Cecília Ho alerta para “conceitos errados” na sociedade
Cecília Ho alerta para “conceitos errados” na sociedade

Para Cecília Ho, o caso de alegado abuso sexual em que o assistente social não chegou a ajudar a comunicar à polícia, reflecte a insuficiência dos apoios prestados às vítimas. Criticando os “conceitos errados” na sociedade de que as vítimas de abuso sexual sentem vergonha e até são culpadas dessas situações, a académica frisou que os assistentes sociais têm a responsabilidade de se pronunciar. Já Agnes Lam considera que muitos destes profissionais pensam que as “crianças falam por falar” e há falta de sensibilidade

 

Rima Cui

 

O caso de um formador de música que terá abusado sexualmente de duas crianças quando leccionava aulas de Verão e ainda de uma jovem, que denunciou o episódio vários anos depois, preocupa Cecília Ho. A académica considera que existe falta de confiança da população no sistema judicial e nos procedimentos de execução da lei e, ainda insuficiência de apoio da sociedade às vítimas de assédio e abuso sexual e violência doméstica.

“Todos estes casos envolvem poderes díspares [entre os violadores da lei e vítimas]. Normalmente as vítimas não ousam revelar a situação a outras pessoas e também não têm coragem de alertar polícia. Na sociedade há diversos conceitos errados que criam um ambiente de vergonha e culpabilização das vítimas sobre o que lhes aconteceu. Conceitos errados de discriminação e culpa atribuída às mulheres fazem com que prefiram guardar o silêncio”, frisou a académica do Instituto Politécnico, citada pelo jornal “Cheng Pou”.

Para a também responsável pela Coligação Anti-Violência Doméstica, a responsabilidade dos assistentes sociais não é somente tratar de casos individuais, mas também pronunciarem-se pelas vítimas para que o público tenha conhecimento das lacunas no âmbito judicial e insuficiência na prestação de apoio.

Cecília Ho apelou à criação de orientações sobre o abuso sexual, que sejam tratadas como importante elo na educação sexual, e recomendou a análise do modelo aplicado em Hong Kong.

A académica acredita que o tratamento psicológico não consegue por si só ajudar as vítimas, porque há casos em que estas não foram alvo de uma recuperação de fundo, por não terem sido exigidas responsabilidades.

“A sociedade tem abordagens diferentes. Caso se destaque o respeito pelos direitos das mulheres, os assistentes ajudam as vítimas a enveredar pela procura da justiça, o que será um grande avanço”, sublinhou Cecília Ho.

 

Assistentes sociais com “falta de sensibilidade”

Sobre o mesmo tópico, Agnes Lam considera que o assistente social envolvido no terceiro caso pode não ter conseguido definir correctamente o impacto que a situação causaria à vítima. “Os assistentes sociais têm falta de sensibilidade para lidar com casos de abuso sexual. Às vezes, acham que as crianças falam por falar. Existe essa tendência”, apontou à TRIBUNA DE MACAU.

Segundo Agnes Lam, em Hong Kong, assim que a criança menciona uma mera possibilidade desse tipo, os assistentes e professores estudam seriamente o caso.

Tendo acompanhado alguns casos deste género, a deputada aponta para problemas no actual mecanismo de comunicação, defendendo por isso a revisão das orientações a esse nível. Nesse sentido, Agnes Lam garantiu que, vai envidar esforços para acompanhar se as orientações existentes são ou não suficientes, claras e capazes de proteger as crianças.

 

Ponderadas câmaras nas salas do plano de aperfeiçoamento contínuo

O Secretário para os Assuntos Sociais e Cultura condenou os casos de abuso sexual de menores revelados na semana anterior, indicando que, caso se confirmem, os actos não devem ser perdoados e o suspeito tem de ser punido rigorosamente. Para além de instar os pais a prestarem mais atenção aos sentimentos dos filhos, Alexis Tam assegurou que os Serviços de Educação e Juventude vão reforçar a educação sexual junto de professores e alunos. Indicando que o programa de aperfeiçoamento contínuo envolve muitos âmbitos, participantes e professores, acrescentou que, no futuro, a avaliação de docentes das aulas do programa será mais exigente e que pode ser estudada a viabilidade de instalação de videovigilância nos estabelecimentos.