O embaixador mundial da canção francesa do século XX continuou a cantar até ao último suspiro. Autor de um excepcional repertório dominado pelo tom nostálgico, Charles Aznavour faleceu na segunda-feira, aos 94 anos
De origem arménia, o cantor francês mais conhecido no exterior morreu na madrugada de segunda-feira em Alpilles, no sudeste da França, causando uma onda de tristeza entre inúmeras personalidades e admiradores.
Apesar de já ter vendido 180 milhões de álbuns em oito décadas, Charles Aznavour não tinha dado a sua carreira por terminada. Aos 94 anos, tinha acabado de voltar de uma digressão pelo Japão, depois de ter sido forçado a cancelar vários espectáculos por ter fracturado um braço numa queda, e ainda planeava actuar em Bruxelas, em Outubro.
Sempre que cantava, Aznavour parecia rejuvenescer: iniciava os “shows” com uma voz debilitada e o corpo frágil, mas terminava com altivez e leve como uma pluma.
“As suas obras-primas, o seu timbre, o seu brilho único sobreviverão por muito tempo”, declarou o Presidente francês, após a notícia do falecimento, sublinhando que o artista “acompanhou as alegrias e as tristezas de três gerações”.
“Partilhamos com o povo arménio o luto do povo francês”, acrescentou Emmanuel Macron, que tinha convidado Aznavour para participar na Cimeira da Francofonia, na próxima semana, na capital da Arménia.
A morte do cantor é uma “enorme perda para o mundo inteiro”, declarou por sua vez o Primeiro-Ministro da Arménia, homenageando “um filho do povo arménio”. “É difícil acreditar que uma pessoa que marcou uma época, que marcou a história, o amor, que serviu o seu povo, uma pessoa que durante 80 anos maravilhou e aqueceu o coração de dezenas, centenas, milhões de pessoas, já não está entre nós”, escreveu Nikol Pachinian no Facebook.
Nascido a 22 de Maio de 1924 em Paris, filho de pais arménios, Aznavour triunfou com canções como “La Bohème”, “La Mamma”, “Comme ils disent”, e “Mes emmerdes”. É também muito lembrado como o intérprete de “She”, a canção tema do filme “Notting Hill”.
“Não sou velho, tenho mais idade, é diferente”, ironizou Aznavour numa ocasião em declarações à AFP. Era uma forma de desafiar a passagem do tempo para quem o sucesso artístico chegou tarde, aos 36 anos, numa noite de Dezembro de 1960.
Na sala Alhambra de Paris, fez o seu primeiro show, depois de ter sido alvo dos críticos que não acreditavam nem no seu talento de palco nem na sua voz. Mas nessa noite ele mudou a mente de todos ao interpretar “J’me voyais déjà”, sobre as ilusões perdidas de um artista.
Também escreveu para grandes artistas franceses, como Juliette Gréco, Gilbert Bécaud e Edith Piaf, que sempre o apoiaram, assim como Charles Trénet, Constantin Stanislavski e Maurice Chevalier.
“Charles continuará a ser o monumento e a lenda da canção francesa no mundo. As suas canções são intemporais e permanecerão gravadas na nossa memória”, declarou a cantora Mireille Mathieu à AFP.
A ex-actriz Brigitte Bardot também se despediu de Aznavour. “Ele era o nosso ás imortal. Nosso ás dos poetas. Nosso ás da canção francesa. Nosso ás da popularidade. Nosso ás dos embaixadores do talento no mundo. Ele continuará a ser o nosso ‘Ás… navour’ para sempre”, frisou.
Apesar de não ter feito grandes canções nos últimos 30 anos, Aznavour manteve o seu mito intacto, actuando nos mais prestigiados palcos do mundo. Em 1998, a CNN e a revista Time coroaram-no como o “artista de entretenimento do século”.
Sempre, preocupado com o drama dos migrantes, muitas vezes evocou o seu amor à França e à Arménia. “São países inseparáveis como o café e o leite”, declarou no ano passado, quando recebeu sua estrela na Calçada da Fama de Hollywood.
JTM com agências internacionais



