Um estudo conduzido pelo Instituto de Acção Social e consultado pelo Jornal TRIBUNA DE MACAU revela que de um universo de 141 pessoas que se declararam toxicodependentes através de um levantamento domiciliar, 119 nunca pediram ajuda ou receberam tratamento. Por outro lado, das entrevistas conduzidas a 349 toxicodependentes, descobriu-se que mais de 22% têm problemas de saúde medianos e graves. Já o facto de o círculo de amigos consumir substâncias ilegais de forma abusiva é uma “condição determinante” que influencia estes hábitos
Catarina Pereira
Das 141 pessoas que se declararam voluntariamente como toxicodependentes, 119 nunca pediram ajuda profissional nem receberam tratamento e serviço especializado de desintoxicação, o que perfaz uma taxa de 84,4% – esta é uma das conclusões do Estudo sobre a Tendência de Abuso de Drogas, Procura e Planeamento para o Desenvolvimento do Serviço de Desintoxicação em Macau, conduzido pelo Instituto de Acção Social (IAS). O estudo teve por base a realização de um questionário a 1.906 famílias de Macau, num total de 2.917 inquéritos válidos.
De acordo com o documento, analisado pelo Jornal TRIBUNA DE MACAU, há várias razões que motivam o fenómeno. Uma delas é o facto de, a nível pessoal, ao consumir droga estas pessoas não manifestarem qualquer “reacção forte de desconforto fisiológico, o que cria uma certa relutância face à submissão a serviços e tratamentos”. Já a nível social, impõem-se os estereótipos: “A sociedade apresenta-se pouco inclusiva e considera o abuso de drogas como uma prática criminosa, o que leva os toxicodependentes a não querer revelar essa sua faceta”.
No que respeita às próprias substâncias, os resultados do estudo apontam que os toxicodependentes optam cada vez mais por consumir metanfetamina (ice) e substâncias psicoactivas, pela sua natureza mais clandestina.
Outra das conclusões é a de que mais de metade dos casos de toxicodependência envolvem o abuso de medicamentos de prescrição médica. A par das já mencionadas, outras das substâncias ilegais mais consumidas pela população são cannabis, ecstasy, ketamina e solventes orgânicos.
A taxa de consumo de substâncias ilegais em Macau durante o ano passado situou-se num nível “relativamente elevado”, porém, “não atinge a metade da taxa de prevalência da toxicodependência verificada nos casos idênticos dos países ocidentais no mesmo período, o que espelha a eficácia dos trabalhos desenvolvidos em Macau referentes à prevenção de reincidências de toxicodependentes de alto risco após tratamento e reabilitação”, indica o estudo.
Mais 22% com problemas medianos e graves
Para a investigação foram ainda conduzidas entrevistas a 349 indivíduos toxicodependentes, com vista a avaliar o nível de eficácia dos serviços de desintoxicação. Os números revelam que 79 apresentavam problemas de saúde medianos e graves relacionados com o consumo abusivo, traduzindo-se em 22,64% do total; 148 inquiridos (42,42%) tinham problemas de saúde ligeiros e 122 (34,9%) não apresentavam qualquer problema.
“Em comparação com os casos do Interior da China submetidos à reabilitação nos estabelecimentos de isolamento obrigatório, a realidade de Macau, em termos de toxicodependentes com problemas de saúde relacionados com um consumo abusivo, é relativamente modesta”, pode ler-se.
Em Macau, os toxicodependentes têm uma média de 40 anos, sendo principalmente do sexo masculino. Do total, mais de 130 receberam, nos 12 meses anteriores, tratamento e serviço de desintoxicação e cerca de 70% concluíram-no “com sucesso”. De acordo com o documento, todos reconheceram “o nível de profissionalismo, adequabilidade e eficácia dos tratamentos e serviços recebidos”.
O caminho dos amigos
Os resultados da investigação por amostragem conduzida por entrevistado revelam que a curiosidade é o principal agente catalisador que leva as pessoas a experimentar drogas, sendo o segundo e terceiro motivos, respectivamente, ter amigos que consomem e procurar entretenimento.
“A amizade prevalece como a condição determinante que influencia os hábitos toxicodependentes, isto é, ter amigos que consomem abusivamente substâncias é considerado o motivo de risco essencial para uma pessoa começar a adoptar esse tipo de hábitos”, pode ler-se.
Também experiências de maus-tratos e desprezo durante a infância são factores de risco transversais a pessoas que abusam do consumo de drogas (casos isolados) e de toxicodependentes recorrentes. Ao mesmo tempo, a falta de conhecimento sobre os perigos do consumo de droga também “provoca ou agrava” o comportamento abusivo.
No documento final publicado no site do IAS é referido que o desenvolvimento de trabalhos e serviços de desintoxicação “tem pela frente muitos desafios”, como a capacidade especializada dos assistentes sociais no aconselhamento psicológico, a escassez de recursos, o baixo nível de tolerância da sociedade perante este tipo de comportamentos, a dificuldade de criar laços com toxicodependentes e a impossibilidade de intervenção face a casos passivos.
Apesar disso, “o actual sistema de Macau tem capacidade suficiente para responder às necessidades dos toxicodependentes”, “tendo mesmo alcançado resultados animadores a nível de redução de reincidências e danos derivados, o que reflecte a alta eficácia dos trabalhos de tratamento e reabilitação” promovidos entre o Governo e as instituições privadas de serviços de desintoxicação.
Sugestões
O estudo aponta uma série de propostas para melhorar os serviços prestados a estas pessoas. Desde logo, é dito que o Governo deve reforçar a acção de promoção e formação dos trabalhos de prevenção da toxicodependência, a fim de ajudar as pessoas a procurar ajuda. Por outro lado, “deve ser melhorada a questão da discriminação social de que os toxicodependentes são alvo”.
O Executivo e as instituições de serviço de desintoxicação devem também disponibilizar “um conjunto de tratamentos e opções de serviço dotado de uma estrutura mais sólida que possa beneficiar a reinserção social dos toxicodependentes, no âmbito de formação profissional, apoio no acesso ao mercado de trabalho, restabelecimento de relações sociais e serviço de assistência familiar”.
Defendidas quotas de emprego para toxicodependentes que tenham estado presos
O presidente da Associação de Reabilitação de Toxicodependentes de Macau (ARTM), Augusto Nogueira, considera que em Macau já há muitas coisas a serem feitas no âmbito da reinserção social de toxicodependentes, no entanto, entende que muito mais pode ser feito. Em concreto, defende a criação de quotas de emprego nas grandes empresas de Macau para toxicodependentes que tenham estado presos. “As pessoas que têm problemas de toxicodependência e que infelizmente ficaram presas pelo consumo têm registo criminal e a nível de emprego ficam logo limitados. Seria bom que um dos maiores empregadores, o Governo, e a indústria do entretenimento, os casinos e os restaurantes, criassem quotas para apoiar este tipo de pessoas”, disse ontem ao Jornal TRIBUNA DE MACAU. Quanto à população, frisou ser necessária mais tolerância porque há uma imagem de que estas pessoas “recaem sempre, mas a verdade é que existem mais casos de sucesso do que de insucesso”, apontou. Quanto às alternativas à prisão por consumo de droga – que não passará pela descriminalização, mas por exemplo, pela criação de uma equipa que faça aconselhamento, avaliação, entre outra -, Augusto Nogueira disse não haver novidades. “Seria o mais indicado para os casos de consumo e as pessoas acabariam por não ter tanto medo de pedir ajuda”, considerou. Esta alternativa está a ser estudada desde 2019.



