempo do arranque do ano lectivo 1998/99. “Estávamos em 1998 e a EPM supostamente devia iniciar as aulas já em Setembro e não tínhamos rigorosamente nada, além de estarmos com 1.100 alunos que a antiga Escola Comercial não tinha condições para albergar”, explicou Maria Edith Silva. Daí, surgiu a necessidade das obras para criar condições para ali ser leccionado o ensino secundário complementar. “Fez-se obras, iniciou-se a construção desta ala nova, cujo lançamento da primeira pedra foi a 18 de Abril”.

Então, surgiu um segundo problema: escolher a direcção da EPM. “Nunca pensei ser a primeira presidente [da direcção] porque naquela altura estava na Assembleia Legislativa a tempo inteiro, mas já estava para chegar António Guterres, como Primeiro-Ministro e não tínhamos um nome. Fui bastante pressionada para ser a primeira presidente e hesitei um bocado. Não achava que devia ser eu, mas também não queria deixar os governantes virem a Macau e sair daqui sem terem um nome, até porque em Setembro tinha de haver alguém para puxar a carroça. Então, resolvi aceitar o desafio”, contou.

E um desafio foi, além de uma missão. “Na altura pensei que como já tinha estado 15 anos na DSEJ, responsável por 3.000 professores, 100.000 alunos e não sei quantos funcionários, achei que uma escola com 1.000 alunos não devia ser um grande problema. Errado”, destacou a rir.

 

Primeiros cinco anos foram complicados

Nunca houve problemas pedagógicos, no entanto, os primeiros anos da EPM não foram “um mar de rosas”. “No primeiro ano tínhamos o problema do espaço. Depois, o da queda dos alunos. Em 1999/2000 tínhamos 900 alunos, foi um decréscimo de 30%. Já estávamos à espera porque a grande maioria dos funcionários públicos portugueses viram os seus contratos terminados e tiveram de regressar”.

No entanto, essa tendência não abalou Maria Edith da Silva. “Ao aceitar a missão de conduzir a escola, pensei que ela era para ficar. Fiquei muito triste com algumas intervenções a dizer que a escola não durava mais do que três anos, que não ia ter alunos. A minha determinação era a de termos uma escola de prestígio, referência e que servisse a comunidade local”.

Os primeiros cinco anos foram complicados e “muito trabalhosos”. Primeiro, devido ao decréscimo do número de alunos. Depois, no que respeita à introdução da língua chinesa no currículo da escola.

“Durante anos houve uma discussão. Fui sempre muito firme em dizer que a língua chinesa, a ser introduzida curricularmente, deveria ser o mandarim, mas houve uma grande discussão durante anos. Só em 2005 consegui introduzir o mandarim e o inglês no ensino primário”, referiu Maria Edith da Silva, esclarecendo que muitas pessoas defendiam o ensino do cantonês. “Fico triste a pensar nisso porque acho que perdemos anos. Se tivéssemos começado logo de início, os alunos tinham outro nível de mandarim”.

Passados estes primeiros tempos, “os resultados são bastante satisfatórios”. “O corpo docente é estável, bom, dedicado. As pessoas já vestem a camisola da EPM. No início, quando passava nos corredores sentia que havia grupos de alunos do Colégio D. Bosco, do Liceu, os professores também, e pensei que ia ser complicado integrar estas pessoas todas e dizer que agora somos só uma escola: a EPM”.

Outra questão determinante no percurso da EPM teve a ver com cortes orçamentais. “Depois dos primeiros dois anos em que a administração portuguesa deu um grande apoio à escola, começámos a perceber que o custo do aluno na escola era muito elevado e havia ordens do próprio conselho de administração para reduzir o custo”.

Mas como? “Não se podia cortar nos vencimentos, não queria despedir pessoal, os alunos estavam a diminuir”. A única solução foi recorrer à DSEJ. “Incentivámos todo o pessoal a fazer grandes projectos, incluindo o nosso projecto educativo e, com eles, recebemos muitos subsídios e apoios”.

Estes projectos foram também benéficos para dar outro tipo de formação aos estudantes. “Os alunos não vêm para a escola só para aprender o abecedário. Temos de formar pessoas. Dou muito valor à formação da cidadania e aos valores humanos”.

 

A “mãe” de uma  “muito grande família”

Maria Edith da Silva foi, antes de mais, a primeira funcionária da EPM. “Há uma coisa que muito pouca gente sabe: fui a primeira funcionária da EPM. No dia 18 de Abril [de 1998] lançaram a primeira pedra e anunciaram o meu nome. No dia 1 de Maio comecei a trabalhar na escola sozinha. Não tinha ninguém porque os professores que vinham estavam a acabar o ano lectivo e os funcionários eram os da Escola Comercial. Estava sozinha, mas sabia que tinha a missão de lançar o ano lectivo. Não deixa de ser um período fascinante para mim”, destacou a antiga presidente da direcção.

