O 25 de Abril veio pôr fim à guerra colonial. Com o fim da luta, seguiu-se o fim do Serviço Postal Militar, que tantas vezes transportou cartas de “madrinhas de guerra”. Apesar de não ser palco de guerra, também em Macau houve militares a trocarem essa correspondência. Mas, mais do que para apoio moral funcionavam como distracção
Salomé Fernandes
Num regime marcado pela repressão, censura e a guerra colonial, a escrita era um escape. A organização das Madrinhas de Guerra, associada ao Movimento Nacional Feminino criado em 1961 fruto da vontade de Cecília Supico Pinto, pretendia dar às mulheres um papel patriótico na guerra – através do apoio moral aos militares que prestavam serviço no Ultramar. Algumas mulheres aderiam por convicção política, outras por simples solidariedade, mas as histórias que a memória vai deixando descobrir mostra que por vezes o papel de confidente foi trocado pelo de namorada. Algo que terá também ajudado a que se erguessem mais vozes a denunciar a guerra como desnecessária.
Carlos Campos
Mas em Macau, onde o cenário não era de guerra, também havia militares a trocar correspondência com madrinhas de guerra. Carlos Campos foi um deles. Manteve comunicação pouco regular com a sua madrinha de guerra, e nunca a chegou a conhecer presencialmente. Terá enviado apenas 10 cartas e fotografias entre 1962 e 1964. “Era feita através de aerograma que nos chamávamos de ‘levezinho’ (a patente do aerograma é do Fernando Pessoa). Não nos correspondíamos muito regularmente. Nas cartas escrevíamos sobre o que se passava em Macau e Lisboa”, explicou à TRIBUNA DE MACAU.
A viagem no paquete Niassa para cá chegar demorou 59 dias, tendo passado por Angola, Moçambique, Madagáscar, Austrália, Timor e Hong Kong. “A minha Companhia, 363 – Caçadores Especiais, ficou no Quartel da Flora, mais tarde fomos para a Fortaleza de Mong-Há”. Contou como tinha um colega em Macau, que também era vizinho e amigo de infância (no bairro de Alvalade) que teve uma madrinha de guerra com a qual se casou. “Ele chama-se Victor e tinha como alcunha ‘Pisca’. Fui eu, através de uma amiga, que lhe arranjei a madrinha de guerra”.
Quanto ao próprio Carlos Campos, foi a irmã de um amigo de infância que lhe arranjou madrinha, a qual trabalhava no Laboratório Nacional de Engenharia Civil. “Uma das situações que mais me impressionou e que lhe contei, foi um tufão que houve – árvores com a grossura de meio metro a furar as casernas (no Quartel de Mong-Há). No dia a seguir todos os militares que estávamos em Macau fomos ajudar a limpar tudo”, contou.
Mas as suas memórias incluem episódios mais violentos, o resultado de natureza humana e não de desastre ambiental. “Estava num posto de vigia em frente a uma ilha chinesa, vi através de binóculos um ajuntamento de pessoas. Um civil tinha as mãos atadas atrás das costas e estava ajoelhado em frente a um buraco. Militares leram-lhe algo e executaram-no com um tiro na cabeça”.
A madrinha, ajudava à distracção e a saber notícias de um país além-mar. E para além disso, fez parte do Sporting Macau, tendo chegado a jogar pela Selecção de Macau duas vezes, ambas contra Hong Kong.
De distracção a romance
Já Manuel Maria Oliveira passou por essa experiência antes. Chegou a Macau a 31 de Março de 1958, a Coloane. Depois de ano e meio em destacamentos nas ilhas, toda a sua companhia foi para a península. Eram 160 homens. “Estive pouco tempo na Flora, depois fui destacado para as Portas do Cerco, e foi aí que arranjei uma madrinha de guerra”, disse.
Carlos Campos
A madrinha foi-lhe indicada pela irmã, porque tinham sido colegas de trabalho. “Ela era do concelho de Lagos, eu era de São João. Na altura em que começámos a trocar correspondência ela já estava em Lisboa a residir com uma tia na Calçada da Ajuda, estava a começar enfermagem acho que no Hospital de Santa Maria. De maneira que começámos a trocar correspondência durante uns meses”, descreveu.
