O realizador norte-americano Martin Scorsese apelou à preservação da arte “num lugar de honra e estima”, mostrando-se preocupado com o futuro do cinema pelo “menosprezo” que o rodeia, e a tecnologia que usa o artista
No seu discurso, durante a entrega dos Prémios Princesa das Astúrias, em Oviedo, Espanha, Scorsese aceitou o galardão para as Artes em nome “da liberdade de encontrar a tranquilidade e a criatividade”. Sublinhou ainda a importância, na actualidade, “de não se deixar levar por categorias absurdas, juízos triviais, sistemas de qualificação e modas”.
Essa liberdade criativa, acrescentou, “permite ver todo o caminho que conduz à revelação de tudo o que não se pode nomear, mas sentir e expressar através da arte”.
O galardoado com o Prémio Princesa das Astúrias das Artes agradeceu a distinção da terra de Cervantes, Goya, Unamuno, Picasso, Lorca e Luis Buñuel, “um dos maiores artistas da história do cinema”. Esta distinção, apontou, “é uma honra para o cinema, uma arte que sempre está presente, o que permite aos filmes de Buñuel estarem mais vivos e sejam mais actuais do que a última mensagem de texto que recebemos no telemóvel”.
Falou ainda nas oportunidades que os jovens hoje têm de fazer filmes, porque “basta um telemóvel para criar”, o que não acontecia no início da carreira de Scorsese.
No entanto, confessou-se muito preocupado com o futuro do cinema, “numa sociedade em que a arte é sempre tão frágil, e se critica ou marginaliza, como se não fosse essencial à vida”. Para o realizador, o cinema converteu-se “numa corrente dentro de uma torrente de imagens em movimento que inundam as vidas das pessoas, sejam elas séries de televisão, vídeos de gatos ou didácticos, ‘reality shows’, o filme ‘Lawrence da Arábia’ ou reportagens”.
Na sua opinião, tudo se converteu em “conteúdos”, uma palavra que não lhe agrada, e que tem levado ao debate, nos EUA, sobre o uso do juízo crítico, a liberdade de pensamento e de acção na arte. “Aí começa a verdadeira luta. A luta pelo espírito”, salientou, defendendo que se deve conquistar a tecnologia actual “para que os artistas possam usar a tecnologia em vez de serem usados por ela”.
Em intervenções que antecederam a entrega do Prémio, Martin Scorsese manifestou-se um defensor do formato clássico do cinema, projectado numa grande tela, em sala, mostrando preocupação por se viver uma época em que se questiona o futuro da chamada 7ª arte, perante a revolução tecnológica e o surgimento de plataformas como Netflix ou a Amazon.
Em Oviedo, dois dias antes da cerimónia, Scorsese criticou também a política de imigração da administração de Donald Trump, que considera ser “contra a ideia básica” do que são os EUA na sua génese. E lembrou que, se essa política tivesse começado a ser aplicada em 1909, hoje ele não estaria onde se encontra.
Realizador de “Taxi Driver” (1976), “Raging Bull” (1980) e “The Age of Innocence” (1993), Scorsese soma 75 anos e uma carreira marcada por filmes como “Goodfellas” (1990) e “Gangs of New York” (2002). “Silence” (2016), “The Wolf of Wall Street” (2013), “Hugo” (2011), “Kundun” (1997), “Casino” (1995), “The Last Temptation of Christ” (1988), “The Color of Money” (1986), “After Hours” (1985) e “The King of Comedy” (1982) são outros filmes no percurso do cineasta, a par de documentais como as séries dedicadas ao cinema, à música popular e aos seus heróis, ou a publicações como a revista The New Yorker (“Uma Discussão com 50 Anos”, 2013).
Scorsese foi distinguido com o Óscar de melhor realizador pelo filme “The Departed”, de 2006.
JTM com Lusa



