A desempenhar as funções de gerente geral da Waterleau Macau, a primeira testemunha da sessão de ontem admitiu em Tribunal que ainda não tinha contrato com a empresa de Luc Vriens mas este pediu-lhe parecer técnico sobre a proposta que foi a concurso para a ETAR do Parque Transfronteiriço. Yan Yuan, um especialista na área, disse ainda que Pedro Chiang fornecia “ajuda jurídica”. Quanto ao La Scala, foi ouvido o gerente de projecto da Chinese Estates Holdings à data dos factos, que confirmou o pedido de um relatório preliminar para os terrenos
Sandra Lobo Pimentel
Depois de na última sessão de julgamento o director de projectos da Waterleau Global, Ron Gerards, ter apontado Pedro Chiang como consultor da empresa belga para o concurso das ETAR, o actual gerente geral da Waterleau Macau disse ontem em Tribunal que Luc Vriens lhe pediu parecer técnico para preparar as propostas, mas ressalvou que não participou directamente.
Yan Yuan foi a primeira testemunha do dia de ontem, confirmando que em 2005, ainda antes de ser funcionário da Waterleau, ajudou na elaboração das propostas que foram a concurso para as ETAR do Parque Transfronteiriço e Coloane, nomeadamente, contributos para conseguir um valor mais baixo por unidade de água, disse.
A defesa de Chiang quis demonstrar que Yan Yuan foi, ele sim, o consultor da Waterleau no processo e não o arguido. No entanto, o especialista ouvido ontem, e que trabalhou desde 1999 na Seghers, antiga companhia de Vriens, liderando a equipa de manutenção e reparação da ETAR de Coloane, disse que Pedro Chiang “ajudava na parte jurídica”.
O advogado João Miguel Barros pediu que especificasse a função de Pedro Chiang, ao que a testemunha respondeu que o empresário de Macau fornecia os advogados, dizendo que uma das duas vezes que interagiram foi quando este lhe passou uma procuração como sócio da Waterleau. Referiu ainda que este “era patrão sem ser patrão”, mas apontando Luc Vriens como superior máximo.
Em resposta ao Ministério Público, Yan Yuan disse saber que Pedro Chiang detinha 20 por cento da Waterleau através da Best Choice, mas que este não interferia nos trabalhos. Desconhece ainda que o concurso das ETAR tenha sido influenciado e quaisquer pagamentos àquela empresa ou distribuição de dividendos.
De novo o relatório preliminar
O gerente de projecto da Chinese Estates Holdings entre Setembro de 2004 e Junho de 2005 esteve a testemunhar sobre os projectos da empresa de Joseph Lau no COTAI e nos terrenos em frente ao aeroporto, para onde estava projectado o empreendimento La Scala.
Li Sau Lung disse que os projectos eram “completamente diferentes”, mas confirmou a existência de relatórios preliminares elaborados por um atelier de arquitectura de Hong Kong encomendados pela Chinese Estates Holdings.
A testemunha disse que em finais de Fevereiro de 2005 a mesma empresa foi contratada para elaborar o projecto para o procedimento de consulta dos cinco lotes de terreno. No entanto, referiu que o prazo de 10 dias era “muito apertado, a não ser que o arquitecto dedicasse todo o seu tempo e equipa” ao projecto.
O advogado de Steven Lo, Rui Sousa, questionou a testemunha sobre o prazo, uma vez que um dos seus subordinados já disse numa audiência que demoraram três dias a uma semana.
O facto de ter existido um relatório preliminar continua a ser um dos trunfos das defesas de Steven Lo e de Joseph Lau, que mais uma vez aproveitaram para confirmar esse uso no ramo. Li Sau Lung concordou e confirmou o mesmo procedimento para os terrenos do COTAI que, no caso, não chegaram a ir parar às mãos da Chinese Estates Holdings.
Um dos argumentos da acusação para sustentar a existência de informação privilegiada prestada a Lo e Lau a troco de 20 milhões de patacas, prende-se com o grau de detalhe do projecto. A testemunha explicou que o estudo conceptual encomendado em Fevereiro de 2005 já o era, uma vez que era exigência do patrão.
O gerente de projecto disse mesmo que Lau “não gosta de ver desenhos mal feitos” e, por isso, deu instruções ao atelier de arquitectura para que apresentassem um bom trabalho.
Na sessão de ontem, foram ainda ouvidas duas testemunhas que desempenharam funções de secretariado na Lei Pou Fat, a sociedade que geria os terrenos das cinco sociedades: Tai Lei Loi, San Hung Fat, San Hou Kong, San Vai Ip e Lei Tin.
Ao Tribunal confirmaram que António José de Castanheira Lourenço, ex- coordenador do Gabinete para o Desenvolvimento de Infra-Estruturas, e Pun Pou Leng eram os gerentes da Lei Pou Fat e recebiam remuneração.
Ambas confirmaram que as maquetas do projecto Macau International Airport Business City estavam expostos na sede da Lei Pou Fat, mas desconhecem os arquitectos responsáveis.



