São 20 anos a ensinar centenas por ano lectivo num edifício com mais de cinco décadas, nascido a partir da visão muito própria de Chorão Ramalho. Um génio da arquitectura que criou o edifício que chegou a ser sede da Escola Comercial Pedro Nolasco. Uma obra exemplar da arquitectura moderna de Macau, pensada de forma “extremamente inteligente” que resultou num “belo edifício tido como uma das melhores escolas jamais construídas por um arquitecto europeu em toda a Ásia”, como recorda Carlos Marreiros – autor de dois projectos de intervenção em 1998 e 1998. Vizinho do Grand Lisboa, o edifício de Chorão Ramalho correu o risco de desaparecer motivando durante 10 anos várias hipóteses para o novo espaço da Escola Portuguesa. O valor do edifício e outras variantes acabaram por pender a favor da eternização de um projecto arquitectónico já apontado como um “insubstituível testemunho” da presença portuguesa em Macau
Catarina Almeida
Em 1963, Chorão Ramalho projectava o que hoje é referenciada como uma das obras-primas da arquitectura moderna de Macau. Foi concebido para receber os alunos da Escola Comercial que até 1966 – ano da inauguração do actual edifício da Escola Portuguesa de Macau (EPM) – frequentavam o ensino num prédio no alto da Calçada do Gamboa. O terreno no cruzamento das Avenidas D. João IV e do Infante D. Henrique esteve três anos em obras para ser aquilo que hoje conhecemos. Um edifício que nasceu do pragmatismo de Chorão Ramalho aliado a uma “atenção especial aos condicionalismos locais, do clima às condições térmicas e ao modo de viver que descobre em Macau”, como se pode ler no portal do Património de Influência Portuguesa da Fundação Calouste Gulbenkian.
Talvez por isso a obra seja o resultado de um perfeito entendimento com o espírito do lugar que o próprio designava por um “lugar português no Oriente”.
Apesar do grande peso do edifício, Chorão Ramalho (1914-2002) deixou outros trabalhos no território. E pelo menos quatro tiveram, à posteriori, a intervenção ao nível de restauro e habilitação, desde os anos 80.
A Escola Portuguesa é uma das quatro obras, daí o entendimento de Carlos Marreiros em relação à forma como Chorão Ramalho via e materializava a sua visão arquitectónica. “Era um arquitecto português e que percebia que fazer arquitectura não é fazer na Europa, para a Europa, e aplicá-la para África e Macau”, disse Marreiros à TRIBUNA DE MACAU.
Dono de um “entendimento total dos aspectos climáticos e socioculturais de Macau”, Chorão Ramalho desenhou “um belo edifício referido como uma das melhores escolas jamais construídas por um arquitecto europeu em toda a Ásia”, sublinha Carlos Marreiros.
Apesar das outras obras que deixou em Macau, infelizmente não tão bem preservadas como a EPM, conforme lamenta Marreiros, o edifício equacionado para receber a Pedro Nolasco demonstra que Chorão Ramalho era “extremamente inteligente”. “Sabia que aquela zona se ia desenvolver muito a partir dos anos 60. Por isso, preparou uma arquitectura ensimesmada que se defendesse, por ser uma escola, do posterior desenvolvimento urbano da zona que ele previa”, destaca.
Uma zona que, na altura, estava longe de ser o que é hoje: cruzamentos de trânsito e de uma azáfama diária, abundante em movimentos de entra-e-sai do casino vizinho, dos restaurantes, das lojas. É, afinal de contas, uma das zonas mais movimentadas do território. Mas chegou a ser calma e despovoada de betão.
A futura EPM veio assim ocupar terrenos ainda por utilizar e a visão de Chorão Ramalho em relação à forma como o terreno ia ser usado é clara e, sobretudo, pragmática. “Daí que a escola é organizada em torno de pátios e zonas de recreio. Os pátios estão bem protegidos por paredes não muito altas e também grelhas – toda a arquitectura tem grelhas, biombos, que deixa entrar a luz, controla a exposição directa dos raios solares, etc. É uma arquitectura de quem não vivia em Macau, mas que compreendia muito bem que estava a projectar para os trópicos”, realça Marreiros.
“Pela sua experiência no Brasil e em África, Chorão Ramalho conhecia os aspectos da arquitectura bioclimática e é [conhecido] pelo seu estilo brutalista: muito em voga, na altura, com grande tradição britânica dos anos 60 em que a estrutura do betão armado era exibida como arte integrante do discurso arquitectónico final”, explica. “As estruturas, normalmente, são escondidas mas a característica do brutalismo é pôr a nu a estrutura e por isso é extremamente bem desenhada e calculada pelos engenheiros”, acrescenta Marreiros – autor de dois projectos de restauro e ampliação da entretanto instituída Escola Portuguesa.
