António Guterres, o Alto Comissário para os Refugiados da ONU e ex-primeiro-ministro português tem sobressaído em todas as sessões para ser indicado à Assembleia Geral das Nações Unidas como o substituto de Ban Kim-moon. Essa Assembleia tem 193 membros, em plano de igualdade. Mas cinco deles são mais iguais do que os outros. EUA, Reino Unido, Rússia, China e França são os membros permanentes do Conselho de Segurança, e são eles quem vão ditar esta escolha…
Com a aproximação da votação final para a escolha do próximo secretário-geral, a questão põe-se de forma cada vez mais incisiva: para ser eleito, António Guterres precisa de ver o seu nome indicado pelo Conselho de Segurança, no qual nada se passa sem a luz verde dos cinco membros permanentes. Com quem pode ali contar o antigo primeiro-ministro?
Em princípio, deverá contar com o Reino Unido, ligado a Portugal pela mais velha aliança do mundo, em vigor há 600 anos. Recorda o DN que no século XX, essa aliança foi invocada pela Inglaterra nas duas guerras mundiais e em ambas as ocasiões obteve a ajuda pedida. A última vez foi durante a guerra das Falklands/Malvinas, em 1982, quando o embaixador britânico em Lisboa citou explicitamente o Tratado de Windsor, de 1386, para solicitar a utilização da base dos Açores.
Mas a Velha Aliada pode transformar-se de um momento para o outro na “pérfida Albion”, capaz de gestos odiosos como o Ultimato de 1890. Afinal, os historiadores lembram o primeiro ministro Benjamin Disraeli, no tempo da rainha Vitória que esclareceu: “O governo de Sua Majestade não tem amigos permanentes nem inimigos permanentes. Só tem interesses permanentes.”
Outro potencial apoio de Guterres, segundo os observadores, é a China, país com o qual Portugal mantém boas relações desde o século XVI, e com o qual fez conversações sempre “muito úteis e amistosas” sobre o futuro de Macau. A criação da RAEM, em 20 de Dezembro de 1999, sob o princípio “um País, dois Sistemas” é considerado como um dos grandes acontecimentos políticos do fim do século, resolvendo sem qualquer perturbação o que os chineses chamam de “um problema herdado da história”
Para este bom ambiente, João Ferreira no DN recorda que em 1971, Portugal votou a favor da Resolução 2758 da Assembleia Geral – apresentada pela Albânia – que abriu caminho à entrada da China Popular de Mao Tsé-Tung para a ONU (incluindo o assento permanente, com o direito de veto, no Conselho de Segurança), em substituição da República da China (Taiwan), do nacionalista Chiang Kai- chek. Um caso pouco habitual do regime anterior de direita apoiar um regime comunista.
Nas negociações para a entrega de Macau à soberania chinesa (que se seguiram às de Hong Kong), os dirigentes de Pequim terão boas recordações de António Guterres apesar da Declaração Conjunta ter sido negociada e assinada por Cavaco Silva. Em 1995, Guterres foi em empossado e enquanto primeiro-ministro ajudou a resolver algumas questões pendentes de forma aceitável pelos chineses.
Mais recentemente, Lisboa tem sido uma “porta de entrada” na Europa, com grandes investimento já feitos e em preparação em Portugal.
A Rússia também é considerada como um dos pesos-pesados que vêem com bons olhos a candidatura de Guterres, mais por interesse próprio do que pelo bom relacionamento histórico. Os candidatos de Leste são vistos com desconfiança por Moscovo que, apesar do fim da URSS, não esquece a pressa com que esses países saíram do bloco, e a diferente ideologia dos seus líderes.
Ao longo da história, pode dizer-se, as relações de Portugal com o país dos czares foi quase sempre amistosa. No século XVIII, Ribeiro Sanches, um dos mais famosos “estrangeirados” da cultura portuguesa, foi médico da imperatriz Catarina, a Grande.
Passado o interregno do Estado Novo – que recusou a admissão da URSS na Sociedade das Nações e viu em troca vetada por aquela a adesão de Portugal à ONU, em 1946 –, o relacionamento entre os dois países voltou a uma “normal anormal” pois durante o denominado Verão Quente houve frequentes queixas de tentativas de interferência do então bloco soviético, na situação política portuguesa.
Apesar de Lisboa alinhar com as sanções da UE à Rússia por causa da situação na Crimeia, as relações entre os dois países mantêm-se boas, tendo sido muito apreciada a recente ajuda russa, com o envio de aviões para combater os incêndios que neste mês assolaram Portugal.
Quem tem mantido reserva sobre a sua preferência é a França. Segundo a imprensa parisiense, parece que a diplomacia gaulesa faz questão de que o próximo secretário-geral da ONU fale francês, o que é o caso de Guterres – mas também de outros candidatos.
Para além da questão linguística, a França é terra de acolhimento de milhões de portugueses e sua descendência não havendo qualquer caso conhecido de problema de integração, como sucede com outros povos.
Recorde-se que durante o século 19 e 20, a França foi “o mentor” dos grandes escritores e artistas portugueses, de Eça de Queiroz a Amadeo Souza Cardoso ou Maria Helena Vieira da Silva, e “local de refúgio” dos muitos opositores políticos e económicos do regime português anterior, que fugiam “a salto” pela fronteira espanhola, com uma “Mala de cartão” como cantava Linda de Suza.
