Intitulada “A Maior Derrota dos Holandeses no Oriente”, a obra da autoria de Manuel Viseu Basílio pretende recordar como há 400 anos os nossos antepassados “corajosamente lutaram pela defesa da Cidade do Nome de Deus”, tendo “destroçado e repelido o ataque dos holandeses”, que tentaram apoderar-se de Macau. Ao Jornal TRIBUNA DE MACAU, o escritor conta como Macau beneficiou de momentos de sorte nesta luta contra o inimigo e como no fim, e contra todas as possibilidades, conseguiram defender a cidade

Catarina Pereira
Com “A Maior Derrota dos Holandeses no Oriente”, Manuel Viseu Basílio pretende fazer recordar uma data que foi “celebrada com pompa e circunstância”, mas que deixou de o ser com a transferência de Macau para a China. Em entrevista ao Jornal TRIBUNA DE MACAU, o autor da obra, que recentemente recebeu, ex aequo, o Prémio Identidade para o ano de 2021, contou como surgiu a ideia de escrever o livro, como se desenrolou o processo de escrita, e como foi travada esta batalha em Macau.
“O livro não é muito volumoso, mas para conseguir obter esta informação tive de ler muito, vasculhar muitos jornais antigos, incluindo os boletins do Governo a partir dos anos 30 do século XIX e até ao século XX. A recolha de informações levou, pelo menos, nove meses. Depois comecei a escrever. Parto sempre do princípio de que um livro deve ser escrito numa linguagem mais acessível para as pessoas poderem ler com algum prazer, por isso tentei fazê-lo, o que deu um certo trabalho”, contou Manuel Viseu Basílio.
A ideia, disse, surgiu por este ano se completarem precisamente 400 anos da invasão dos holandeses à cidade de Macau. Mas por que razão quiseram tomar esta cidade do Oriente? “Pretendiam apoderar-se de Macau porque nessa altura era uma cidade muito próspera, tinha uma importante rota comercial com o Japão e Goa. Era uma rota muito rentável”, explicou, acrescentando que, além disso, os portugueses tinham acesso ao mercado de Cantão para comprarem, sobretudo, seda para depois exportar para o Japão.
Por várias vezes – em 1601, 1603 e 1604 -, os holandeses tentaram apoderar-se da cidade, mas sem sucesso. Porque as autoridades chinesas não permitiam a construção de fortificações, “com medo de que os portugueses as utilizassem contra a própria China”, os holandeses sabiam que facilmente podiam tomar Macau. Só em 1606, ficou concluída uma cerca construída pelos jesuítas, que, devido às ameaças dos holandeses, tinham sentido necessidade de proteger as suas propriedades à volta do Colégio Mateus Ricci. Por outro lado, começaram também a construir a Fortaleza do Monte.
Se os holandeses conseguissem tomar Macau os jesuítas “ficariam sem uma base para a envangelização” e os portugueses “sem uma base para a comercialização”, prosseguiu Manuel Viseu Basílio.
Houve, depois, “um período de acalmia”, devido à chamada “Trégua dos Doze Anos”, que tinha sido firmada entre espanhóis e holandeses, mas “mal terminou, os holandeses começaram a pensar em tomar a cidade de Macau”.
Os “factores sorte”
No dia 22 de Junho de 1622, “apareceu ao largo de Macau uma poderosa frota holandesa de 14 naus, a que se juntaram duas embarcações inglesas”. Nessa altura, havia três fortins e a Fortaleza do Monte estava inacabada. Eram 1.300 homens holandeses, dos quais 800 iriam entrar na cidade. “Macau tinha pouco mais de 200 homens capazes de pegar em armas, precisamente porque calhou numa altura em que uma boa parte dos moradores portugueses estavam em Cantão a fazer compras para a próxima viagem ao Japão”, disse Manuel Viseu Basílio.
Já a 23 desse mês, o almirante Roggers, cujo nome varia consoante as publicações, começou a tentar perceber qual o melhor local para desembarcar, e concluiu que seria na Praia de Cacilhas, que já não existe e onde está hoje o reservatório, junto ao Ramal dos Mouros. “A primeira desgraça aconteceu quando o almirante desembarcou na praia. Um grupo de moradores tentou dar réplica aos invasores e começou a disparar contra uma cortina de fumo, porque quando desembarcaram, os holandeses queimaram um barril de pólvora seca que fez uma fumaça enorme para não poderem ser vistos”, prosseguiu o autor.
