O Pavilhão de Portugal foi inaugurado na 61ª Exposição Internacional de Arte da Bienal de Veneza com o projecto “RedSkyFalls”, de Alexandre Estrela, uma instalação que responde, em tempo real, à actividade sísmica global.

A obra, que “convida à observação do silencioso jogo da vida, recentra a atenção no particular e nas infra-estruturas empáticas entre espécies”, segundo a curadoria de Ana Baliza e Ricardo Nicolau, e encontra-se instalada no Palacio Fondaco Marcello, no centro histórico de Veneza.

A participação portuguesa foi inaugurada com a presença da ministra da Cultura, Juventude e Desporto, Margarida Balseiro Lopes, e de Américo Rodrigues, director da Direcção-Geral das Artes (DGArtes), entidade responsável pelo comissariado, indica um comunicado divulgado pela organização.

“RedSkyFalls” de Alexandre Estrela, é “um ecossistema artificial que responde em tempo real à actividade sísmica global, próxima e distante, com sensibilidade animal”, descreve, sobre a peça, integrada na bienal que decorre sob o título “In Minor Keys”, com curadoria geral de Koyo Kouoh (1967-2025).

“A energia sísmica liga uma rede de Réplicas entre São Francisco, Los Angeles, Lima, Cidade do México e Lisboa, estendendo ‘RedSkyFalls’, em Veneza, a geografias sismicamente activas, onde as bio-sentinelas respondem à actividade sísmica global e, de forma perceptivelmente síncrona, a eventos próximos”, precisa o comunicado.

O projecto reactiva as práticas de leitura sísmica baseadas na observação do comportamento animal como preditor de perturbações no mundo natural, e “sempre que, em qualquer parte do mundo, há registo de actividade sísmica acima de 4,5 na escala de Richter, irrompe um rombo sonoro, a paisagem de ‘RedSkyFalls’ muda aceleradamente de estação do ano, as plantas agitam-se e as réplicas congelam de medo”.

Nas palavras de Margarida Balseiro Lopes, citada no comunicado, “talvez seja essa, hoje, uma das tarefas mais urgentes: reaprender a distinguir sinais. Reconhecer que o que parece distante, mínimo ou invisível tem consequências; e que, por baixo de cada grande narrativa, há sempre uma vibração que a precede e a sucede”.

Durante os sete meses de exposição em Veneza, o Pavilhão de Portugal promoverá uma série de eventos – conversas, concertos, ‘happenings’, projecções – propondo “uma leitura reverberante da peça”, num programa inspirado no inquérito pombalino após o Terramoto de Lisboa de 1755, dividido em cinco capítulos temáticos.

A Bienal de Arte de Veneza abriu ao público no sábado com cem pavilhões nacionais, uma exposição geral com 111 participantes, e uma polémica relacionada com a contestação das participações da Rússia e de Israel que levou à demissão do júri internacional que iria atribuir o palmarés, ficando patente até 22 de Novembro, data em que serão atribuídos os prémios pelo público, ao contrário da habitual cerimónia de abertura.

O artista Alexandre Estrela manifestou-se, desde o dia da apresentação pública do seu projecto, contra a participação da Rússia e de Israel no certame, expressando solidariedade “com os povos oprimidos”. O artista é um dos 183 signatários de uma carta aberta, divulgada em Março, na qual participantes, entre artistas, curadores e trabalhadores da 61ª Bienal de Arte pediam a exclusão de Israel.

Promovida pela Aliança Arte Não Genocídio (ANGA), a carta está disponível online e os seus signatários defendem que “a cumplicidade da Bienal de Veneza com a tentativa de destruição da vida palestiniana tem de acabar”.

Além de Portugal, do universo lusófono participam também representantes do Brasil e de Timor-Leste.

A presença de artistas portugueses estende-se a eventos paralelos, nomeadamente através da exposição “XIV Steps”, do artista plástico Pedro Cabrita Reis, inaugurada na segunda-feira, composta de um conjunto de 14 pinturas inéditas de grandes dimensões que revisitam a Via Sacra, numa “visão pessoal” da Paixão de Cristo, em diálogo com a história da pintura europeia.

Também a artista Marita Setas Ferro estará presente na exposição “Personal Structures – Confluences 2026”, organizada pelo European Cultural Centre Italy, a decorrer até 22 de Novembro, em Veneza, com o projecto individual “The Echoes of Things from Nature” (“O eco de coisas da natureza”, em tradução livre), sobre as paisagens marinhas e as formações orgânicas.

 

JTM com Lusa