A épica retirada de 300 mil soldados da praia de Dunquerque na Segunda Guerra Mundial inspirou dois filmes admiráveis, distinguidos com cinco estatuetas pela Academia de Hollywood

 

No final de Maio de 1940, centenas de milhares de soldados belgas, franceses e britânicos enfrentavam um prognóstico muito reservado em Dunquerque. Cercados pelo exército nazi, desesperavam por um milagre que permitisse a fuga, porque a vitória deixara de ser uma opção. Enquanto na praia francesa imperava a preocupação, incerteza e até resignação, em Londres o recém-nomeado Primeiro-Ministro Winston Churchill, o seu gabinete de guerra e o Parlamento decidiam o destino dos jovens, numa altura em que a Europa sucumbia perante Adolf Hitler.

Conhecida como a “Operação Dínamo”, a histórica retirada de mais 300 mil soldados aliados inspirou dois filmes que contam a épica histórica de forma separada, e com boa dose de idealização. Se “Dunkirk”, de Christopher Nolan, mostra o ponto de vista dos vulneráveis soldados britânicos encurralados, “Darkest Hour”, de Joe Wright, aborda o episódio com base na experiência de Churchill, que num bunker sombrio enfrenta as pressões para negociar a paz com Hitler.

Em conjunto, os dois filmes somaram 14 nomeações para os Óscares – oito para “Dunkirk” e seis para “Darkest Hour” – e acabaram por receber cinco estatuetas, incluindo na categoria de melhor actor, com Gary Oldman insuperável no papel de Churchill, que obrigou a 13 testes de maquiagem, 48 dias consecutivos de filmagens e 200 horas na cadeira da caracterização. O esforço da equipa liderada pelo japonês Kazuhiro Tsuji seria premiado com o Óscar para melhor maquiagem e penteado.

Por sua vez, “Dunkirk” dominou a gala nas categorias técnicas, com três estatuetas: Edição, Edição de Som e Mistura de Som. Nolan usou câmaras IMAX, barcos e aviões reais no seu décimo filme, classificado como uma obra de arte por muitos especialistas, que enaltecem a capacidade do realizador ser épico e íntimo ao mesmo tempo.

O resgate ficou conhecido como o “milagre de Dunquerque”, já que o exército britânico acreditava que salvaria cerca de 30 mil soldados e conseguiu retirar um número 10 vezes maior de militares. “Foi uma derrota militar com um final feliz”, escreveu Michael Korda, autor do livro “Alone”, sobre Churchill e Dunquerque.

Pouco depois da operação, o próprio Churchill advertiu que era necessário não associar esta operação aos atributos de vitória, porque “as guerras não são vencidas com evacuações”. “Nós devemos lutar nas praias, nós devemos lutar nas terras de desembarque, lutaremos nos campos e nas ruas (…) Nunca nos renderemos”, disse no histórico discurso, no Parlamento, que encerra os dois filmes.

Independentemente da qualidade dos filmes, o historiador Antony Beevor considera que Nolan e Wright “não tiveram muito respeito pela verdade histórica, tentaram melhorá-la, mesmo quando não era necessário”. Foram os ‘destroyers’ da Marinha que retiraram a maior parte dos soldados – dois terços, segundo publicações -, e não pequenas embarcações”, como o filme mostra de modo quase romântico, exemplificou Beever à agência AFP.

O historiador também criticou a cena “absurda e totalmente fictícia” de “Darkest Hour”, em que Churchill surge no Metro e tem uma conversa amigável com vários londrinos sobre a opinião do povo a respeito da guerra. “A distorção da história é imperdoável no meu ponto de vista”, lamentou.

 

JTM com agências internacionais