Vicente Nicolau de Mesquita teve uma vida como poucos macaenses na altura em que viveu, foi o único a alcançar um posto superior no exército português mas ficou com uma imagem “irremediavelmente comprometida” devido à tragédia familiar que protagonizou, consideram personalidades conhecedoras da história do território relativamente ao Coronel que nasceu há 200 anos

 

Inês Almeida

 

Um busto no Cemitério de São Miguel Arcanjo, uma Rua com o seu nome na Península, uma das datas no Pórtico junto à fronteira com a China Continental. Precisamente dois séculos depois do seu nascimento, ainda há vestígios da passagem do Coronel Vicente Nicolau de Mesquita por Macau. A sua vida foi marcada por vários momentos determinantes, nem todos positivos.

António Aresta acredita que o Coronel “foi, realmente, o último herói romântico de Macau”. “Após o assassinato do governador Ferreira do Amaral, a acção temerária de Vicente Nicolau de Mesquita na tomada do Passaleão garantiu uma nova página na governabilidade e na sobrevivência política de Macau”, sublinhou o investigador numa resposta à TRIBUNA DE MACAU.

No entanto, a sua imagem ficaria “irremediavelmente comprometida em virtude da tragédia que protagonizou: assassinou a mulher e a filha, feriu gravemente um filho e terminou com o seu suicídio”. “O seu funeral não teve honras militares, civis ou religiosas, por determinação superior e só muito a custo é que foi possível conter a sublevação da guarnição militar de Macau e a incomodidade da comunidade portuguesa. O administrador do concelho, Leôncio Alfredo Ferreira, escreveu um notável relatório sobre esse incidente”.

Foi pouco antes da instauração da República em Portugal, a 25 de Junho de 1910, que o Juízo Eclesiástico de Macau, presidido pelo Bispo D. João Paulino de Azevedo e Castro, reabilitou a sua memória com um longo parecer. António Aresta destaca a seguinte passagem: “Julgamos, por sentença, suficientemente provado o estado de loucura do reabilitando Coronel Vicente Nicolau de Mesquita, bem como a sua irresponsabilidade nos actos de homicídio praticado nas pessoas de sua mulher e de sua filha, e no de suicídio com que pôs termo à própria vida; e outrossim, por esta, reabilitamos a sua memória para poderem os seus restos mortais receber as honras da sepultura eclesiástica e a sua alma participar dos sufrágios da Igreja e comungar nos benefícios da caridade cristã”.

O também professor de filosofia considera que este foi, “sem dúvida, o maior incidente em toda a história do território, que só terá ficado sanado em 1966, na ressaca da revolução cultural maoísta”. “A estátua de Vicente Nicolau de Mesquita foi retirada do Largo do Senado e, mais tarde, transportada para Portugal, a pátria que amava mas que nunca tinha conhecido”.

Actualmente, além das duas referências patentes na cidade, “há uma memória delida pelo tempo, mas não apagada de todo”. “Quem sabe se Vicente Nicolau de Mesquita não será um dos heróis de uma banda desenhada dedicada à história de Macau?”, questiona António Aresta.

Por sua vez, João Botas, autor do blog “Macau Antigo”, fala de uma vida “pouco reconhecida em Macau, terra onde nasceu”, havendo vários factores que contribuem para isso. Desde logo, o facto de pertencer ao século XIX e de o seu feito mais heróico ter ocorrido “num contexto muito específico”.

“Foi na época em que foi destacado para governar Macau João Maria Ferreira do Amaral, um oficial da armada, que tinha perdido o braço direito no decurso da guerra da independência do Brasil. Ferreira do Amaral tinha uma missão clara: repor e restaurar a soberania portuguesa, fazendo cessar a jurisdição chinesa”. Por isso acabou por “pagar caro”, perdendo a vida.

Ferreira do Amaral foi assassinado a 22 de Agosto de 1849 pelos chineses que no Forte do Passaleão, junto à fronteira da Porta do Cerco, juntaram um exército de cerca de 2.000 homens. “Reza a história que se preparavam para invadir Macau”. “Perante alguma hesitação do Governo, Vicente Nicolau de Mesquita, então subtenente de artilharia oferece-se como voluntário para, com um grupo escolhido por ele – mais de 30 homens – assaltar o Forte do Passaleão”. Assim se tornou num herói. “Acidental, porventura, mas não é descabido afirmar que, sem a sua acção, a história teria muito provavelmente sido outra”, destacou João Botas.

 

Duas datas marcantes

Hoje em dia, o que então era a Porta do Cerco e que ainda hoje se encontra junto ao Posto Fronteiriço, ostenta duas datas simbólicas: uma referente ao assassinato de Ferreira do Amaral – 22 de Agosto de 1849 – e outra dedicada a Vicente Nicolau de Mesquita e à Batalha do Passaleão – 25 de Agosto de 1849.

Enquanto militar em Macau, Mesquita foi comandante da Fortaleza da Taipa, do Forte de São Tiago da Barra e da Fortaleza do Monte. “Consta que começou a sofrer de depressão devido à forma lenta como decorreu a promoção nos quadros do exército. Só foi promovido a Coronel em Outubro de 1873 e reformou-se dois meses depois”.

Sem colocar em causa a tese de depressão, João Botas recorda que, ainda em vida, “o Coronel Mesquita foi condecorado com os títulos honoríficos de Cavaleiro da Ordem de Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa, Cavaleiro da Ordem Militar de Avis e Comendador da Ordem Militar de Avis”. “Recebeu ainda a Medalha de Prata de Valor Militar e a Medalha de Ouro de Comportamento Exemplar”.

João Botas destaca ainda o facto de Vicente Nicolau de Mesquita ter tido “uma vida que poucos macaenses tiveram na época, nomeadamente ao nível da educação e da carreira que seguiu”.

 

Um feito celebrado

Por sua vez, Aureliano Barata aponta “a imprudência” de Ferreira do Amaral ao aparecer a cavalo junto às Portas do Cerco que levou à acção de Vicente Nicolau de Mesquita, um feito “muito celebrado pelos macaenses, dado que foi, por um lado, uma retaliação pelo assassínio de Ferreira do Amaral e, por outro, a libertação de Macau do jugo da administração chinesa de Cantão”.

O investigador acredita que “não foi por acaso que, ao aproximarem-se as conversações luso-chinesas para a transferência de Macau para a China, foi retirada a estátua de Ferreira do Amaral que estava junto ao antigo Casino Lisboa, não muito longe da entrada para a Ponte Nobre de Carvalho”.

“Vicente Nicolau de Mesquita era um macaense que comandando a tropa portuguesa libertou Macau da presença chinesa. Este é o aspecto fundamental que fez com que entrasse para a História dos portugueses em Macau”. Além disso, apontou o investigador, “foi a única vez que um macaense alcançou um posto superior no Exército Português”.