Depois de uma participação no Desfile Internacional de Macau em 2017, está de regresso ao território a “Galandum Galundaina”, banda que procura manter viva a cultura mirandesa e a música tradicional da região dando-lhe um toque de modernidade para garantir a sua manutenção. Paulo Preto, um dos elementos do grupo que veio participar no Festival Cultural e Artístico da China e dos Países de Língua Portuguesa, defende que a música tradicional deve estar constantemente a reinventar-se, fundindo-se com tendências mais modernas

 

Inês Almeida

 

Há 25 anos, já ninguém cantava as músicas tradicionais das “terras de Miranda” ou tocava os instrumentos. Assim surgiram os “Galandum Galundaina” com o objectivo de inverter a tendência. “Estava tudo em decadência total e vimos que se nada se fizesse essa cultura iria acabar e, provavelmente, hoje estaríamos com um grave problema até de identidade como mirandeses porque, aliada à música está a língua, estão as danças e até a gastronomia”, explicou um dos elementos do grupo à TRIBUNA DE MACAU.

Corria o ano de 1996 quando o grupo foi oficialmente formado, apontou Paulo Preto, ressalvando que havia já um interesse prévio que conta quase 30 anos. A partir do momento em que a banda foi criada começaram a trabalhar para recuperar instrumentos tradicionais.

“Fomos tocando e evoluindo. Também apareceram outras influências de instrumentos que sabíamos que provavelmente tinham estado na nossa terra mas já não estavam. Essa evolução levou-nos à padronização de instrumentos como a gaita de foles para toda a gente tocar em conjunto”, acrescentou.

Então, começaram a surgir os convites para actuar fora do país. “O grupo começou a ser convidado para tocar em todo o mundo. Claro que não corremos o mundo todos os dias, mas temos duas ou três saídas por ano. De resto, fazemos trabalho na Península Ibérica. Estamos sempre na estrada”, assegurou.

O nome da banda surgiu a partir de uma música tradicional, um baile, “que tem a ver com gente galante”. “Um galante desviante, mas no bom sentido”, troçou Paulo Preto. O grupo criou também o festival “L Burro i l Gueiteiro”, evento itinerante com o intuito de preservar algo que já estava em vias de extinção.

Nos planos futuros da banda está o lançamento de um novo álbum, o quarto. “Estamos a pensar agora gravar outro disco. Andamos a trabalhar nele mas temo-nos dedicado a fazer concertos, estamos na organização de várias actividades, outros projectos e actividades”, adiantou Paulo Meirinhos.

Na sua página oficial, a banda tem a frase “a música não se inventa; reencontra-se”, algo explicado por vários dos seus elementos. “A verdade é que a música não se inventará já. A música está toda descoberta, haverá muito para reinventar ou para encontrar. Isso quer dizer que a música antiga pode perfeitamente fundir-se com a música e as tendências modernas”, explicou João Pratas.

É esse um dos objectivos do grupo. “É isso que tentamos fazer cada vez mais, sempre dentro de uma estética que está encontrada, mas que tentamos sempre modernizar, ou seja, tentamos sempre dar aquilo que fomos bebendo ao longo da vida, mas tentamos que isso vá ao encontro da música que fazemos juntos”.

Paulo Preto complementou a informação. “Há a música antiga mas ela não tem uso na forma como nos é apresentada, está descontextualizada. Com a nossa sapiência, os instrumentos que temos, conseguimos tornar essa música audível, jovem e bem integrada na música que se pretende hoje. A música tradicional nunca pode cheirar a velho. É pegar nela e reinventá-la”.

Quando a música estiver descontextualizada, quando o seu contexto desaparecer, no momento em que volta a haver um contexto que a traz ao de cima, “a batalha está ganha”, defende Paulo Meirinhos.

 

“Não há duas sem três”

É a segunda vez que o grupo está em Macau. “Estamos agora e estivemos em Dezembro no Desfile Internacional de Macau. Não há duas sem três, temos fé nisso. O que nós fazemos representa muito a cultura portuguesa, aquela cultura mais tradicional”, frisou. Regressar à RAEM “é um reconhecimento da variedade de trabalho que nós fazemos, de um modo diferente”, Paulo Meirinhos.

João Pratas interveio para referir que a banda congratula-se “de todas as vezes que é chamada” pois é sinal que gostam do trabalho desenvolvido. “Seja aqui, seja em qualquer lado, é óptimo voltarmos”.

No entanto, a vinda ao território traz alguns condicionamentos. “Há que ter em conta que estamos sempre condicionados ao que nos propõem. Vamos fazer duas apresentações, uma de cinco minutos, outra de 25. O que vamos trazer é o que conseguirmos encaixar nesses timings”, afirmou João Pratas. Ainda assim, assevera, os temas apresentados são sempre aqueles que o grupo considera mais representativos do seu trabalho e da sua cultura local. “É a nossa bandeira. O que trazemos é a música mirandesa refeita à nossa maneira”.

Tudo depende também dos instrumentos utilizados, explicou. “Previamente já pensámos num alinhamento mais alargado antes de virmos para que o transporte fosse facilitado, ou seja, não trouxemos tudo mas trouxemos o geral para apresentarmos as músicas”. A principal preocupação passou por trazer um leque de instrumentos que fosse “representativo” mas, ao mesmo tempo, “o mínimo indispensável para viajar com alguma tranquilidade e facilidade”.

O rol de instrumentos que vão ser utilizados no espectáculo em Macau inclui a gaita de foles, as flautas pastoris, a sanfona e as percussões.

Questionados sobre a importância de eventos como o Festival Cultural e Artístico da China e dos Países de Língua Portuguesa, João Pratas referiu que “quando há tanta gente que até em Portugal não conhece a música, podermos apresentá-la fora de fronteiras, é sempre espectacular”. “Quanto mais longe pudermos ir com a nossa música, melhor”, sublinhou. Paulo Preto acrescentou que outras regiões e países deviam organizar um evento semelhante ao de Macau reconhecendo, no entanto, que nem todos têm as condições para tal.