Wang Jianwei garante que não foi alvo de processo disciplinar na UM
Wang Jianwei garante que não foi alvo de processo disciplinar na UM

Wang Jianwei negou que as acusações de assédio sexual sejam verdadeiras e revelou que a UM arquivou os casos sem abrir um processo disciplinar. Na primeira e última sessão do julgamento por difamação, Wang pediu uma indemnização de 50 mil patacas e que Jason Chao faça um pedido público de desculpas. Esta exigência não é bem vista por Scott Chiang, representante de Jason Chao, para quem a melhor forma de repor o bom nome do académico é divulgar o resultado de investigação

 

Viviana Chan

 

O julgamento do caso em que a “Macau Concealers” é acusada de difamação começou ontem no Tribunal Judicial de Base (TJB), com o responsável pela publicação “online”, Jason Chao, ausente da sessão. O queixoso, Wang Jianwei, solicitou uma indemnização de 50 mil patacas e um pedido de desculpas público de Jason Chao devido à difusão de informação difamatória.

Na resposta às questões colocadas pela delegada do Ministério Público (MP), Wang Jianwei assegurou que as acusações de assédio sexual não são verdadeiras e garantiu desconhecer o motivo na origem da publicação.

Já à porta do Edifício dos Juízos Criminais, confirmou que a UM não abriu um processo disciplinar no seguimento das queixas. Aliás, nunca foi chamado para dar explicações à universidade.

“A universidade recebe muitas queixas todos os dias e tem de ver se são verdadeiras ou não. Posso dizer que Jason Chao matou ou assediou alguém, ou até fazer queixa no CCAC, mas isso não significa que o CCAC confirme o facto. Se a UM nunca abriu um processo, significa que estas queixas não têm razão”, disse aos jornalistas.

Uma das duas queixas apresentadas contra Wang Jianwei envolve uma professora da mesma instituição de ensino. Neste caso, o académico declarou que esta queixa foi comprovada pela instituição como sendo falsa. “A universidade informou-me do resultado da investigação”, salientou. Sobre os resultados da investigação dos dois alegados casos de assédio, a UM nunca respondeu a questões enviadas por este jornal, apesar da insistência.

 

Acusação selectiva

Em 2015, a “Macau Concealers” publicou três artigos sobre os alegados casos, sendo os primeiros dois da sua autoria. Só no terceiro artigo, feito com base no jornal “Today Macao”, o professor foi identificado como Wang. Porém, a acusação visa apenas a “Macau Concealers”.

Nesse sentido, Scott Chiang, que falou na qualidade de representante de Jason Chao criticou o facto da “acusação ter sido selectiva”. À porta do tribunal disse que os meios de comunicação locais têm credibilidade elevada, por isso, acharam que “não deveria haver problema com a reprodução”.

Wang Jianwei explicou no julgamento que, apesar dos primeiros dois artigos não o identificarem directamente, diziam que se tratava de um professor da China Continental, director de um departamento da UM. Salientando que os artigos de “Macau Concealers” circulavam no campus, frisou que colegas e estudantes facilmente perceberam que se tratava dele.

Fora do julgamento, o académico referiu ter sido usado de forma a difamar a UM e a direcção da universidade, num “caso com objectivos políticos”. Wang Jianwei considerou ainda que foi identificado como sendo um académico do Interior da China, como estratégia para gerar uma guerra.

Assegurando que tem sofrido “grande pressão” devido às acusações de assédio sexual, apontou que, por esse facto, deixou de ser director do Departamento de Governação e Administração Pública. “Esta acusação difamatória fez com que colegas de trabalho e estudantes desconfiem de mim quando trabalham comigo”, lamentou.

Questionado sobre se a demissão do cargo de director do departamento se deveu a pressões da direcção da UM, Wang Jianwei negou. “Porque já não posso continuar, fui obrigado a sair da posição”, referiu.

Em relação ao julgamento, o académico disse estar confiante de que vai vencer o processo. “Este caso não é só para defender o meu interesse. Não tenho inimizades com Jason Chao, nem conheço a Macau Concealers, mas a difamação teve grande impacto, como a desistência do cargo de director e mesmo as actividades académicas foram afectadas por isto. Os alunos têm medo de mim e não querem falar comigo”, afirmou.

Além disso, referiu que, devido a este caso, foi censurado pela imprensa, e como era conhecido no estrangeiro por ser especialista em relações internacionais, a sua carreira foi afectada.

 

Falar em nome das

“pessoas vulneráveis”

Scott Chiang apontou que “pronunciar-se pelas pessoas vulneráveis” é uma função “fundamental” da imprensa.

“Obviamente que o julgamento de hoje [ontem] comprova que cumprimos a nossa responsabilidade de verificar os factos. Para além disso, compreendemos que, normalmente nos casos de assédio sexual, as vítimas pertencem a grupos vulneráveis, precisam de procurar apoio. Ou então, quando querem pronunciar-se sobre o caso, muita informação não fica clara. Se em cada caso tiver de ser a própria vítima a falar em frente de toda a gente, acredito que a imprensa fica restringida para exercer as suas funções”, disse.

Considerando que este “caso é significativo para a sociedade”, frisou ser sobretudo importante para a imprensa, que “deve conseguir assegurar o direito de informação”.

Scott Chiang confirmou que a UM nunca respondeu directamente sobre a existência de queixas de assédio sexual contra o académico. Segundo indicou, mesmo durante o julgamento, não foi possível obter documentos sobre o caso da UM. “Nunca chegámos a ter conhecimento do tratamento dado a esses dois casos. Mas, a melhor maneira de repor o bom nome do senhor é divulgar o resultado da investigação feita pela UM”, destacou.

Em relação à página “UMAC Watchdog”, criada por Jason Chao e Kam Sut Leng, Scott Chiang explicou que “não investigamos os casos, só vigiamos os casos”.

“A transparência do mecanismo interno da universidade [de tratamento de assédio sexual] ainda não funciona muito bem. Até agora, o número dos casos de assédio são desconhecidos, em termos do número de queixas, quantos entraram em processo, etc. Muitos casos foram parados antes sequer de terem sido oficialmente tratados, porque o contexto social pressiona fortemente as vítimas, não os suspeitos”.

A leitura da sentença do caso está marcada para dia 6 de Setembro, pelas 15:30.