Foto de Ronaldo Schemidt captou “tocha humana” num protesto na Venezuela
Foto de Ronaldo Schemidt captou “tocha humana” num protesto na Venezuela

Ronaldo Schemidt, fotógrafo da AFP, obteve o principal prémio do concurso “World Press Photo 2018” pelo registo de um manifestante encapuzado e em chamas durante um protesto em Caracas

 

Como uma bola de fogo, um jovem corria desesperado, agitando as mãos para tentar apagar as chamas. A sua máscara de gás só deixava escapar alguns gritos de dor. Atrás dele, numa parede, um grafite mostrava uma arma a disparar a palavra “PAZ”. A poucos centímetros, o fotógrafo da AFP Ronaldo Schemidt imortalizava esse instante dos violentos protestos que abalaram a Venezuela entre Abril e Julho de 2017.

Distinguida como a “Melhor Foto do Ano” pelo prestigiado concurso “World Press Photo” (WPP), a imagem captou o momento em que Víctor Salazar, um estudante de 28 anos, parecia uma tocha humana, após a explosão do tanque de gasolina de uma motocicleta militar com outros jovens manifestantes em 3 de Maio na Praça Altamira, no leste de Caracas. A sequência desta imagem terá durado dez segundos.

“Senti um calor, o clarão. Não sabia o que era, só vi que uma bola de fogo vinha na minha direcção. Segui-a, disparando a minha câmara sem parar, ouvi os gritos e foi aí que me dei conta do que era”, recordou Schemidt à AFP.

O fotógrafo venezuelano, de 46 anos, que deixou a sua terra natal há quase duas décadas, foi enviado do escritório do México para reforçar a equipa de Caracas na extenuante cobertura dos protestos organizados pela oposição contra o governo venezuelano em 2017.

Implorando por socorro, Víctor, já sem a t-shirt incendiada, atirou-se para o asfalto, revirando-se no chão para tentar acabar com o suplício. Outros jovens manifestantes conseguiram apaziguar as labaredas, usando as próprias mãos. Com 70% do corpo queimado, foi submetido a 42 cirurgias de enxerto de pele. “O seu tratamento foi muito doloroso, muito traumático, gritava, não queria mais viver. Agora está a cicatrizar”, relatou recentemente à AFP a sua irmã, Carmen Salazar.

Foram quatro meses de confrontos quase diários entre as forças de segurança e opositores que exigiam a saída do poder do presidente Nicolás Maduro, numa das piores crises económica, política e social que a Venezuela já viveu. Nas ruas, travava-se uma batalha campal sob uma chuva de bombas de gás lacrimogéneo, balas de borracha ou vidro, pedras e cocktails Molotov. Mais de 120 pessoas morreram, muitas jovens, e milhares ficaram feridas e foram detidas.

Escolhido entre cinco finalistas num concurso que atraiu mais de 4.500 fotógrafos de 125 países, o prémio reconhece o fotógrafo que captou com “criatividade e talento visual (…) uma imagem ou acontecimento de grande importância jornalística ocorrido no ano passado”. Mas, para Schemidt, representa muito mais. “Essa foto representa a terrível situação de um país, o meu, em desgraça: refém de uma espiral de violência política e social”, lamentou.

 

Exposição abre na Casa Garden no final de Setembro

A RAEM volta a figurar no calendário mundial da exposição anual da “World Press Photo”, no âmbito da parceria de longa data estabelecida com a Casa de Portugal em Macau. Segundo a Fundação que promove o concurso, as melhores fotografias do ano estarão patentes na Casa Garden entre 28 de Setembro e 21 de Outubro.

 

JTM com agências internacionais