A escritora uruguaia Ida Vitale venceu o Prémio Cervantes de literatura, pela “sua linguagem, uma das mais destacadas e reconhecidas da poesia”, anunciou o ministro da Cultura espanhol
O mais importante prémio das letras hispânicas foi atribuído a Ida Vitale pela “trajectória poética e intelectual” de uma escritora que é detentora de uma das “mais destacadas e reconhecidas” expressões da poesia, “ao mesmo tempo intelectual e popular, universal e pessoal, transparente e profunda”, disse o ministro da Cultura espanhol, José Guirao, citando a decisão do júri.
A presidente do júri, a escritora Carmen Riera, qualificou Vitale como uma “poetisa extraordinária com grandes ligações a Espanha”.
“Surpresa e susto” foram as primeiras coisas que sentiu a poetisa, de 94 anos, quando recebeu um telefonema informando-a sobre o prémio. “Nunca esperei prémios, é um desconcerto absoluto”, confessou à agência AFP.
O prémio foi “uma surpresa, e injustificável, um excesso de generosidade da Espanha”, considerou Ida. “Agora, penso em todas as pessoas que morreram mais jovens e que, com toda a justiça, poderiam tê-lo recebido. Em tantos que venerei e morreram sem serem conhecidos. Em americanos que não receberam nada e morreram”, disse.
Nascida em Montevideu, a 2 de Novembro de 1923, Ida Vitale afirmou-se como poetisa, jornalista, tradutora e crítica literária. Entre a vasta obra publicada da autora, destacam-se títulos como “La luz desta memoria”, “Procura de lo imposible”, “Léxico de afinidades”, “Sueños de la constancia” e “Cada uno en su noche”.
A escritora pertenceu à chamada Geração de 45, que integrou igualmente os escritores Mario Benedetti (1920-2009) e Juan Carlos Onetti (1909-1994), e que é considerado, na história das literaturas hispanas, o mais importante movimento literário no Uruguai, no século XX.
Ida Vitale estudou Humanidades e leccionou até 1974, em Montevideu, quando a ditadura militar a obrigou a exilar-se no México, durante dez anos. Colaboradora de jornais e revistas, fez também parte do conselho assessor da revista Vuelta e do grupo fundador do periódico Unomasuno, no México.
Sem obra publicada em português, de acordo com o catálogo da Biblioteca Nacional, Ida Vitale traduziu, contudo, em 1968, para castelhano, as “Cartas de amor de la religiosa portuguesa”, atribuídas a Mariana Alcoforado, publicadas em Montevideo, no Uruguai, pela Arca-Galerna.
Entre os prémios que recebeu contam-se o Prémio Internacional Octavio Paz de Poesia e Ensaio, o Prémio Rainha Sofia de Poesia Ibero-americana (2015) e o Internacional de Poesia Federico García Lorca (2016).
É também doutora honoris causa pela Universidade da República do Uruguai.
Em Setembro, foi distinguida com o Prémio em Línguas Românicas da Feira Internacional do Livro de Guadalajara, que será entregue no México, no próximo dia 24. O júri do prémio mexicano, que distinguiu Vilate por unanimidade, destacou então “a depurada voz” da escritora, que “sabe renovar a tradição e afirmar a sua presença na modernidade”, constituindo “uma força poética no âmbito da língua espanhola”.
Em 2017, o Prémio Cervantes, dotado de 125 mil euros – prémio conhecido em Espanha como “o Nobel de literatura em castelhano” -, foi atribuído ao nicaraguense Sergio Ramírez.
A distinção de Ida Vitale, este ano, rompe a tradição de alternância, entre autores espanhóis e latino-americanos, estabelecida ao longo das diferentes edições do prémio.
JTM com Lusa e agências internacionais