Lembra o DN que ainda na década de 1980, o francês ocupava o lugar que desde então passou a pertencer ao inglês nas escolas e universidades portuguesas. O mesmo se passava na política e na diplomacia. De Gaulle, o escritor André Malraux, ministro da Cultura, e o ministro dos Negócios Estrangeiros Couve de Murville tiveram uma palavra a dizer na criação da Fundação Gulbenkian.
A administração de François Hollande escolher um outro candidato iria obrigá-lo a muitas explicações no seu país.
E depois surge a grande interrogação: como vai votar a administração americana?
À luz da história, as relações entre Portugal e os EUA têm sido sempre boas, com excepção da posição anti-colonial do Presidente John Kennedy que muito irritou Salazar e que motivou grandes manifestações contra os americanos em Portugal, naturalmente organizadas pelo regime, como era hábito da altura. No Verão Quente do pós- 25 de Abril, o embaixador Frank Carlucci lutou contra o então secretário de Estado, Henry Kissinger, que dava Portugal como perdido para o bloco ocidental , e defendia a teoria da vacina – isto é que Portugal serviria de “vacina” para outros países em transição, como a Espanha, a Grécia, ou mesmo a Itália.
A dúvida sobre a posição da Administração de Barack Obama vem do facto de haver um lóbi, entre as senadoras para o pressionar a usar toda a influência dos EUA para garantir que o próximo secretário-geral da ONU seja uma mulher. Primeiro falava-se da búlgara da UNESCO; nas últimas semanas, o palco tem sido ocupado pela candidata argentina que até já trabalhou com o secretário-geral cessante, e por isso, não se coibiu de lhe dar, publicamente, uma mãozinha.
Resta saber se a declaração de Ban Ki-moon, que suscitou uma pronta reação do chefe da diplomacia portuguesa, é já resultado da tal pressão que as senadoras americanas querem ver exercida a favor de uma solução ditada pelo sexo (ou género), ao arrepio do mérito.
Um último
esforço diplomático
Ontem, o embaixador António Martins da Cruz, antigo ministro dos Negócios Estrangeiros de um Governo da Cavaco Silva disse ao DN que “acabaram as votações exemplificativas. Agora é altura para uma última pressão, para ver bem o que esses países [membros do Conselho de Segurança] querem da máquina das Nações Unidas e reforçar ou propor troca de votos”.
O jornal publicava ontem um artigo assinado por Manuel Carlos Freire que acentuava ter havido “apoiantes da neozelandesa Helen Clark (em sétimo lugar) a difundir nas redes sociais – após o resultado da terceira votação secreta realizada segunda-feira – um artigo crítico sobre os mandatos de Guterres como alto comissário para os Refugiados (2005-2015).”
Nada que surpreendesse o embaixador António Monteiro que, admite, também poder explicar o terceiro voto negativo dado agora ao português : “Quem é apoiante de um candidato procura eliminar o mais perigoso. É natural algum extremar de posições.”- disse ao jornal
Cita o DN: António Monteiro, contudo, não acredita que venham a existir “campanhas sujas” contra o candidato português (ou outros, como a búlgara Irina Bukova, que há dias disse haver uma “campanha indigna” contra si). Para este também ex-chefe da diplomacia portuguesa, “a reputação de António Guterres está consolidada e não é com fantasmas e alegações não fundamentadas que a poderão manchar”.
Um diplomata desvaloriza, sob anonimato por não estar autorizado a falar, o referido artigo (de Junho, na Fox News, sobre “centenas de milhões de dólares [entregues] sem verificação” a governos e organizações privadas): “São milhões porque há milhões de refugiados e foi António Guterres que mandou implementar um regime mais apertado de controlo, fiscalização e auditoria” das verbas geridas pela agência da ONU que liderou durante dez anos.
“Tenho falado com muita gente e a opinião sobre [Guterres] é excelente e sem mácula, até pela lisura com que sempre procurou criar condições para os refugiados terem o apoio que necessitavam”, enfatiza ainda António Monteiro, um antigo embaixador junto da ONU.
Com a Nova Zelândia – cuja candidata oficial é Helen Clark – a assumir ontem a presidência do Conselho de Segurança mas a delegar já na Rússia (que lhe sucederá no mês de outubro) a responsabilidade pelo processo eleitoral, Martins da Cruz dá outra explicação para haver um esforço diplomático final de Lisboa: “Quer António Guterres ganhe quer perca, a sua vitória ou derrota não são pessoais. Dado o empenho do governo e a posição de respaldo dada pelo Presidente da República e pelos partidos da oposição, a candidatura é nacional e a sua derrota ou vitória seria também do país.”
Quando parecem enfraquecidos os critérios apontados como decisivos na escolha do SG e que excluíam Guterres (único a receber mais de nove votos nas três votações) – ser mulher e da Europa de Leste –, Martins da Cruz alerta que a terceira semana de Setembro “é essencial para a diplomacia portuguesa”: muitos chefes de Estado e duas centenas de ministros dos Negócios Estrangeiros estarão na abertura da nova sessão da Assembleia Geral da ONU.
JTM com DN e agências internacionais



