O relatório sobre a situação das mulheres de Macau, desenvolvido pelo IAS de cinco em cinco anos, concluiu que as inquiridas em 2022 demonstraram uma “redução contínua dos conceitos tradicionais entre elas” e um “reforço da autoconsciência”, sentindo-se “mais ansiosas por desempenhar papéis mais importantes na sociedade”. Contudo, o estudo também apurou que a “distribuição irrazoável das tarefas familiares e sociais” continuou a ocupar o tempo disponível das mulheres e a comprimir o seu espaço de desenvolvimento, até porque 73,6% mantiveram-se como principais cuidadoras de família, quase todas de forma voluntária. Em contraste, as portuguesas entrevistadas “procuram mais ter um papel muito independente na família, no género sexual e na profissão, sendo mais confiantes nas suas próprias capacidades e mais ansiosas por um espaço de desenvolvimento com liberdade”
Cinco anos depois, o Instituto de Acção Social (IAS) voltou a publicar o relatório sobre o estado actual das mulheres de Macau, documento relativo a 2022 que foi elaborado com base nas opiniões recolhidas junto de 1.003 mulheres de Macau com idades compreendidas entre os 15 e 74 anos. Além disso, também foram entrevistadas 33 portuguesas, com idades entre 15 e 74 anos, para obter um conhecimento preliminar sobre a situação de vida das mulheres dessa origem.
De acordo com o relatório, apenas 11,1% e 24,4% das mulheres de Macau concordam com os preconceitos de que “as mulheres devem sacrificar a sua carreira profissional ou estudos por amor e família” e que “as mulheres têm de se casar e ter filhos”. Em comparação com resultados apurados no inquérito desenvolvido em 2017, as taxas de concordância sobre esses conceitos registaram quebras de 12,8 e de 2,2 pontos percentuais, respectivamente. Para o IAS, isto “significa uma redução contínua dos conceitos tradicionais entre a população feminina sobre o papel das mulheres e o reforço da autoconsciência face à família”.
No entanto, somente 14,2% das inquiridas consideram que “a criança deve ser cuidada pelo pai”, o que “mostra que as mulheres de Macau não se livram do papel de cuidador por precisarem de trabalhar e de sustentar a família”.
Em termos do papel na sociedade, o estudo revela que apenas 5,2% das inquiridas acreditam que “as mulheres não devem ser líderes”, enquanto 33,3% consideram que “os homens possuem uma capacidade de análise mais forte nos assuntos políticos e sociais”. Face a 2017, registaram-se diminuições de 1,2 e de 5,2 pontos percentuais nestes dois aspectos, respectivamente, o que “revela que as mulheres locais estão mais ansiosas por desempenhar papéis mais importantes na sociedade e perderam ainda mais os preconceitos sobre a distribuição de tarefas entre homens e mulheres”.
Todavia, nesta vertente, a percentagem das portuguesas que encaram os homens como “mais competentes nos assuntos políticos e sociais” representou apenas 6,1%.
Já no âmbito do emprego, 21,7% das inquiridas acreditam que “os homens possuem normalmente maior capacidade para trabalhar do que as mulheres”, menos seis pontos percentuais do que em 2017, e 71,4% acham que não existe disparidade de género no ambiente de trabalho. “A conclusão é que, à medida que tem aumentado o nível académico das mulheres, elas passaram a demonstrar uma capacidade de trabalhar tão forte como homens”, observam os responsáveis pelo estudo.
No entanto, 47,3% das entrevistadas admitiram que os homens possuem “talentos superiores aos das mulheres na ciência e engenharia”, superando a percentagem das que partilharam uma opinião contrária (42,2%). Ainda assim, subiu a proporção das mulheres não convencidas por essa lógica. É de notar que nenhuma das portuguesas concordou com essa ideia.
No intervalo de meia década, também aumentou, para 92,2%, a percentagem das que contrariam a ideia de “ser desnecessário as mulheres possuírem um grau académico muito elevado”. Na perspectiva do IAS, essa evolução “reflecte que as mulheres de Macau reconhecem cada vez mais a igualdade de género em termos da escolha de curso académico e da capacidade académica”.
Por outro lado, 32,5% das entrevistadas ainda acham que “é natural as mulheres serem protegidas pelos homens” e 39,6% entendem que “os homens devem ser o pilar económico da família”. Apenas 12,8% consideram que “as mulheres solteiras são mais infelizes do que os homens solteiros” e 11,9% que “os homens devem pagar a conta da refeição no restaurante”. De qualquer modo, as percentagens das “apoiantes” desses “tabus” registaram decréscimos de 2,4 e 11,5 pontos percentuais, respectivamente, no espaço de cinco anos.
Além disso, 76,6% das inquiridas aceitam a ideia de “as mulheres terem a mesma responsabilidade dos homens em ganhar dinheiro para a família”.