Restauro em 36 dias
Em 13 de Abril de 1998, a Associação Promotora da Instrução dos Macaenses (APIM) cedia o terreno do edifício à EPM – herdeira de três instituições de ensino em língua portuguesa: a Escola Primária Oficial, a Escola Comercial e o Liceu de Macau.
Três décadas já passadas, marcadas pelo uso e natural desgaste, motivaram a intervenção de Carlos Marreiros e da Construtura Soi Kun (do deputado Mak Soi Kun) no âmbito de um projecto de restauro em tempo recorde.
“O projecto é de Fevereiro de 1998 e foi terminado em Setembro de 98 porquanto a ala velha da escola foi inaugurada em 1998 pelo primeiro-ministro de então, o engenheiro António Guterres. Foi um esforço terrível de todos porque tínhamos só, se a memória não atraiçoa, sensivelmente 36 dias para fazer o restauro de todo o edifício original do Chorão Ramalho”, recorda.
Estava em causa o restauro de uma obra de grande valor, com 4.071 metros quadrados, em tempos de muita “dinâmica”, pois a transferência da soberania estava à porta, e a EPM iria colocar a primeira pedra – num gesto simbólico – em Abril de 1998. A pressa com o projecto, explicou Marreiros, deveu-se também porque depois das decisões a “aprovação era muito complicada porque tinha de ser entre Macau e Lisboa em simultâneo e os regulamentos não são os mesmos”.
“Na Europa, a área per capita da criança é muitíssimo mais generosa que na Ásia, e em Macau. Tivemos de calcular as áreas por estudantes para ser aprovada em Portugal. Foi um processo muito interessante sob o ponto de vista do programa também”, disse.
Segundo recorda, nesta primeira intervenção, o arquitecto retirou todos os “abcessos” que entravam em conflito com o desenho original. “Houve construções, abcessos à construção original, que não correspondiam ao desenho original, e que se percebe. [Por exemplo], as paredes interiores estavam pintadas de verde claro; as cores foram alteradas”. “Naturalmente que não estava bem”, sublinha Marreiros que, para este projecto, contou com a colaboração do arquitecto Eduardo Flores face aos “prazos surrealistas” que a equipa enfrentava.
Ampliação moderna que respeita original
Quase um ano depois, Marreiros liderava outro projecto de intervenção na EPM que acabou por ser inaugurado em Novembro de 1999 pelo então Presidente da República Portuguesa, Jorge Sampaio. Desta vez, foram adicionadas outras valências na estrutura mas sempre respeitando o projecto inicial. “Teve poucos meses também mas como era uma estrutura toda nova, não era só restauro, implicaria fundações, estruturas, etc, mas também foi feito em tempo recorde”, indicou.
Aos mais de quatro mil metros quadrados do edifício, foram adicionados 3.647 metros quadrados – duplicando a capacidade da escola em termos lectivos. “Fiz uma intervenção para dialogar com a pré-existência e para fazer um exercício de não ser visto da rua. Ao andar à volta da EPM não se vê o bloco que acrescentei, só [a partir da] rua que está ligada ao Hotel Grand Lisboa” – por forma a que o casino não fosse visto do pátio pelas crianças. “Optei por exibir as estruturas com uma linguagem moderna mas inspirada no desenho da pré-existência”, vincou.
“O que fiz foi restaurar na íntegra e acrescentar as valências do programa funcional moderno, 30 anos depois, exigidas tanto do Ministério da Educação de Portugal, dos Serviços de Educação [de Macau], bem como do meu próprio cliente que na altura era a APIM e depois a FEPM”.
Dos projectos de restauro, Carlos Marreiros quis garantir que o betão à vista deixado por Chorão Ramalho se eternizava na estrutura do edifício bem como os azulejos portugueses. “Nas partes que tivemos de mexer tentamos proteger o máximo os azulejos e conseguimos. Foram aplicados no pátio lá de dentro e salvámos quase 70% dos azulejos originais”, notou.
Por fim, já no novo milénio, a EPM voltou a mudar. Um dos pátios foi ocupado para dar lugar a uma livraria, mas Marreiros lamenta que tenha acabado por causar uma espécie de “ruído visual”. “É uma má criação e atitude incorrecta perante uma pré-existência”, criticou, referindo-se a três caixas de compressores de ar condicionado que ficaram à vista.
“Fizemos tudo para manter a traça original. Fiz um truque, ampliei, mas ninguém reparou: fiz o clone de uma galeria original e ninguém percebeu e até foi muito elogiado pela crítica. Percebo que as pessoas precisam de mais espaço mas não seria melhor solução ocupar o pátio para o qual lutámos tanto para preservar? O mestre Chorão Ramalho não esteve cá mas gostou muito da nossa intervenção. Viu só fotografias”, recordou.
Em 2012, a UNESCO atribuiu um prémio ao projecto da sala de leitura da escola, assinado pelo arquitecto Rui Leão e Carlotta Bruni. Realizado em 2008, o projecto foi distinguido na categoria inovação dos Prémios de Conservação do Património Cultural da Ásia Pacífico da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO).