Por sorte, o almirante acabou por ficar ferido, pelo que acabou por ser substituído por Hans Ruffijn. À entrada da cidade ficaram 200 homens, para qualquer eventualidade, e 600 avançaram sobre Macau, marchando até ao Monumento da Vitória. “Os portugueses ofereceram alguma resistência, mas era difícil, pelo que foram recuando, até chegarem junto à Fontinha, como era conhecido o Monumento da Vitória”, contou a este jornal.
Ora, acontece que “um afamado jesuíta, que era também um grande matemático”, Giacomo Rho, montou um canhão na Fortaleza do Monte e quando viu que os invasores estavam a chegar àquela área começou a disparar. “Teve muita sorte e um dos tiros acertou precisamente num vagão onde traziam pólvora e houve uma enorme explosão, que matou muita gente, muitos holandeses morreram ali e muitos ficaram feridos. Praticamente destruiu todo o exército holandês”, apontou Manuel Viseu Basílio.
“Primeiro, o almirante ficou ferido, depois o capitão morreu e a explosão matou centenas de homens. Os holandeses estavam desnorteados e incapacitados de continuar a luta porque também não tinham pólvora. Sem pólvora, como é que iam combater?”. Assim, um conjunto de “factores favoráveis a Macau” impediu que a cidade fosse tomada pelos invasores. No livro, pode ler-se que dos oficiais holandeses sete capitães, quatro tenentes, sete alferes e sete sargentos morreram na batalha.
“Enquanto os holandeses retrocediam, fugindo em direcção à praia, as duas companhias de retaguarda, que deveriam proteger a retirada dos seus companheiros, fugiram em pânico para as naus sem disparar um tiro […] Os holandeses sofreram, portanto, nessa batalha, a sua maior derrota em confrontos com os portugueses no Oriente. Segundo uma estimativa mais fiável, o número de mortos teria sido por volta de trezentos […] Em contrapartida, as mortes do nosso lado totalizaram quatro portugueses, dois espanhóis e alguns escravos, tendo cerca de vinte ficado feridos”, pode ler-se.
O voto da cidade
O dia 24 de Junho passou, assim, a ser o Dia da Cidade. “As pessoas atribuíram a vitória à intervenção divina de São João Baptista, depois de batalha foram à Sé Catedral dar graças e proclamaram-no como o padroeiro da cidade, porque aconteceu no Dia de São João Baptista. A partir daí, celebraram-no todos os anos”, acrescentou o escritor e investigador.
Manuel Viseu Basílio conta como o “voto” da cidade foi cumprido ao longo de séculos e como a promessa da sua celebração acabou por ser quebrada. A partir de determinada altura, passou a ser celebrado de forma diferente, sem a realização da tradicional procissão, e apenas com a missa da Sé Catedral – foi assim que se manteve até 1999.
Além das festividades religiosas, o autor recorda ainda vários episódios relativos às festas de santos populares que se realizaram em meados do século XX, sobretudo as que decorreram no Leal Senado, com o patrocínio de D. Laurinda Marques Esparteiro, esposa do governador Marques Esparteiro, nos anos de 1954, 1955 e 1956, no terraço do Mercado de S. Domingos. Por outro lado, não são esquecidas as festas de São João que se realizaram em clubes.
É também abordado o último dia em que se comemorou a data antes da transferência da administração portuguesa para a República Popular da China, em 1999.
Manuel Viseu Basílio descreve depois as diversas actividades que se realizaram, já no século XXI, quando algumas associações e entidades locais ligadas à comunidade portuguesa se juntaram para reavivar a festa dedicada a S. João Baptista, primeiro, em 2007, na Escola Portuguesa, e, a partir do ano seguinte no Bairro de São Lázaro e quando a festa passou a ser denominada “Arraial de São João”.
Ao Jornal TRIBUNA DE MACAU, o autor diz que gostaria de que o Arraial de São João “tivesse mais qualquer coisa”. “Gostaria que fosse celebrado nos moldes dos anos 50, em que, além da parte portuguesa havia também a parte chinesa: havia dança, jogos chineses, ópera chinesa, a dança do leão. Era bom para integrar as comunidades e chamar a comunidade chinesa a participar também”, defendeu.
Questionado sobre se o livro irá ter um lançamento público, Manuel Viseu Basílio disse que não tem nada planeado. “Escrevi este livro para divulgar, não pretendo tirar lucro da venda. Boa parte dos livros vou oferecer a associações, instituições, bibliotecas. Eventualmente se houver alguma livraria interessada, poderei colocar alguns à venda, mas não é esse o objectivo”, afirmou.