Noutro âmbito, as conclusões do estudo indicam que a maioria das mulheres locais (73,3%) concorda com a ideia de “ser aceitável a conduta de os namorados viverem juntos”, verificando-se, neste ponto, uma subida ligeira de 0,4 pontos percentuais. Contudo, sobre a opinião de que “não é uma vergonha ser mãe solteira”, a taxa de concordância baixou 3,7 pontos percentuais para 56,6%. A percentagem das mulheres que acham “aceitável ter relações sexuais extraconjugais”, recuou 2,4 pontos para 17%.
Em relação às portuguesas inquiridas, são muito mais as que aceitam namorados a viver juntos (87,9%) e mães solteiras (87,9%), mas apenas 15,2% consentem a possibilidade de “relações sexuais fora do casamento”.
De um modo geral, o IAS concluiu que, em comparação com as chinesas de Macau, “as portuguesas procuram mais ter um papel muito independente na família, no género sexual e na profissão, sendo mais confiantes nas suas próprias capacidades e mais ansiosas por um espaço de desenvolvimento com liberdade”.
Falta de “cargos elevados” trava subida na carreira
O estudo observa também que, entre 2017 e 2021, a população empregada feminina (51,6% em 2021) foi sempre superior à masculina. Porém, a percentagem das mulheres que trabalham a tempo inteiro caiu para 49,3% (menos seis pontos percentuais), sendo a taxa mais baixa desde que há registos. A aposentação (28,9%), o cuidado de familiares (23,2%) e o desemprego involuntário (17%) figuram como principais motivos para a situação de não trabalhar a tempo inteiro. Em contraste, 90,9% das portuguesas trabalham a tempo inteiro.
Nesta vertente, 24,2% das inquiridas com trabalho a tempo inteiro ou parcial indicaram que precisam de trabalhar por turnos, o que traduz um decréscimo de 2,8 pontos percentuais.
Quanto à remuneração, em 2021, a mediana do rendimento mensal das mulheres de Macau foi estimada em 15.000 patacas, menos 2.000 do que a dos homens. Todavia, nas áreas especializadas, o salário médio das mulheres (45.000 patacas) foi “mais vantajoso” do que o dos homens (42.800 patacas) no mesmo ano. Além disso, em 2021, a disparidade salarial mais evidente surgiu nas áreas da medicina e saúde e dos benefícios sociais, com os homens a auferirem mais 8.700 patacas do que as mulheres em média.
Por outro lado, no intervalo de cinco anos, apenas 20,6% das mulheres beneficiaram de subidas nas suas carreiras, menos 10,9 pontos percentuais do que em 2017, sendo esta a percentagem mais baixa nos últimos quatro inquéritos. O estudo revela que a “inexistência de cargos mais elevados na empresa” impediu 39,9% das mulheres de progredirem na carreira. Entre as portuguesas sem subida na carreira desde 2017 (30% do total), 16,7% atribuíram a situação à falta de cargos mais altos e 16,7% apontaram para o impacto da pandemia.
Ao mesmo tempo, 46,9% das mulheres não viram o seu salário a subir em cinco anos (mais 19,8 pontos percentuais), e 9,2% sofreram inclusive descidas nas remunerações (mais sete pontos percentuais), com a percentagem média dos cortes a atingir 27,4%. Entre as portuguesas, 36,7% mantiveram a mesma remuneração e 6,7% sofreram cortes desde 2017.
O relatório conclui que, em geral, “a pandemia trouxe mais pressão e desafios à estabilidade de emprego e ao desenvolvimento profissional das mulheres de Macau”.
De outro ângulo, de uma escala de zero a 10, as portuguesas atribuíram 3,1 pontos para descrever o grau do sexismo no ambiente de trabalho, quase o dobro da pontuação dada pelas mulheres de origem chinesa.
Ao nível da vida familiar, sob a tendência de “casamento e gravidez tardios”, principalmente resultantes do “prolongamento do tempo de ser educada na escola”, da “elevação da posição social”, do “reforço da autoconsciência” e das “restrições financeiras”, muitas mulheres ainda se mantiveram como principais cuidadoras da família (73,6%). Entre estas, 98,3% reconheceram assumir essa tarefa voluntariamente, percentagem equivalente à registada em 2017, enquanto 38,1% das portuguesas desempenham esse papel no agregado familiar.
Em concreto, 32,3% das mulheres tomam conta de crianças na família (igual a 2017), e 14,8% cuidam de idosos (mais quatro pontos percentuais). No caso das portuguesas, 27,3% têm idosos ao seu cuidado e 21,2% crianças.
Os resultados indicam também que 28,2% das mulheres têm de trabalhar, sustentar as despesas de família e fazer trabalhos domésticos ao mesmo tempo. Acresce ainda que 71% não se livram dos trabalhos domésticos, gastando uma média de 2,4 horas por dia nessa tarefa.
Apesar disso, 93,8% das inquiridas afirmaram sentir-se satisfeitas com a actual vida familiar, atribuindo oito pontos, de uma escala de zero a 10. Porém, as portuguesas avaliaram a sua satisfação com a vida familiar com apenas cinco pontos.
