O presidente da Fundação Bienal de Veneza, Pietrangelo Buttafuoco, rejeitou “posições de exclusão” de participações nacionais na 61ª exposição internacional, sustentando que aquele organismo italiano “não é um tribunal”, mas “um lugar de encontro e debate”.

O responsável máximo pela realização da 61.ª Exposição Internacional de Arte da Bienal de Veneza falava numa conferência de imprensa para apresentar o conceito pela voz da equipa de curadores, herdeira da concretização do projecto na sequência da morte inesperada da curadora-geral Koyo Kouoh (1967-2025).

“Não ignoramos o que se passa no mundo, não somos cegos, mas a Bienal [de Veneza] não é um tribunal, é um local de encontro e de debate”, disse Pietrangelo Buttafuoco sobre a polémica gerada na sequência da demissão do júri internacional nomeado por Koyo Kouoh, que admitiu excluir os pavilhões da Rússia e de Israel da atribuição dos prémios do certame.

A 23 de Abril o júri internacional anunciou que iria boicotar a atribuição de prémios a países cujos líderes fossem acusados de crimes contra a humanidade pelo Tribunal Penal Internacional, opção que atingia directamente Israel e Rússia, introduzindo uma forte dimensão política num evento tradicionalmente centrado na criação artística.

“Estamos conscientes da profunda fragilidade do presente, e também preocupados com a antecipação das censuras e dos veredictos antes das coisas acontecerem”, disse o presidente da Bienal, defendendo que “não se pode boicotar como resposta automática”.

A decisão do júri presidido pela curadora e gestora cultural brasileira Solange Oliveira Farkas gerou polémica imediata no meio cultural e diplomático, com reacções positivas e negativas, como a Fundação da Bienal e o governo italiano a contestarem este critério, defendendo a neutralidade institucional e recusando qualquer forma de censura.

“Aqui não alimentamos polémicas”, disse ainda Buttafuoco, acrescentando que “excluir alguns seria parar de ser o que a Bienal e também a cidade de Veneza sempre foi: um local de encontro, que recebe diferenças e contradições, transformando-as em colaboração e conexão”.

Reiterando a autonomia do funcionamento daquela fundação italiana e do certame mundial dedicado há 130 anos a exibir a arte contemporânea, Pietrangelo Buttafuoco afirmou que a organização “usa as mesmas regras com todos os participantes”.

Perante este conflito institucional e a falta de consenso, os cinco membros do júri internacional – de um painel ainda composto por Zoe Butt, Elvira Dyangani Ose, Marta Kuzma e Giovanna Zapperi – demitiram-se em bloco a 30 de Abril, apenas nove dias antes da inauguração do certame sob o título “In Minor Keys”.

Como consequência, a entrega do Leão de Ouro foi adiada para o encerramento da exposição, a 22 de Novembro, e, na ausência de júri, a organização introduziu um novo modelo de participação – os “Leões dos Visitantes” – permitindo ao público votar os melhores pavilhões e artistas.

Na conferência de imprensa, a única pergunta do público na assistência onde se encontravam jornalistas – já depois do presidente ter deixado o palco – foi dirigida aos curadores sobre a demissão do júri escolhido ainda em vida por Koyo Kouoh. Respondendo em nome do colectivo de curadores, Rasha Salti disse que não foram informados previamente da decisão e tiveram conhecimento “através da imprensa”.

“Respeitamos a decisão do júri e esperamos que visitem a exposição e o trabalho que foi feito”, disse Rasha Salti, co-curadora em conjunto com Gabe Beckhurst Feijoo, Marie Hélène Pereira, o editor-chefe Siddhartha Mitter e a assistente de pesquisa Rory Tsapayi.

Visivelmente comovidos pela ausência de Koyo Kouoh, os curadores referiram: “Tínhamos uma boa percepção da mensagem que Kouoh queria transmitir neste projecto e tentámos ser o mais possível fiéis à sua intuição e coragem”. Sublinharam ainda que algo “fundamental” no processo foi “ouvir os artistas com muita atenção”.

O artista Alexandre Estrela, representante de Portugal na 61ª Bienal de Arte de Veneza, com “RedSkyFalls”, manifestou-se desde o dia da apresentação pública do seu projecto contra a participação da Rússia e de Israel no certame, expressando solidariedade “com os povos oprimidos”.

A Bienal de Veneza abriu na quarta-feira em pré-inauguração – que se estende até hoje – para jornalistas, artistas, curadores e outros profissionais do sector, e irá abrir ao público em geral no sábado, com 100 representações nacionais, sete delas em estreia e 111 participantes na exposição geral de arte contemporânea.

Além de Portugal, do universo lusófono participam também as representações nacionais do Brasil e Timor-Leste. Macau marca presença com uma exposição inspirada na vida do pintor e poeta católico chinês Wu Li (1623-1718), conhecido como Jacone em português. A exposição “Polifonia de Jacone” tem curadoria conjunta de Feng Yan e Ng Sio Ieng, e reúne três artistas locais: Eric Fok Hoi Seng, O Chi Wai e Veronica Lei Fong Ieng.

 

JTM com Lusa