O dia 25 de Abril de 1974 foi o mais feliz da vida de João Soares. O antigo Ministro da Cultura e ex-presidente da Câmara Municipal de Lisboa indica que a Revolução dos Cravos ainda hoje tem repercussões, até tendo em conta o que Portugal tem feito nos últimos anos no quadro da evolução da União Europeia que “não tem estado à altura” dos desafios que têm surgido no seu caminho
Inês Almeida
Quarenta e quatro anos depois, o 25 de Abril continua a ser “uma data marcante naquilo que somos hoje como povo, história e país”. “Não apenas em Portugal, mas no mundo. É uma data que modificou por completo a situação em termos do país e no plano internacional”, frisou João Soares em declarações à TRIBUNA DE MACAU.
Além disso, “foi uma revolução que teve repercussões fora do nosso território e serviu de exemplo a muitas das transformações que se verificaram na Europa Ocidental, na Europa de Leste e na América Latina”. A transição de poder em Espanha é um desses casos. “Ainda há pouco tempo estive com Felipe González num evento que teve lugar no Parlamento Europeu e ele reconhece que o exemplo da revolução portuguesa foi determinante na transição que se verificou em Espanha, depois da morte do ditador Francisco Franco, e na revolução na Grécia”, frisou o antigo Ministro da Cultura a título de exemplo.
Também na América Latina surgiram, bastantes anos depois, transformações e “aberturas políticas” inspiradas pelo 25 de Abril. “Não sei cantar, não tenho talento para isso, mas há aquela música muito bonita de Chico Buarque a dizer ‘Foi bonita a festa, pá, Fiquei contente, Ainda guardo renitente, um velho cravo para mim’, que exprime isso de uma forma particularmente saborosa e poética”, defendeu João Soares referindo-se à canção “Tanto Mar” do artista brasileiro.
A Revolução de 25 de Abril é particularmente importante pelos valores que defende: a liberdade, tolerância e paz. “Foi uma revolução feita em nome da paz. Começa por ser uma revolução contra a guerra colonial, que era absurda, não tinha saída, e os militares profissionais estavam cansados de fazer a guerra sem verem uma saída no plano militar, então, aderiram aos valores democráticos”.
Assim, “a liberdade ganhou os militares”. Isso por si só é “um exemplo fantástico”. “Um pouco por todo o lado, por norma, os militares são os opressores. É talvez das primeiras vezes que em termos significativos no mundo os militares têm um papel revolucionário do lado da liberdade e não do lado da opressão”.
Por esse motivo, o 25 de Abril de 1974 “é seguramente um dos dias mais felizes da minha vida, porque a modificou por completo”. “Tinha o meu pai a viver no exílio, muitos amigos na cadeia, muita gente que estava na Guerra Colonial, até conhecia algumas pessoas que tinham morrido na guerra, muita gente que foi passando pelas cadeias. Eu próprio estava preparado para ter de partir se tivesse sido chamado a cumprir serviço militar depois de fazer a recruta”, contou João Soares.
Assim, há 44 anos teve “um dia de imensa alegria”. “Ainda fico comovido quando vejo um cravo vermelho, quando posso pô-lo na lapela, que é o grande símbolo da revolução e uma revolução que tem como símbolo uma flor tão bonita como o cravo e uma cor bonita como é o vermelho merece reconhecimento”.
Esta abordagem mais pacífica às questões tem ainda outro exemplo muito claro. “Somos o único país que escolheu como herói nacional, a ponto de ser celebrado no dia nacional, o 10 de Junho, não um guerreiro, um general, um rei, um conquistador ou grande navegador, mas um poeta a quem tudo falhou. Os amores correram-lhe mal, naufragou, perdeu um olho em combate, esteve preso várias vezes. Falhou-lhe tudo menos a poesia e deixou-nos uma herança fantástica. Não há um miúdo em nenhum ponto do mundo, que seja português, que não saiba pelo menos as primeiras estrofes d’Os Lusíadas”.
O exemplo para a Europa
O comportamento de Portugal, hoje em dia, enquanto Estado-Membro da União Europeia (UE) continua a ser um grande exemplo, defende João Soares. “Aquilo que Portugal tem estado a fazer nos últimos dois anos no quadro da UE, que obviamente não tem estado à altura dos desafios que tem enfrentado nos últimos anos, nomeadamente da crise financeira que se seguiu ao descalabro das bolsas americanas em 2008” espelha isso mesmo, acredita.
“Aquilo que se está a passar com os refugiados no Mediterrâneo é uma coisa vergonhosa que não deixa a UE em boa situação. A UE não tem sido capaz de fazer face a esses desafios e é agora o governo português e o que se tem estado a passar em Portugal que mais uma vez ilumina de esperança o futuro da UE que tem de dar uma volta muito significativa porque são os valores que estão postos em cima da mesa por aquilo que tem sido a prática portuguesa nos últimos anos, os valores fundadores desse grande projecto que foi de criar uma união contra a guerra e pela paz, de diálogo, de cooperação internacional, que é a UE”.
Estes valores são os mesmos que foram preconizados durante a Revolução Francesa, no século XVIII. “São os valores da Revolução Francesa: a liberdade, igualdade, fraternidade, o sentido de solidariedade entre as pessoas. São os valores da tomada da Bastilha, da República Francesa, que às vezes não lhes é fiel, adoptou como valores da sua simbologia. São valores muito difíceis de cumprir, mas nós, portugueses, nos últimos tempos, temos estado a cumprir, talvez como ninguém na Europa”.
João Soares, filho do antigo Presidente da República Mário Soares, falava à margem de uma sessão na Escola Portuguesa onde, a par do Coronel Manuel Geraldes, partilhou com os alunos histórias da sua vivência da Revolução dos Cravos e do período que a antecedeu.



