A Rotunda de Carlos da Maia vai ser a “casa” de Jenny Mok, da “Comuna de Pedra” durante cinco dias, com o objectivo de ter um contacto mais próximo com a população daquela zona. Ao longo de “100 horas” vão ser organizadas várias actividades para fomentar essa interacção como um programa de rádio com discos pedidos, partilha de refeições a troco de qualquer pagamento simbólico, seja uns minutos ao tear ou a oferta de uma flor, e ainda actuações de rua

 

Inês Almeida

 

Um quarto em forma de tenda, uma cozinha improvisada com mesas, um fogão de um bico apenas e meia dúzia de utensílios, um tear que será usado para produzir um pano de grandes dimensões a partir de vários tecidos. Assim se cria um espaço improvisado ao ar livre, na Rotunda Carlos da Maia, onde Jenny Mok pretende viver durante 100 horas, numa iniciativa com esse nome, inserida no programa do Festival “Fringe”.

“Chama-se ‘100 horas’ e vai durar 100 horas. Não estamos a fazer muito, apenas a viver aqui durante cinco dias. Temos uma sala de estar, uma cozinha e um espaço de trabalho. Vamos viver aqui, comer, cozinhar, dormir. A única coisa que vou produzir é tecer um grande pedaço de tecido com vários tipos de material”, explicou a presidente da Comuna de Pedra à TRIBUNA DE MACAU.

Ao longo dos cinco dias vão ter lugar várias actividades. “Vamos ter um programa de rádio. Vamos tentar coleccionar algumas canções que as pessoas querem ouvir num programa daqueles em que os ouvintes pedem as músicas. Também já temos inscrições para pessoas virem aqui fazer actuações de rua, seja cantar ou dançar”, explicou.

“Temos uma sessão de troca de comida. Vamos cozinhar todos os dias, anunciar ao público, também no ‘Facebook’, e se as pessoas quiserem comer connosco são bem-vindas, desde que haja comida. Só têm de dar algo em troca. Podem trazer alguns tecidos antigos ou roupas que possa usar para tecer, ou dar-me até uma flor, um abraço, trabalhar 15 minutos no tear”, indicou Jenny Mok.

Todo este programa é organizado na esperança de conseguir comunicar mais com a sociedade, “criar uma memória e uma pequena comunidade dentro da comunidade”. “Vamos tentar registar todas as interacções que temos com as pessoas. Vamos ter um quadro e escrevemos tudo o que acontece a cada meia hora, mesmo coisas triviais”.

Jenny Mok diz ter a intenção de “ver como o bairro e as pessoas vão reagir a uma existência destas”. “Haverá uma mudança do início para o final destas 100 horas? Já tivemos cinco ou seis pessoas a trabalhar no tear. Acho que as pessoas terão diferentes opiniões sobre esta existência e, depois de cinco dias, 100 horas, isto vai desaparecer, como tudo. Tudo tem uma certa duração”.

A presidente da “Comuna de Pedra” já fez um projecto idêntico a este há oito anos, na China Continental, durante o qual também teceu, ainda que de outra forma e, no final, queimou o trabalho. “A ideia é salientar a existência curta. Não estamos a fazer nada de extraordinário mas é surreal pôr nesta área uma cozinha e uma tenda. Há uma pitada de estranheza em fazer isto aqui. Estou interessada em ver como é que as pessoas reagem a algo que aparece e desaparece”. Porém, garante Jenny Mok, desta vez não vai queimar mas antes guardar para si o produto final de cinco dias de tecelagem.

Questionada sobre a escolha da Rotunda Carlos da Maia para a instalação, destaca a proximidade a um bairro tradicional. “Estamos no centro de uma zona antiga de Macau. As próprias ruas ‘tecem’ umas com as outras. Eu também estou a tecer e antes havia esta indústria. É uma existência que já acabou. As pessoas hoje reagem de forma diferente ao que estou a fazer aqui. Há culturas mistas, pessoas de vários ‘backgrounds’. Não há uma área comercial. É ideal para o que quero fazer. É este o público com quem quero estar”, frisou.

No que respeita ao impacto da instalação em quem por ali passa, Jenny Mok prefere não antecipar. “Se calhar as pessoas vão detestar e perguntar porque é que estou aqui, além de me mandarem embora. Mas só estamos aqui há umas horas. Vamos ver”.

A instalação da “Comuna de Pedra”, integrada no Festival “Fringe”, permanecerá na Rotunda Carlos da Maia até sábado.