A presença de designers de Macau fez-se sentir no evento internacional de moda que teve lugar em Hong Kong, tendo constituído cerca de 5% dos participantes do “Centerstage 2018”. Sob o apoio do Centro de Produtividade e Transferência de Tecnologia de Macau, os profissionais deste sector criativo tiveram a oportunidade de ver as suas colecções serem exibidas e mostradas num desfile, ganhando visibilidade junto de compradores da China Continental e do estrangeiro

 

Salomé Fernandes*

Em Hong Kong

 

Instantes antes do início do desfile, assistia-se nos bastidores a retoques na maquilhagem, modelos de costas descobertas enquanto acabavam de vestir a roupa, trocas de acessórios para verificar o que era mais confortável a cada um. A metros de distância, as pessoas começavam a reunir-se para assistir ao espectáculo e a luminosidade começava a descer. No ecrã, marcava-se a origem dos trabalhos em apresentação: Macau.

Foram 12 os designers do território que tiveram os seus trabalhos em exposição no evento internacional de moda “Centerstage 2018”, que decorreu em Hong Kong, apoiados pelo Centro de Produtividade e Transferência de Tecnologia de Macau (CPTTM) e pelo Instituto Cultural. A presença foi significativa. “Uma coisa muito importante é que nesta exposição quase 5% dos participantes são de Macau”, disse o director geral do CPTTM, Shuen Ka Hung, que considera serem resultados de sucesso. Não é o centro que escolhe a quem é dada a oportunidade. Os designers tiveram de submeter candidatura, sendo posteriormente escolhidos por um comité do “Centerstage”.

A vice-directora geral, Victoria Kuan, explicou que o evento começou a ser preparado depois do Ano Novo Chinês. “Em Fevereiro já começámos a trabalhar com a organização do evento para arranjar informação e depois promovemos a importância deste evento junto dos designers locais. Convidámos as pessoas para fazer seminários promocionais em Macau”, disse. No ano passado, duas marcas foram seleccionadas como pertencendo às 20 preferidas dos compradores, um factor de incentivo aos participantes desta edição.

Victoria Kuan indicou ainda que ao integrarem o evento os designers conseguem boas fotografias das suas colecções, importantes para a divulgação do seu trabalho. “E o Centerstage é dos eventos mais influentes na Ásia, ou nesta parte do mundo, por isso acho que esta meia hora é muito importante”, referiu. “Sabemos que é um lugar para conexões e troca de informação”, acrescentou.

Os desafios enfrentados pelos designers em Macau são os mesmos que o resto do mundo encara, notou, nomeadamente a falta de mão-de-obra e o preço das rendas. Mas a vice-directora geral referiu que o CPTTM se foca em fazer o trabalho administrativo, como ajudar na inscrição a este tipo de eventos, para além da componente logística para que os designers se possam dedicar à sua actividade e ao marketing do negócio.

Publicitar a marca é, de resto, um dos problemas que os designers apontam. “Os designers sabem sempre criar coisas mas não as sabem vender”, reconheceu Vincent Chang, criador da marca “Worker Playground”. O designer frisou a importância de os profissionais encontrarem uma plataforma e pessoas com quem possam trabalhar para desenvolver a marca. Mas não se sente limitado pela geografia. “Muitas pessoas dizem que Macau é um mercado pequeno. Mas o mundo é tão grande, não é preciso focarmo-nos só em Macau. Há tantas plataformas para promovermos o nosso trabalho”, sublinhou.

No seu caso, associou-se a outra marca, de relógios, para promover a sua, e vendem os dois produtos online. A sua presença no “Centerstage” prende-se precisamente com o estabelecimento de conexões que possam mais tarde gerar negócio. “Por vezes é mais importante do que ter uma venda directa”, indicou.

Também Kitty Ng, da “La mode désir”, referiu que se sente confortável com a produção, mas considera a publicidade à marca mais difícil. Ainda assim, tem uma experiência diferente. Designer há 30 anos, é costureira há cerca de 40. Começou por desenhar vestidos de noite, desenvolvendo a sua técnica de costura, que considera ser mais exigente, tendo depois optado por realçar essa componente através de uma linha de costura clássica e de vestidos de cerimónia, não estando interessada em seguir por uma vertente de roupa mais casual.

A sua diferença de idade em relação aos restantes participantes é visível também nos trabalhos. Kitty Ng admite que as ideias dos novos designers são mais diversificadas e dinâmicas em comparação com os dela, mas que por seu lado domina uma técnica de alta costura. Eventos como o “Centerstage” deram-lhe a oportunidade de contactar com compradores e ter mais clientes. Desta vez, manteve contacto com interessados da China, Dubai e Turquia.

