Os primeiros anos da Waffenfabrik Solothurn foram marcados por uma actividade florescente e pela chegada de encomendas lucrativas. Esse período chegou abruptamente ao fim em 1933, com a ascensão ao poder de Adolf Hitler. Foram ignoradas as restrições impostas pelo Tratado de Versalhes e Hitler lançou-se abertamente numa política de rearmamento da Alemanha. Como o “rearmamento clandestino” deixara de ser necessário, a unidade da Rheinmetall AG instalada em Solothurn perdeu pouco a pouco sua importância para a empresa alemã.

Foi então que a Waffenfabrik Solothurn passou a desenvolver e fabricar um novo produto: o fuzil anti-tanque (Panzerbüchse), uma pesada arma de infantaria, de calibre 20 mm, destinada ao combate de veículos blindados.

No fim da guerra, a situação deteriorou-se a tal ponto que, a partir de 1944, praticamente nenhuma arma era mais produzida em Solothurn. A empresa tentou manter-se activa lançando-se na produção de máquinas-ferramenta, mais uma vez sem sucesso.

Após a Segunda Guerra Mundial, o Acordo de Washington promoveu a dissolução da Waffenfabrik Solothurn AG.

No âmbito do processo de liquidação, também se tentou vender os fuzis anti-tanque produzidos durante a guerra e que permaneceram sem comprador. O problema: essas armas, que não acompanharam a rápida evolução dos veículos blindados entre 1939 e 1945, já estavam obsoletas durante o próprio conflito.

Em 1951, a questão pareceu subitamente resolver-se por conta própria. Um americano chamado Leo Lippe apresentou-se à direcção da sociedade de Solothurn, como cineasta vindo directamente de Hollywood, em busca de armas da época da guerra. Para as filmagens de filmes bélicos então produzidos em Hollywood, eram necessárias grandes quantidades de adereços – mas também de armas reais.

Para grande surpresa dos responsáveis de Solothurn, Lippe estava disposto a comprar todo o estoque de fuzis antitanque – cerca de 450 peças no total – por quase 2,5 milhões de francos suíços da época. A questão financeira, evidentemente, não parecia ser um problema.

O negócio foi fechado com um aperto de mãos, o montante foi pago e as armas foram embaladas em caixas de transporte, etiquetadas e preparadas para envio a Nova Iorque, mas as autoridades federais acabaram por frustrar a operação. Na ausência de comprovantes de pagamento suficientes, a transacção foi suspensa. Lippe teve o valor reembolsado.

O cineasta americano pareceu encarar o revés com filosofia: acabou convencido a adquirir diferentes máquinas-ferramenta produzidas na antiga fábrica de armas. Um contrato devidamente formalizado e todas as exigências cumpridas permitiram a venda de várias máquinas aos Estados Unidos.

Se Leo Lippe de facto actuava no meio cinematográfico, ele não era um “magnata” da indústria, mas um simples operador de câmara credenciado, especializado em efeitos especiais. Nascido no Bronx, em Nova Iorque, Lippe aparentemente abandonou a escola muito cedo, o que lhe causou dificuldades de leitura e escrita ao longo de toda a vida.

Então, como é que um operador de câmara acabou por adquirir armas no valor de milhões na Europa dos anos 1950? Bem longe da Califórnia e do universo cinematográfico, a resposta encontra-se no coração de Washington D.C., onde a Central Intelligence Agency (CIA) manteve a sede até 1959. Leo Lippe fora contratado pelo serviço de inteligência externa dos EUA para adquirir, na Europa, grandes quantidades de armas da Segunda Guerra Mundial.

A CIALink externo pretendia utilizá-las para armar forças anticomunistas, principalmente na Ásia. Lippe foi então enviado a Genebra, onde se hospedou numa suíte de hotel e assumiu o papel de um magnata hollywoodiano. Os fundos utilizados provinham da CIA e tinham sido transferidos para uma conta num banco genebrino.

Como Lippe não entendia nada de armas, foi-lhe designado um especialista: um jovem de 24 anos, oriundo da Filadélfia, chamado Samuel “Sam” Cummings. Coleccionador apaixonado por armas desde a juventude, Cummings tinha a função de percorrer a Europa à procura de “stock” de armamentos e negociar sua aquisição, enquanto Lippe solicitava os recursos em Washington e confirmava os pagamentos.

Se Leo Lippe desapareceu nos meandros da história após 1952, Samuel Cummings soube tirar pleno proveito da experiência. Fundou, em 1953, a empresa de comércio de armamentos International Armament Corporation (Interarmco), deixou a CIA, construiu um império no comércio de armas e tornou-se um dos maiores negociantes privados de armas do mundo.

As armas não chegaram aos filmes, mas os lucros ficaram nas contas de Samuel Cummings.

 

JTM com agências de notícias ocidentais