Entre demolir e sair permaneceu o ficar
Ocupando terrenos numa zona privilegiada de Macau, as actuais instalações da EPM já foram incertas numa altura em que ainda se discutia a demolição da antiga Escola Pedro Nolasco e, mais tarde, a mudança de morada da EPM. Uma eventualidade que levou a Associação dos Arquitectos Portugueses (AAP), a 21 de Novembro de 1995, a pedir uma audiência ao então Presidente da República Mário Soares para “protestar e apelar” contra a demolição da Escola Pedro Nolasco. O grupo de arquitectos pedia ao Governador de Macau e ao Presidente da República para encontrarem soluções de modo a salvaguardar o que diziam ser um “insubstituível testemunho” da presença portuguesa em Macau.
De entre os subscritores estavam Álvaro Siza Vieira e José Manuel Fernandes que, anos mais tarde, voltou a criticar os planos de demolição que descreveu como sendo, a concretizarem-se, o “crime do século”.
Num artigo de opinião no Jornal Público, em Junho de 2005, defendia que a demolição prenunciava “o mais grave crime patrimonial na arquitectura dos últimos 100 anos, no espaço da lusofonia”. O arquitecto lamentava também que a concretizar-se a destruição, “a Fundação Oriente, o Estado português e o Governo de Macau ficarão para sempre responsáveis por um gravoso, evitável e incompreensível acto contra a dimensão da modernidade, e contra a afirmação qualificadora da arquitectura portuguesa – uma das supostas bandeiras da nossa cultura”.
Uma década de hipóteses
Um dos melhores edifícios de toda a arquitectura moderna de Macau, o edifício que alberga a EPM acabou por permanecer intacto, uma vez que o projecto de demolição caiu por terra e mudança de murada não aconteceu.
Este “sinistro processo” de destruição do edifício, como descreveu José Manuel Fernandes, voltou à baila em 2004 – ano em que se tomava como certo e natural que a EPM teria de mudar de instalações para a Taipa, sensivelmente para o espaço que hoje tem o parque central.
O alarme foi então despoletado pela primeira pedra do vizinho Grand Lisboa, e aqui surge então a Taipa como novo local de acolhimento da EPM, no âmbito de um acordo entre Portugal e Stanley Ho, que pretendia negociar com o Governo de Macau – proprietário dos terrenos ocupados pelas actuais instalações da escola, a utilização daquela área, situada paredes-meias com a segunda fase do hotel/casino Lisboa. Stanley Ho chegou a acordar, num processo fechado, com a então ministra Maria do Carmo Seabra pagar à Escola Portuguesa uma verba de cerca de 17 milhões de euros para um fundo de reserva e 10 milhões de euros para a construção de uma nova escolar. O magnata iria ainda pagar à APIM, titular da concessão dos terrenos, dois milhões de euros, dos quais um milhão seria entregue ao fundo da escola.
Encerrado o assunto “Taipa”, ponderou-se levar a EPM para a Barra – para isso seria necessário ainda aterrar. Mais alguns anos de impasse, e surge o Hotel Estoril. Chegou-se até a escolher, em 2005-2006, o arquitecto Vicente Bravo para projectar a nova EPM. O português, que na altura já residia em Macau há 25 anos, tinha em carteira trabalhos como a Escola Tamagnini Barbosa mas o seu projecto mais conhecido é o pavilhão onde decorreram as cerimónias oficiais da transferência da Administração de Macau para a China, em Dezembro de 1999.
Nada disso, porém, chegou a passar de hipóteses pois, alguns anos depois, o dossier foi finalmente encerrado. Estávamos em 2014, e o então ministro da Educação, Nuno Crato, estava em Macau de visita oficial durante alguns dias, uma ocasião que aproveitou para anunciar a decisão definitiva de manter a EPM nas actuais instalações em prol de uma “estabilidade maior”.
Foi neste momento que o edifício começou a ser alvo de outro tipo de discussão: a necessidade de ser renovado e ampliado. Planos que, até hoje, ainda não viram a luz do dia mas que já caminham em direcção à sua concretização uma vez que já foi solicitada a planta de condições urbanísticas.
CRONOLOGIA
1963
Chorão Ramalho inicia projecto de concepção do edifício da Pedro Nolasco
1995
21 Novembro: Arquitectos entregam carta a Mário Soares para pedir que trave demolição do edifício da antiga Pedro Nolasco
1998
18 de Abril: Lançada primeira pedra da Escola Portuguesa
1998/99
Carlos Marreiros lidera projecto de restauro total do edifício de Chorão Ramalho
2014
14 de Abril: Nuno Crato, Ministro da Educação, assegurou que a EPM iria manter-se nas actuais instalações, encerrando 10 anos de discussões sobre uma eventual mudança. Começa também a discussão sobre a necessidade de ampliação da escola