 

Expansão para o exterior

Isabella Choi, com a marca “Nega C.”, referiu que o desfile correu melhor do que esperava, tendo conhecido vários potenciais compradores que cumprem os requisitos de mercado da sua marca. “Não procuramos uma empresa grande, antes boutiques mais pequenas que queiram vender algo mais especial. A nossa gama de preços a retalho é entre 600 a 1000, por isso não é imensamente caro”, disse. Neste momento, é incerta a direcção que a marca vai seguir, sendo o evento importante para estudar os mercados em que apostar.

“Tenho uma boutique em Macau há já quatro ou cinco anos, e Macau tornou-se uma zona de conforto para mim. Crescemos até um ponto em que temos clientes maduros, VIP, que nos seguem a cada estação, e queremos sair desta zona de conforto este ano e ver se há mais mercado para nós fora de Macau. Não diria que Macau é um mercado muito pequeno, mas quero sair da minha zona de conforto e tentar algo novo”, sublinhou.

Apesar do grupo de clientes de que dispõe, enfrenta dois problemas: o pagamento da renda e limites em termos de produção. “Macau é pequeno e cruzamo-nos com as mesmas pessoas regularmente por isso não podemos produzir uma grande quantidade do mesmo design. As pessoas não querem vestir o mesmo que os amigos. O que é um desafio para nós”, comentou Isabella Choi.

Chris Chan, um dos fundadores da “I.N.K.”, ficou surpreendido com o interesse que compradores da Índia e do Dubai mostraram pela sua marca, um estilo unissexo de moda de rua dirigido a jovens. A indicação foi de que o estilo e preços da “I.N.K.” são adequados às regiões. Com a marca já presente na China e em Taiwan, Chris Chan pondera expandir. E não é o único. Victor Lao está a pensar em levar a “Clássico Moderno” até à China Continental. Considera que antigamente havia uma diferença muito grande entre a moda masculina e feminina, mas que actualmente a moda direccionada a homens está mais desenvolvida e a gerar mais oportunidades. Algo que atribui ao facto de os homens terem maior disponibilidade para gastarem dinheiro para se vestirem para ocasiões especiais.

 

Usar conexões externas para desenvolver a marca

No caso de Chantelle Cheang, que também integra a indústria cinematográfica, “Chavin” ganha com esta actividade paralela. Participar num filme requer bastante tempo de preparação, por isso retira daí a vantagem de promover a marca, ao vestir a sua linha de roupa em frente às câmaras. Foi o equilíbrio que encontrou entre estas duas áreas. Sem mercado específico em vista, querendo que a marca se desenvolva tanto na China como no estrangeiro, é do exterior que está a captar mais atenção. Isto, apesar de usar como inspiração as máscaras de ópera chinesa, e técnicas de bordado desenvolvidas do lado de lá das Portas do Cerco.

Por outro lado, “Anifa” recorre a ligações com o Japão para ganhar um factor distintivo. “O motivo pelo qual estamos a combinar tecnologia com moda é porque temos os recursos, agora estamos a trabalhar de forma próxima com o Japão. Se repararem nos nossos produtos os tecidos não se encontram facilmente na China”, comentou Alvin Fong. O designer frisou que perante a existência de tantas marcas e estilos diferentes no mercado, e como “tudo é um desafio” em Macau, actualmente é preciso reflectir antecipadamente sobre que elementos permitem trazer vantagens e unicidade para este cenário.

No caso da “Anifa”, a ligação do seu parceiro de negócios ao Japão permitiu que investissem nos materiais – e à tecnologia que leva ao seu fabrico. “Vamos trabalhar com laboratórios e cientistas para percebermos o que podemos fazer a nível dos tecidos para criar algo que as pessoas possam usar por motivos práticos, para estilo urbano de cidade, tais como produtos à prova de água para andarem de mota, mas que também que tenha estilo, não tradicional”, frisou.

Isto, para chegar a empresários de topo e directores executivos de empresas. “São estas as pessoas em quem nos estamos a focar. Não queremos competir na área da moda no geral porque consideramos que não temos recursos suficientes para isso, portanto decidimos focar-nos num nicho de mercado”, comentou Alvin Fong. Neste momento a sua presença é online, tendo vendido através da Amazon para a Europa, e apostado na criação de uma loja online e na venda através de WeChat, mas quer uma loja física. Prepara-se para abrir a primeira, que será em Macau ou Hong Kong, está focado em tornar a China no seu foco, apesar de reconhecer que por já ter aberto o mercado há cerca de 30 anos, este amadureceu tornando-se mais difícil encontrar um meio de entrada. “Mas se trabalhar há sempre oportunidades”, disse em nota positiva.

 

*Jornalista viajou a convite do CPTTM