Desde que se lembra de ser gente, Francisco Vidal pinta. A pintura é também a forma de criar uma “biblioteca de culturas” devido às várias influências que recebeu, por ter um pai angolano, mãe cabo-verdiana, e ter nascido e crescido em Lisboa. O pintor português diz-se também muito entusiasmado com o projecto da “escola de papel”, uma iniciativa que leva a pintura e o desenho a países mais carenciados

 

Inês Almeida

 

Nascido em Lisboa, Francisco Vidal nunca foi indiferente à riqueza cultural que tinha à sua volta, embora nem sempre a tenha compreendido. “O meu pai é angolano e a minha mãe é cabo-verdiana, isso deu-me uma riqueza de cultura que fala português mas com sotaques diferentes, o que foi muito interessante para mim. Nem sempre pensei sobre isso mas tornou-se interessante quando comecei a pensar e a tentar organizar os diferentes sotaques e objectos das diferentes culturas”, contou à TRIBUNA DE MACAU o pintor, que participa numa mostra integrada na primeira edição do Festival de Artes entre a China e os Países Lusófonos.

Assim, “fiz uma biblioteca de culturas que estavam ali em casa e isso começou a acontecer quando comecei a pintar de uma forma mais preocupada porque quando o fazia na infância e na adolescência era para pôr coisas cá fora, não pensava muito sobre o assunto”.

“Esta hipótese de falar Português e trocar ideias em Português mesmo em territórios é muito interessante. Mesmo que esteja em Macau e não consiga falar com as pessoas, através da pintura, das cores, dos desenhos, dos sinais, há uma comunicação que é feita com um sotaque que me faz sentir muita esperança nesta capacidade humana de nos misturarmos, de comunicarmos”, sublinhou Francisco Vidal.A exposição em Macau trouxe “uma situação muito interessante” que foi a oportunidade de recordar as estruturas de bambu que Francisco Vidal já tinha visto em Luanda. “Parece uma biblioteca porque as cores e os desenhos passam através desta estrutura. Tem uma transparência de água para suportar as pinturas, o que é muito giro”. Isto relembra o pintor também da compilação de poemas “Clepsidra” da autoria de Camilo Pessanha.

 

“Todas estas ideias são ideias da Língua Portuguesa, como dizia Fernando Pessoa, a minha Pátria é a minha língua, mesmo que ela não seja oral, nem escrita, mas uma língua de emoção. São marcas das emoções daquele momento”, apontou.

Embora só depois da faculdade se tenha dedicado à arte mais a sério, Francisco Vidal diz pintar desde que respira. “A minha forma de respirar é pintar”. “Aconteceu uma tentativa de educação, de organização de códigos, de valores que são importantes para a pintura para que ela tenha o seu espaço. Qualquer pintor vai passar por esse processo”, explicou. “É tão necessário como respirar. Tem de acontecer”.

 

Partilhar a pintura

Num futuro próximo, o artista quer regressar a Timor-Leste. “Há um projecto que tenho de uma escola de papel. É uma escola que faz papel, desenho e pintura. [Os alunos] fazem papel primeiro, que é a base, depois o desenho, pintura, escultura, arquitectura. É uma escola pensada para Luanda mas já me tenho apercebido que pode ser usada noutros sítios como Timor ou Goa”, frisou.

Este é um projecto que o deixa “muito emocionado” e que há um ano chegou a São Tomé e Príncipe. “Tinha um balde e uma varinha mágica, fiz uma espécie de sopa de papel, depois, com uma rede mosquiteira, conseguimos fazer papel mesmo. Levo essas ferramentas simples e fáceis de transportar. Os miúdos adoraram. O mais novo tinha três anos e o mais velho tinha 18. Correu tudo muito bem e pensei que estava a fazer uma coisa muito importante mas depois eles foram com o mesmo entusiasmo jogar futebol, ao pião, fazer outras coisas”, explicou. As cores patentes em alguns dos seus trabalhos foram dadas por essas crianças e jovens.

Os trabalhos que Francisco Vidal vai expor no âmbito da mostra “Alter Ego” são “muito auto-biográficos no sentido em que é um desenho livre” em que está a pensar em algo como “uma emoção” ou “alguém de quem gosta”. “Há aqui uma carta de amor, e essa carta de amor que recebi das crianças que é quase como a entrega na dança, quando uma pessoa dança com o parceiro. É riqueza desse espaço que pode ser abstracto, utópico ou o que seja”. Trata-se de uma “riqueza imaterial”, frisou. “Há retratos de pessoas de quem gosto, há auto-retratos, espelhos para ver como está o meu interior”.

Estar na RAEM “é incrível”, assegura. “Estão aqui artistas angolanos e portugueses que conheço. Há pouco passei pelo Consulado-geral de Portugal e pelo retrato que Vhils fez de Camilo Pessanha e lembrei-me de ter lido o livro ‘Clepsidra’, lembrei-me de tudo o que senti há 10 anos quando li. Também ele era um registo de emoções, de paixão, a uma grande distância de Lisboa, de Portugal”.

Assim, “quando vi o retrato de Camilo Pessanha feito pelo Alexandre [Farto], senti que podia tratar pelos primeiros nomes todas estas pessoas que fazem parte do nosso território de língua”, referiu Francisco Vidal. “É uma experiência humana e muito gratificante estar aqui com estes artistas todos, conhecer aqueles que ainda não conhecia”.

O pintor expõe a partir de segunda-feira e até 9 de Setembro.