Assinalou-se este fim-de-semana o 60º aniversário da Biblioteca Sir Robert Ho Tung, um edifício emblemático que já passou por várias mudanças, não apenas devido às obras de que foi alvo. Apesar de hoje ser uma biblioteca, aquele edifício foi o primeiro Centro Cultural de Macau, que chegou a receber uma actuação da pianista portuguesa Maria João Pires

 

Inês Almeida

 

É num pacato canto do Largo de Santo Agostinho que, há 60 anos, funciona a Biblioteca Sir Robert Ho Tung. A ocasião foi assinalada este fim-de-semana com actividades como palestras, uma delas proferida por Carlos Marreiros, que conhece bem a sua história.

“A Biblioteca Sir Robert Ho Tung foi importante porque desde 1958 tornou-se numa biblioteca pública chinesa, tendo, no passado havido tentativas de fazer bibliotecas mais extensivas, sem resultado: há também a biblioteca do Jardim de São Francisco, mas para albergar livros valiosos em língua chinesa não havia uma biblioteca preparada para o efeito”, frisou Carlos Marreiros em declarações à TRIBUNA DE MACAU.

Quando falece, em 1956, o empresário de Hong Kong, Sir Robert doa o edifício onde residiu em 1941 e 1945, em Macau. “Durante a invasão japonesa, ele refugiuo-se em Macau, as autoridades portuguesas de Macau acolheram-no bem, daí que ele tenha feito muitas bem-feitorias e uma delas foi comprar o edifício que actualmente alberga a biblioteca”, contou o arquitecto, acrescentando que a propriedade foi adquirida em 1918, pela quantia de 16.000 patacas.

“É um edifício tradicional de Macau, dos princípios da segunda metade do século XIX, mas que só foi registado como prédio em 1894”, com características associadas ao neoclassicismo.

Foi já nos anos 80 do século XX, mais precisamente em 1983, que Carlos Marreiros e Francisco Figueira se uniram para renovar o edifício, introduzindo alguns elementos “mais orientais”, abrindo os arcos do jardim diante da biblioteca. Assim, “um edifício com poucos meios financeiros”, chegou a albergar um armazém “onde se guardavam os cenários e outro material proveniente das actividades do então recém-criado Instituto Cultural de Macau (IC)”. “O IC é criado por lei em Novembro de 1982 e começa a sua actividade no primeiro trimestre de 1983”.

Então, foi dada à Biblioteca uma função que muitos desconhecem, mas que teve embora provisoriamente: a de primeiro Centro Cultural de Macau. “O primeiro Centro Cultural de Macau foi precisamente o edifício Sir Robert Ho Tung. No segundo piso [da Biblioteca]. Pouca gente se lembra disso. Restaurámos o edifício e, além de lhe dar toda a dignidade, também foi onde surgiu o primeiro Centro Cultural de Macau, onde aconteciam concertos de música de câmara, canto lírico, palestras, porque a capacidade da sala não era muita. Havia um estrado, nem era um palco e um piano. Dava para se pôr 70 pessoas sentadas muito bem”, explicou o antigo presidente do IC.

“Recordo-me como se fosse hoje que um dos primeiros concertos ali organizados foi o de Maria João Pires, pianista, no início da sua carreira. Lembro-me dela ainda muito jovem, tímida. Deu um espectáculo de grande qualidade no Centro Cultural Sir Robert Ho Tung”, sublinhou Carlos Marreiros.

Esta foi apenas uma primeira fase. Posteriormente, em 1983, o edifício albergou também a primeira livraria portuguesa pois, na altura, livros em Português existiam sobretudo num outro espaço maioritariamente dedicado às temáticas da religião Católica.