Com a eliminação, a partir de hoje, do imposto aduaneiro de 20% no Continente chinês, as vendas de leite em pó em Macau deverão sofrer um decréscimo substancial, depois de já terem sido afectadas pela expansão dos “assistentes de compra” online e o retorno da confiança nas marcas comercializadas no outro lado da fronteira. Ouvidos pelo Jornal TRIBUNA DE MACAU, responsáveis de quatro farmácias do território antecipam uma redução de 30% nas receitas derivadas desse segmento
Rima Cui
Entram hoje em vigor na China Continental alguns ajustamentos aos impostos aduaneiros, nomeadamente a eliminação da taxa de 20% sobre a importação de leite em pó. Preocupado com esta medida promovida pelo Ministério das Finanças, o sector farmacêutico de Macau, responsável pela comercialização de leite em pó no território, não tem dúvidas em antecipar um impacto negativo para o seu volume de negócios.
Algumas zonas do território, como as Portas do Cerco e o Centro Histórico, estão repletas de farmácias, cujos clientes principais são do Continente chinês, interessados sobretudo no leite em pó. Embora sem a dimensão verificada há alguns anos, muitos dos visitantes que todos os dias chegam à RAEM por via terrestre continuam a regressar ao Continente com várias latas nas bagagens, num processo bastante simples.
“Se não houver uma certa diferença entre os preços do leite em pó vendido em Macau e no Continente, qual é a necessidade de se deslocarem a um sítio tão longe? Se fizermos uma estimativa cautelosa, a queda deverá ser de pelo mesmo de 30%”, estimou Vong, responsável de uma das quatro farmácias entrevistadas pelo Jornal TRIBUNA DE MACAU.
Segundo o farmacêutico, nos últimos dois anos, as receitas desse produto já sofreram decréscimos significativos, situação que também se deve à abertura de muitas lojas online de negócios transfronteiriços. Com a oferta de vários canais de aquisição, os clientes estão cada vez mais divididos.
No estabelecimento de Vong, metade das receitas provém da venda de leite em pó, sendo a restante facturação assegurada pelos medicamentos, produtos de saúde e de uso quotidiano. “As receitas mensais da venda de leite em pó rondam entre 400 mil e 500 mil patacas”, indicou o mesmo responsável, exortando o Governo a atribuir algum tipo de compensação às farmácias ou a lançar medidas de resposta à nova política do Governo Central.
Já Hiu, jovem que começou a trabalhar numa farmácia há um ano, não se mostra confiante nessa eventual capacidade de resposta. “Se não tivesse lido a reportagem sobre a eliminação do imposto na imprensa de Hong Kong, não iria saber de certeza”, reclamou, criticando o Executivo por não ter alertado o sector para a mudança.
A farmacêutica nota também que os “assistentes de compra online”, muito em voga no Continente, contribuíram para a deterioração dos negócios do leite em pó em Macau. Segundo explicou, a regulamentação permite que um turista leve para o Continente um máximo de seis latas de leite em pó, no entanto, um residente de Macau apenas pode transportar duas e um trabalhador não residente uma lata.
O pessimismo estende-se a Leong, directora de outro estabelecimento, convicta de que os negócios irão “sem dúvida” piorar na sequência do cancelamento do imposto aduaneiro de importação. Ironicamente, confessa estar “habituada” ao declínio das vendas. “As vendas de leite em pó estão piores este ano do que em 2016”, referiu.
“As nossas farmácias, que se localizam na Zona Norte, não têm as vantagens das que funcionam na San Ma Lou, onde há muitos clientes interessados em produtos de saúde de classe alta. Os nossos clientes são maioritariamente pessoas que só querem pegar nas latas de leite em pó e ir embora”, explicou.
Noutra farmácia, a responsável, Zhuang, partilhou as mesmas reticências, considerando que a nova política do Governo Central causará algum impacto nas transacções de leite em pó no território. Relativamente a rumores sobre supostos casos de leite em pó de má qualidade na RAEM, a farmacêutica acredita que “devem ser poucos”.
Quatro farmácias decidem fechar portas
“O impacto desta política será muito grande. Três a quatro farmácias decidiram fechar as portas”, garante Leong Weng Sao, directora da Associação dos Merceeiros e Quinquilheiros de Macau.
Ao Jornal TRIBUNA DE MACAU, a responsável estabeleceu uma relação directa entre as quebras nas vendas de leite em pó nos últimos anos e a limitação ao número das latas autorizadas para exportação.
Em 2008, o escândalo do leite adulterado com melamina motivou uma romagem de pessoas do Continente até Macau, numa busca frenética por produtos com parâmetros de qualidade garantidos. No entanto, nos anos mais recentes, o Governo Central tem reforçado o controlo e a supervisão e nunca mais se registaram casos do género, salientou Leong Weng Sao, acrescentando que os consumidores chineses têm vindo a recuperar a confiança, levando a uma diminuição dos negócios do sector na RAEM.
Na perspectiva da directora da associação, o impacto nos supermercados que também vendem leite em pó não será tão grande. Isto porque, para atrair clientes, as farmácias praticam preços mais baixos do que os supermercados. Assim, se o leite em pó perder o poder de atracção, outros produtos deixarão também de ter saída nas farmácias, considera a mesma responsável.
Leong Weng Sao chamou ainda a atenção para o problema dos revendedores não autorizados. Segundo disse, em mercados como Hong Kong ou Taiwan a falta de procura originou um excesso de stocks e essas latas foram entretanto revendidas para Macau. “O perigo reside no facto de que, caso se encontre algum problema nesses lotes, será impossível responsabilizar a agência original, porque entretanto passou por várias mãos”, advertiu.
De acordo com Leong, embora o sector esteja a acompanhar os problemas e tenha solicitado apoio a vários deputados da Assembleia Legislativa, apenas obteve uma resposta: “não podemos fazer nada, é um assunto da competência dos Serviços de Alfândega”.
Para inverter o cenário, a directora da associação espera que o mercado possa ser mais aberto, através da flexibilização do limite de latas de leite em pó permitidas para exportação.



