O músico Luís Represas, que morreu ontem aos 69 anos, vítima de doença prolongada, dizia que o essencial de um artista é ter-se uma identidade, construída em 50 anos de carreira entre os Trovante e em nome próprio, ao lado de dezenas de outros músicos.
“A minha impressão digital, aquilo que me faz ser eu e que me faz ser diferente dos outros, é o fundamental. Isso é que é o meu barco, o meu barco é esse e é nesse barco que tenho que navegar. E que eu quero e que gosto de navegar”, afirmou à agência Lusa em 2024, quando editou o álbum “Miragem”.
Para celebrar os 50 anos de carreira, Luís Represas tinha anunciado dois concertos para Abril de 2027 nos coliseus de Lisboa e do Porto. Em Março passado tinha actuado com os Trovante em concertos esgotados na Meo Arena (Lisboa) e no Pavilhão Rosa Mota (Porto).
Luís Represas nasceu em Lisboa em 1956 e pouco antes de completar 20 anos, no Verão de 1976, fundou os Trovante com os amigos e o irmão – João Gil, Manuel Faria, Artur Costa e João Represas – e um ano depois saiu o álbum “Chão Nosso”.
Esse disco de estreia assinalou a identidade musical do grupo, fortemente influenciado pela música de cariz popular e tradicional e pelo rock. Trovante era ainda “uma mistura de trova, músico ambulante, e avante, para a frente, no melhor sentido da palavra”, como contou Manuel Faria numa biografa da banda publicada em 2003.
Os Trovante permaneceriam activos até aos anos 1990. Luís Represas lança-se a solo em 1993, com o álbum “Represas”, fruto de uma viagem a Cuba, onde foi gravado, e onde tocou com vários músicos, entre os quais Pablo Milanés (1943-2022).
Com músicas como “Fora de Tempo”, “Neva sobre a marginal” e “Feiticeira”, este álbum foi fundamental no seu percurso: “Foi um reencontro comigo próprio”, como contou à agência Lusa em Março passado, quando anunciou os concertos de 2027.
Esses dois caminhos no percurso musical contaminaram-se um ao outro, disse. “A primeira fase é a do aparecimento do Trovante, em 1976, e toda essa fase, até 1992, a história já foi mais do que contada”, referiu.
Desde o final dos Trovante até hoje “vem uma história que se calhar não foi tão contada, mas foi muito vivida”.
“Foi necessário arranjar uma distância em relação ao passado, sem me divorciar do passado, porque o passado faz parte daquilo que sou artisticamente e musicalmente. Mas foi preciso encontrar essa distância para não continuar a fazer coisas que fazia antigamente, ou de repente começar-me a baralhar e perder o meu norte”, partilhou.
Em 1996, editou “Cumplicidades”, álbum que contou com a colaboração do pianista Bernardo Sassetti (1970-2012). Seguiram-se “A hora do lobo” (1998), “Código Verde” (2000), “Reserva Especial” (2001) e “Fora de Mão” (2003).
Em 2008 voltou a editar um álbum gravado na íntegra em Cuba, “Olhos nos olhos”, e em 2011 volta a juntar-se a João Gil, para um álbum conjunto: “Luís Represas e João Gil”. Depois, editou “Cores” (2014), “Boa hora” (2018) (distinguido pela Sociedade Portuguesa de Autores), “Miragem” (2024) e vários álbuns ao vivo.
Da história de Luís Represas faz parte ainda o apoio à independência de Timor-Leste, tendo sido condecorado com a Medalha da “Ordem de Timor-Leste”.
Em 2005 foi igualmente distinguido pelo Estado Português com a Ordem de Mérito – grau de Comendador.
Ao longo da vida, também enveredou pela restauração, tendo liderado a gestão de um bar-restaurante em Lisboa, editou um livro infantil, “A coragem de Tição”, e apresentou o programa de televisão “Língua Mãe”.
O velório do músico está marcado para hoje, na Basílica da Estrela, em Lisboa, e o funeral realiza-se amanhã, disse à Lusa fonte da agência que o representa.
“Portugal, em dor, canta as suas canções”
O Presidente da República lamentou a morte de Luís Represas, afirmando estar a chorar a morte de um amigo. “Os maiores deixam um país a cantar. O Luís Represas será sempre um dos nossos maiores. E Portugal, em dor, canta as suas canções”, lê-se numa longa nota de pesar publicada no sítio oficial da Presidência da República. “Em nome de Portugal, curvo-me perante a sua memória com gratidão. E abraço, com profunda solidariedade, a sua família, os seus amigos, os seus companheiros dos Trovante e todos aqueles que hoje sentem que perderam alguém da sua própria casa, da nossa própria casa”, acrescenta António José Seguro. Também o PM sublinhou que óbito do cantor representa “uma grande perda”. “Luís Represas é uma das nossas maiores referências musicais. A sua partida é uma perda para o país e para a nossa cultura, mas o seu legado permanecerá tão contagiante como numa vida cheia de ‘sede de infinito… e dizê-lo cantando a toda a gente’”, escreveu Luís Montenegro. Já a ministra da Cultura lamentou a partida de “uma das vozes mais icónicas da música portuguesa”.
JTM com Lusa