No relatório, o IAS aponta que, até 2022, a família manteve-se como opção prioritária de muitas mulheres locais que assim resolveram desistir de empregos mais desafiadores ou criativos, devido à expectativa da sociedade para a população feminina e também ao auto-posicionamento das próprias mulheres. “Segundo os resultados do estudo, ainda persistem os pensamentos de ‘homens mais importantes do que mulheres’ e de ‘homens superiores às mulheres’. As mulheres podem enfrentar uma distribuição irrazoável das tarefas familiares e sociais que possam ocupar o seu tempo disponível e comprimir o seu espaço de desenvolvimento”, descreve.
“Por um lado, continua a ser possível as mulheres não poderem participar ou sobressair na concorrência por terem sido restringidas por factores familiares. Por outro lado, é mais fácil a independência financeira das mulheres ser sacrificada pela necessidade de cuidar da família”, alerta.
Mais de 80% nunca opinaram sobre assuntos sociais
Sob as referidas circunstâncias, no ano passado, 56,2% das mulheres disseram nunca ter participado em actividades organizadas por associações ou instituições, como visitas, convívios, workshops e actividades voluntárias. E entre as que tiveram tais experiências somente 7,4% participaram frequentemente. Embora mais portuguesas (60,7%) tenham participado em actividades associativas, apenas 15,2% delas descreveram a frequência como tendo sido elevada. Em geral, o nível de participação das mulheres em actividades sociais diminuiu em comparação com 2017.
Na mesma linha, a percentagem das mulheres participantes em actividades ou cursos de formação ou de auto-aperfeiçoamento recuou 18,2 pontos percentuais para 41,5%. Por sua vez, 48,5% das portuguesas tinham recebido formação antes da realização do inquérito.
Outro dado preocupante reside no facto de 82,9% das inquiridas nunca ter apresentado opiniões em quaisquer canais sobre os assuntos sociais ou relacionados com o bem-estar da população. Entre as fontes de expressão de opiniões, os questionários, grupos de discussão pública no Facebook e associações representaram 22,9%, 15,4% e 13,5%, respectivamente. Em contraste, 57,6% das portuguesas tinham opinado através de conversas entre amigos e familiares (65%), grupos no WeChat (20%) e em cafés ou jardins (15%).
Para o IAS, os resultados espelham que, em geral, a população feminina considera que os assuntos sociais e públicos estão “longe” delas. Esse fenómeno, aponta o organismo, “pode estar relacionado com o facto de as mulheres acreditarem que têm uma influência insuficiente na participação nos assuntos políticos e públicos, pelo que prestam menos atenção e participam pouco neste tipo de assuntos, não querendo desempenhar mais papéis sociais e políticos”.
RAEM sobressai no mundo na igualdade de género
Segundo o estudo, no âmbito global, o índice de disparidade de género de Macau foi de 0,772 pontos em 2021 (de zero a um, quanto mais próximo de um, maior será o grau de igualdade de género). Apesar de uma subida de 0,004 pontos face a 2016, a posição da RAEM desceu 10 lugares para o 61º entre 156 países e regiões, dos quais, o Interior da China ficou no 107º lugar e Portugal no 22º.
Em específico, os índices de disparidade de género em “oportunidades de participação económica” e em “oportunidades de educação” registaram subidas para 0,819 e 0,997 pontos, respectivamente. Já os índices de disparidade de género em “saúde” e em “direitos políticos” baixaram para 0,995 e 0,118, devido às modificações na taxa de natalidade e à redução da percentagem das deputadas na Assembleia Legislativa.
Ainda assim, o relatório nota que o índice de disparidade de género em “direitos políticos” aumentará para 0,147 pontos, após a inclusão de dados sobre os membros femininos de Macau na Assembleia Nacional Popular (ANP), na Conferência Consultiva Política do Povo Chinês (CCPPC) e na Comissão de Assuntos Eleitorais do Chefe do Executivo (CAECE).
Quanto ao índice de desigualdade de género (de zero a um, quanto mais próximo de zero, mais pequena será a perda do potencial de desenvolvimento devido à desigualdade de género), o relatório indica que Macau obteve 0,060 pontos em 2021, situando-se no 15º lugar do mundo, enquanto o Interior da China e Portugal registaram 0,192 e 0,067 pontos, respectivamente. Após a inclusão de dados sobre as mulheres locais com cargos na ANP, na CCPPC e na CAECE, a posição de Macau subirá para o 7º lugar mundial, com 0,040 pontos.
Por outro lado, 39,9% das mulheres de Macau sentem-se satisfeitas com a situação da igualdade de género no território, 48,6% acham a situação “normal” e 6,5% classificam o panorama como negativo. Face a 2017, a percentagem das inquiridas satisfeitas com a igualdade de género baixou três pontos percentuais, enquanto 30% das portuguesas teceram comentários positivos sobre esta matéria.