Cada carta demorava então seis dias a chegar. “Aí às tantas passou a namorico não é? Trocámos fotos e comecei-lhe a narrar. Tracei-lhe a panorâmica de Macau e ilhas”, explicou. É entre sorrisos tímidos que Manuel Oliveira conta que em dois anos de correspondência, metade do tempo foi passado em namoro. Não sabia se seria o único a corresponder-se.
Macau tinha então apenas 16km quadrados e o percurso entre as ilhas e a Península era feito apenas quando a maré o permitia. A diversão era feita de noite, em zonas de esplanadas ao som de nomes sonantes como Elvis Presley. As três sessões diárias nos vários cinemas no centro de Macau também permitiam um escape. Mas o calor tornava impossível que se aproveitasse o dia da mesma maneira.
“Na altura isto estava completamente em paz. (…) Nós estávamos aqui em serviço de guarnição”, comentou. A madrinha, cujo nome se escapou da memória, “era alguém com quem trocar correspondência, impressões, e era um passatempo, digamos. A gente divertia-se a escrever cartas”. Para além de cartas, chegaram a trocar fotografias: “era morena, era bonita”. Uma carta por semana, que Manuel Oliveira aproveitava para escrever enquanto estava de serviço.
25 de Abril foi “a sorte grande”
Quis o destino que o namoro de Manuel Oliveira também não evoluísse. Porque foi também cá que o militar arranjou uma namorada macaense. Encontraram-se num baptizado e “foi amor à primeira vista”. Deu-se o caso perto de Maio de 1961, quando foi promovido, mas não deixou de imediato de escrever à madrinha de guerra.
Pouco depois, um excesso de sargentos no território levou a ordens de regresso a Portugal. “Nessa altura precipitei o casamento, que foi muito rápido, resolveu-se numa semana”, descreveu. O padre da freguesia de São Lourenço enviou um telegrama para Portimão, para saber se era baptizado e livre de contrair matrimónio, o que levou a que a sua família soubesse do noivado.
“Quando cheguei a Portugal entrei em contacto com a madrinha de guerra e se a memória não me falha entreguei-lhe todas as cartas e todas as fotos, e uma lembrança que lhe levei de Macau. Pedi-lhe desculpa do sucedido”, disse. Não quis guardar as cartas para não criar desconfortos na sua vida familiar.
E se foi a guerra e o serviço militar a levar o amor à vida de Manuel Oliveira, foi o 25 de Abril a permitir que o mantivesse. Depois de regressar a Portugal foi nomeado para uma comissão para Cabo Verde. De lá seguiu para Angola, onde esteve em teatro de operações. Isto com a mulher a seu lado, um benefício a que não teve direito quando voltou a embarcar, dessa vez para a Guiné. Por entre estes cenários, os sons dos tiros levaram a que o seu ouvido esquerdo tenha como banda sonora de fundo um zumbido permanente.
Manuel Maria Oliveira
“Da Guiné soube que tinham sido nomeadas duas companhias para Macau. Eu estava nomeado numa companhia para Angola, mas tinha todo o interesse de voltar a Macau. Telefonei para um camarada e pedi para trocar”. Conseguiu que o amigo lhe passasse a declaração, entregou o requerimento devido à repartição de sargentos e o resto é história: veio para Macau.
Era cá que estava quando se deu o 25 de Abril. “Nós aqui recebemos as notícias mais tarde, não soubemos de imediato. Ficámos a aguardar o desenrolar dos acontecimentos. Aqui em Macau também houve uma certa resistência, não houve adesão imediata. Aqui houve um 25 de Maio, talvez”, descreveu Manuel Oliveira.
“Devo ao 25 de Abril o facto de ter continuado em Macau. Também foi a sorte grande que me saiu. Porque voltar a Portugal, depois andar num vai-e-vem com a bagagem às costas…”.
A 4 de Maio de 1974 aparecia um comunicado da Junta de Salvação Nacional a anunciar que “destitui das suas funções o Presidente da República e o actual Governo e dissolve a Assembleia Nacional e o Conselho de Estado”, determinando que todos os poderes atribuídos aos referidos órgãos passavam a ser exercidos por si. Aqui se fez saber também a extinção da PIDE e da Mocidade Portuguesa.
A 2 de Novembro de 1974 era anulado o alvará da SPM 3, estação postal destinada aos militares criada em Macau em 1963. Assim terminava a necessidade de cartas para apoio moral e patriótico a homens que iam para a guerra sem nada e muitas vezes regressavam com menos.



