Há cinco anos, o designer Robert Wun, natural de Hong Kong, trabalhava na cozinha. Agora, veste algumas das artistas mais conhecidas do mundo, desde Lady Gaga à rapper Cardi B, que esteve na última semana no seu desfile em Paris.
“Às vezes tenho alguns dias livres”, diz, a sorrir, à AFP o estilista de 34 anos, embora admita se sentir “bastante esgotado mental e fisicamente”, porque não tira folga há dois anos e meio. “É algo que eu sempre quis, por isso quase nunca reclamo”, afirma.
Apesar do volume de trabalho pouco antes de apresentar a sua nova colecção, parecia descontraído e bem-humorado.
Nada indicava que ele alcançaria esse sucesso: a mãe trabalhava no sector dos seguros, e o pai, no da fiação eléctrica. Na escola conservadora de Hong Kong onde estudou, não havia espaço para adolescentes criativos como ele.
“Foi ali que surgiu a minha teimosia, porque eu sofria muito bullying. Mesmo assim, consegui manter-me fiel ao que realmente queria fazer, ou a como queria fazer as coisas, ou a como me quero expressar”, explica.
Encontrou sua vocação ao estudar no London College of Fashion e acabou por fazer da capital britânica a sua residência permanente.
Hoje, Wun mora em Hackney, no leste de Londres, e o seu ateliê com 12 pessoas em Dalston produz, sob medida, dois ou três ‘looks’ por mês para tapetes vermelhos, festas de gala e casamentos.
Wun foi provavelmente o designer mais requisitado da “Met Gala” deste ano em Nova Iorque, onde vestiu oito pessoas, entre as quais a estrela do k-pop Lisa, o coleccionador de alta-costura Jordan Roth e a tenista Naomi Osaka.
A cantora americana Cardi B também é uma das suas admiradoras. No desfile da nova colecção de alta-costura em Paris, ao ser perguntada sobre o que mais gosta em Wun, a rapper respondeu: “Tudo”.
“A criatividade, as cores… É realmente de qualidade”, acrescentou a artista, que foi uma das primeiras a usar criações de Wun após a colecção que o revelou, em 2021.
Fascinado pelo mundo natural e profundamente influenciado pelo cinema, Wun cria peças frequentemente descritas como ousadas, futuristas e esculturais. O seu trabalho também pode ser sombrio e claustrofóbico, ao incorporar influências de filmes de terror.
Depois de, há cinco anos, chamar a atenção da Vogue e de outros círculos influentes da moda, estreou-se na alta-costura parisiense em 2023 como convidado, tornando-se o primeiro designer de Hong Kong a chegar ao palco da elite da moda.
As suas peças não fazem alusões directas à sua cultura chinesa de origem. “É bonito poder fazer referência à sua cultura e incorporá-la ao seu trabalho. Há muitos criadores a fazer um trabalho magnífico nesse sentido”, afirma Wun.
Mas ele aspira a algo mais universal, que atravesse fronteiras ou, como define, “o poder de dar um passo atrás para deixar o seu trabalho falar por si mesmo, sem que a pessoa seja o centro das atenções”.
A colecção apresentada na passada quarta-feira, chamada “Childsplay”, foi inspirada nos contos infantis e no cineasta japonês Hayao Miyazaki, conhecido por animações como “Meu Amigo Totoro”.
Trata-se de algo diferente das suas linhas anteriores, mais travessa, mas também inquietante. “Nunca foi minha intenção fazer algo que talvez as pessoas vejam como muito sério, ou como um reflexo da época, quando as coisas estão difíceis e sombrias”, afirma.
“Usei realmente a infância como uma âncora […] Não uso o olhar de uma criança para criar esta colecção. É mais do ponto de vista de um adulto que perdeu a infância, e sobre o qual devemos fazer agora, olhando para trás”, acrescenta.
JTM com agências internacionais



