A escritora portuguesa Lídia Jorge, autora de vasta obra literária, entre a qual “Misericórdia” (2022), que lhe valeu vários prémios, incluindo o Médicis Étranger, venceu o Prémio Camões 2026, anunciou o Ministério da Cultura, Juventude e Desporto. O júri, reunido em formato online, deliberou por unanimidade distinguir a escritora Lídia Jorge, destacando “o diversificado conjunto da sua obra e o grande contributo para o enriquecimento do património literário e cívico-cultural da língua portuguesa”, lê-se no comunicado divulgado pela tutela.
O Prémio Camões é considerado o mais importante galardão de literatura em Língua Portuguesa e tem um valor pecuniário de 100 mil euros, suportado em partes iguais por Portugal e pelo Brasil.
O júri destacou ainda uma escrita “marcada por uma prosa poética densa”, dedicada à exploração de temas como o passado ditatorial e a transição democrática em Portugal, a condição feminina, a emigração, os conflitos geracionais, as transformações sociais e o papel da memória colectiva na construção da identidade contemporânea
“O Prémio Camões 2026 reconhece uma das mais relevantes vozes da literatura portuguesa contemporânea. Ao longo de décadas, Lídia Jorge construiu uma obra de enorme exigência intelectual e literária, contribuindo para afirmar a língua portuguesa como espaço de criação, pensamento e diálogo entre culturas”, considerou a ministra Margarida Balseiro Lopes, que informou a escritora por telefone.
O júri foi composto por duas personalidades portuguesas, José Carlos Seabra Pereira e Ana Mafalda Leite, duas brasileiras, José Bessa e Lúcia Santaella, e dois representantes dos Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa, Odete Semedo e Lopito Feijóo.
Nascida em Boliqueime, em 1946, Lídia Jorge estreou-se na ficção com o romance “O Dia dos Prodígios”, publicado em 1980. Ao longo de mais de quatro décadas de actividade literária, construiu uma vasta obra amplamente reconhecida em Portugal e no estrangeiro, que lhe valeu vários prémios, e com livros traduzidos em diversas línguas e estudados em universidades de vários países.
Entre as distinções que já lhe couberam, destacam-se o Prémio Pessoa, em 2025, o Prémio Médicis para livro estrangeiro e o Prémio Estatal Austríaco de Literatura Europeia, pelo seu mais último romance, “Misericórdia”, e o Prémio FIL de Literatura em Línguas Românicas, atribuído em 2020. No passado mês de Junho, o Governo atribuiu-lhe a Medalha de Mérito Cultural em Loulé, no âmbito da 4.ª edição do Fórum Cultura.
Instituído em 1988 pelos Estados português e brasileiro, o Prémio Camões visa distinguir autores cuja obra contribua de forma relevante para a projecção e valorização da língua portuguesa.
O secretariado da 38ª edição do Prémio Camões foi assegurado pela Direcção-Geral do Livro, dos Arquivos e das Bibliotecas (DGLAB), que, em colaboração com o Gabinete de Estratégia, Planeamento e Avaliação Culturais (GEPAC), coordena a participação portuguesa na atribuição do galardão.
No ano passado, o Prémio Camões foi atribuído à poeta e historiadora angolana Ana Paula Tavares.
A “dimensão e a simbologia Enormes” do Prémio Camões
Lídia Jorge, afirmou que este “é um prémio muito especial, de uma dimensão e de uma simbologia enormes”. “É o prémio que olha para a literatura portuguesa e para as letras portuguesas, como símbolo daquilo que é a nossa alma entornada pelo mundo, como Camões diz na Canção IX, pelo mundo e pela vida, pelo mundo em pedaços repartida”, disse em declarações à Lusa.
Recusando qualquer impacto na escrita dos galardões que tem ganhado, a escritora afirmou: “Essa simbologia é tão forte, tão forte, que de facto eu, neste momento, sinto-me comovida e agradecida”.
“Não altera nada. Quer dizer, uma coisa são os prémios que dizem que significa que o teu trabalho vale a pena. E isso é uma grande felicidade e ajuda muito e a pessoa fica confiante, naturalmente, mas o essencial é outra coisa, quer dizer, a escrita é uma jubilação interior, não é? É um trabalho interior, solitário no caso da literatura, solitário e, ao mesmo tempo, tão forte, tão grandioso, porque é uma luta com a língua, com a construção de uma história, com uma criação que é uma imitação de uma criação superior, isso não é alterado por nada que tenha a ver com os prémios”, declarou.
A autora de “A Costa Dos Murmúrios” participou na semana passada no Festival Literário Babell, no Porto, onde afirmou que se voltasse ao seu discurso do 10 de Junho do ano passado, em que disse que em Portugal “ninguém tem sangue puro”, “sublinharia mais” e seria “mais explícita”.
“Eu sublinharia mais, seria mais explícita [no discurso que fiz nas comemorações do 10 de Junho sobre Camões e a actualidade], porque, inclusive, eu aprendi com o que aconteceu naquele 10 de Junho, em Lagos. Foi um dia de revelação para mim própria. Fiquei surpreendida, porque eu tenho a certeza que 20 anos antes aquele texto não incomodaria ninguém”, declarou a escritora que recebeu, no ano passado, o Prémio Pessoa.
A editora da autora, em comunicado, felicita-a pelo Prémio Camões e afirma que esta distinção “vem confirmar e reforçar o estatuto de Lídia Jorge, que de resto já lhe pertencia, da mais importante e premiada escritora portuguesa da actualidade”.
A autora publicou recentemente “O Céu Cairá Sobre Nós”, livro que reúne as crónicas que, regularmente, publica no jornal espanhol El País.
Lídia Jorge estreou-se na literatura com a publicação de “O Dia dos Prodígios” (1980), tendo publicado desde então obras nas áreas do romance, conto, ensaio, teatro, crónica e poesia.
Os seus textos têm sido adaptados para teatro, televisão, cinema e, recentemente, o romance “Os Memoráveis” (2014) foi adaptado a ópera.
Presidente da República felicita Lídia Jorge “com muita alegria”
António José Seguro, felicitou “com muita alegria” a escritora Lídia Jorge pelo Prémio Camões 2026, e considerou que é “uma das grandes vozes na literatura contemporânea de todas as línguas”. O chefe de Estado refere que Lídia Jorge “construiu uma polifonia deslumbrante e trágica, comovente e cheia de inteligência sobre a natureza humana e a condição portuguesa”, com livros como “A Costa dos Murmúrios”, “O Vento Assobiando nas Gruas” e “Misericórdia”. “A sua obra, distribuída pelo romance, conto, ensaio, crónica, teatro e poesia, abriu caminhos singulares na nossa literatura e na forma de pensar Portugal, a nossa sensibilidade, a vida das mulheres portuguesas e a memória de eventos marcantes para a história recente do nosso país”, acrescenta. Segundo o Presidente, “nessa medida, é um barómetro que tem detectado os sinais de mudança e os movimentos transformadores da sociedade, sem nunca perder um cunho estético de primeira grandeza, o que faz dela uma das grandes vozes na literatura contemporânea de todas as línguas”. “O Prémio Camões é um dos corolários de uma carreira literária que o Presidente da República saúda e felicita. A sua voz é, neste momento, a nossa voz”, afirma António José Seguro.
JTM com Lusa



