Técnicas controversas, erradas e algumas até não recomendadas pelos médicos são frequentemente utilizadas pelos adolescentes de Macau como métodos contraceptivos, reflectindo ideias equivocadas, concluiu um estudo dos Serviços Sociais Sheng Kung Hui. Dos jovens inquiridos, cerca de 32% admitiram saltar ou ingerir alimentos frios imediatamente após praticarem actos sexuais como formas de evitar a gravidez. Melody Lu, docente de Sociologia na UM, lamenta a quase inexistente educação sexual no território, o que, por sua vez, potencia o recurso a serviços de interrupção de gravidez
Rima Cui
Em pleno século XXI ainda há muitos jovens em Macau que usam como métodos contraceptivos algumas práticas insólitas, numa era em que as soluções até primam pela variedade e quantidade.
A conclusão nasce de um estudo promovido pelos Serviços de Jovens da Zona Norte Sheng Kung Hui Macau, ao apurarem que dos 207 inquiridos – com idades entre 12 e 18 anos – 22% não são virgens. Destes, 31,6% admitiram que, para evitar a gravidez, têm por hábito “saltar” (13,2%) e comer alimentos frios (18,4%) imediatamente após terem relações sexuais.
Esses métodos para evitar a gravidez espelham muitos conhecimentos errados sobre os comportamentos sexuais entre os jovens locais como, por exemplo, o facto de 18,4% das inquiridas acreditar que a possibilidade de engravidar será muito pequena se lavarem as suas partes íntimas depois do sexo.
Por sua vez, há quem esteja mais informado na medida em que, para evitar a fecundação, 74,4% optam por não ejacular dentro da parceira e 50% guiam-se pelo ciclo menstrual.
Para Melody Lu, docente da Sociologia da Universidade de Macau (UM) e membro da Coligação Anti-Violência Doméstica, a educação sexual do território é praticamente inexistente tendo em conta as práticas dos jovens reflectidas neste inquérito. “Quer no Continente chinês quer em Taiwan há manuais que explicam os conceitos e a realidade sexual, o que é uma protecção mínima para os adolescentes. Infelizmente, nem isto existe no território”, lamentou em declarações à TRIBUNA DE MACAU.
À falta de livros sobre educação sexual soma-se a mentalidade chinesa, neste caso dos pais locais que, para Melody Lu, também constitui um “grande obstáculo”, influenciando a prática, o conhecimento e as atitudes sexuais. Isto porque, segundo lamenta, os pais “têm o errado pensamento de que se discutirem o tema com os filhos isso pode encorajar esse comportamento”. Mais: “Há pais para quem ter relações sexuais é algo ‘sujo’ chegando, inclusive, a bater nos filhos depois de descobrirem que já perderam a virgindade”, denunciou.
O estudo demonstra também que a principal fonte de conhecimento sexual dos adolescentes vem das conversas ou comentários, sendo por isso “limitado”. “As relações amorosas de [hoje em dia] são cada vez menos românticas sendo mais pautadas por uma noção de ‘fast food’. Os adolescentes não perdem muito tempo a gerir as suas relações tanto que alguns nunca chegam a fazê-lo”, realça o estudo.
Neste sentido, a docente disse também que as crianças que frequentam o ensino básico e primário captam maioritariamente informações sexuais lendo páginas online ou assistindo a pornografia – veículos de informação que “não explicam quais são as práticas e noções correctas”.
Falta de informação potencia abortos
A informação errada e a falta de sensibilização sobre a matéria incentivam muitas adolescentes locais a rumar ao Continente chinês para abortarem, aponta a docente da UM.
“Em Zhuhai, o aborto é demasiado fácil, por isso, acredito que o real número de locais que fizeram aborto no Continente é muito superior ao que imaginamos”, alertou.
Mesmo que o aborto fosse legalizado em Macau, Melody Lu acredita que os pais continuariam a levar as filhas ao Continente para abortar, uma vez que se sentem envergonhados e com medo dos olhares e comentários alheios. Isto mesmo quando não há garantia de que os serviços prestados em Zhuhai sejam de qualidade.
Em concreto, a docente partilhou a história de uma jovem que abortou no Continente, pois engravidou intencionalmente, e pouco depois voltou a ficar grávida. Isto porque “percebeu que interromper a gravidez é muito fácil” além de que os pais também não “aproveitaram a situação para advertir a filha e educá-la [sobre os riscos de gravidez]”. “Não podemos controlar os adolescentes para terem comportamentos sexuais errados. A solução passa por reforçar a educação sexual nas escolas e elevar a sensibilização social”, salientou Melody Lu.
Falar abertamente e sem preconceitos
Para a docente, as escolas devem garantir mecanismos de apoio aos alunos para que possam consultar informações directamente e com mais facilidade.
Além disso, as associações que representam as camadas mais jovens devem organizar mais iniciativas de sensibilização para que existam mais canais de conhecimento e plataformas de discussão sobre um tema que devia ser abordado abertamente e de forma transparente mas, infelizmente, não é, destaca Melody Lu.
Ainda que as escolas devam dedicar-se à formação de professores nesta área, a docente ressalva que é preciso dedicar tempo. “É estranho que, de facto, apesar das pessoas de Macau evitarem discutir totalmente sobre o tema, os actos cá praticados são muito mais ousados do que noutras regiões”, apontou.
Por outro lado, a professora na UM adverte também que as consequências negativas resultantes da falta de conhecimento sobre as práticas sexuais poderão causar danos psicológicos, sobretudo junto dos adolescentes masculinos. Na sua opinião, embora muitos não tenham sofrido ferimentos físicos na sequência do aborto ficaram com “mazelas” psicológicas que afectam, no futuro, a sua visão sobre o casamento, famílias, entre outros aspectos.
Segundo o mesmo estudo, 59,3% dos inquiridos disseram que já namoraram sendo que, em média, a primeira experiência sexual acontece aos 14,31 anos de idade. Para os jovens, seis meses de namoro já se afigura como uma relação de longa duração sendo que, no espaço de um ano, o número de namoros pode chegar aos seis. É de salientar que as discotecas e a Internet são as principais vias usadas para jovens locais para assumir relações amorosas.