No entanto, ressalva, “isto nunca foi trabalho de uma só pessoa”. “É sempre um trabalho colectivo, desde a presidente até ao funcionário da limpeza. Tenho muito orgulho de ser a mãe desta muito grande família”, sublinhou a actualmente presidente do Conselho de Curadores da EPM.

Neste momento, defende Maria Edith da Silva, “a grande prioridade é a consolidação da EPM”. “É preciso acompanhar as novas tecnologias, o desenvolvimento de Macau, e devemos apostar mais fortemente na formação dos jovens para enfrentar os desafios da vida e serem bons cidadãos”.

A “última grande prioridade” e “grande preocupação” é a questão das instalações. “Estamos a aproximar-nos dos 600 alunos. Temos dados das turmas do Jardim de Infância D. José da Costa Nunes e da Flora que virão para a EPM e não temos instalações para aceitar tantos alunos. O dia em que recusarmos alunos vai ser um pouco complicado”, alerta.

Além de salas de aula, uma vez que há cada vez mais alunos do ensino primário, é preciso espaço para brincarem. “Estas crianças precisam de espaço para correr. Há falta de espaço para brincarem. Não quero uma escola muito grande. A EPM estaria muito bem com entre 700 e 800 alunos”, acredita Maria Edith da Silva preconizando ainda uma aposta mais forte no Português para falantes de outras línguas e no mandarim.

 

Português além fronteiras

Para o presidente da FEPM, o ensino e a divulgação do Português são também prioridades. Há 20 anos, salienta, vivia-se “um ambiente de grande optimismo face à criação de uma escola onde a Língua Portuguesa era uma ideia forte”. “Os 20 anos são uma grande efeméride, a escola atingiu a fase adulta e tem maturidade para seguir o seu caminho”.

Hoje em dia, destaca Roberto Carneiro em entrevista à TRIBUNA DE MACAU, a EPM é uma escola líder ao nível das outras escolas “internacionais” do território. “A Língua Portuguesa é língua oficial, portanto, é importante que seja acarinhada aqui”, defendeu. “O Português pode ser segunda língua, a seguir ao inglês, aqui na China e é importante ser implementada na RAEM e depois nas outras regiões vizinhas da China”, entende Roberto Carneiro.

O presidente da FEPM sustenta que o organismo que lidera já recebeu vários pedidos nesse sentido. “A EPM pode ser um referencial de qualidade do português nas várias escolas onde se fala Português e pode-se implementar um bom regime de ensino do Português como língua estrangeira e ser o baluarte do Português como língua estrangeira aqui na Região”.

Neste sentido, a EPM “deve estabelecer-se como uma escola de referência para depois ajudar a implementar o Português nas escolas chinesas de Macau e, depois, na China”. “Já há Português nas universidades chinesas, agora é chegar ao ensino secundário e básico. A EPM pode ser uma grande alavanca para o Português no ensino básico e secundário na China”.

Roberto Carneiro destaca que já estão a ser dados passos neste sentido. “Vamos ter [Português] em Zhuhai e na Ilha da Montanha. Em Zhuhai será língua curricular, em Hengqin vamos ter Português como língua extra-curricular. A FEPM vai ajudar no recrutamento de professores, criação de materiais de ensino e avaliação do ensino do português a estrangeiros”.

Se este projecto correr bem, haverá uma expansão para outras zonas da China. “Depois para Guangdong, Fujian. Temos pedidos de outras regiões mas esta zona é prioritária, é a mais próxima de nós. A China é muito grande, é difícil chegar a todo o lado e é mais fácil chegar aqui perto do que chegar longe. Vamos começar pequeno e com cuidado. As coisas boas nascem pequenas”, acredita Roberto Carneiro.

A um nível global, frisa o presidente da FEPM, o Português é já uma língua de referência e de negócio, daí que faça sentido ser ensinado na China. “Temos duas turmas em Zhuhai e uma em Hengqin. Estamos a ensinar seis horas por semana a cada uma. É um excelente princípio”.

Assim se dá o primeiro passo para que o Português se torne “uma língua de referência junto das famílias”, permitindo partir para um projecto ainda maior. “Depois o Português pode ser uma alavanca para [o ensino de] outras línguas como o Francês e o Espanhol que não têm oferta aqui. Pode ser uma alavanca para as línguas europeias com menos expressão. É um grande sonho mas isso vai levar anos, mais de 20 anos. Vão ser anos muito empolgantes para implementar mais o Português aqui na RAEM e na China”, acredita Roberto Carneiro.